Nelore

SUSTO no mercado de elite

Liquidação de plantéis consagrados acende a luz amarela

Adilson Rodrigues
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Nos últimos anos, o mercado de elite da raça Nelore vem sofrendo duros golpes. O mais recente foi o anúncio da liquidação do time de pista da Fazenda Mata Velha, uma das grandes referências da seleção PO há 40 anos. A Mata Velha foi por seis vezes o Melhor Expositor do Ranking Nacional da raça e, em 2010, foi o Melhor Criador do país, além de ficar famosa por vender animais por preços situados na casa dos milhões de reais. Segundo Nilo Sampaio Júnior, zootecnista da propriedade, a Mata Velha vai focar suas ações na seleção de touros para campo e na genética POI, que está trazendo da Índia, pois o proprietário Jonas Barcellos sabe que na comprovada escassez atual de linhagens está uma excelente oportunidade de negócio.

Para o presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Felipe Picciani, apesar do susto, o mercado continua como sempre caminhou, o que ocorre são algumas pequenas nuances. “Apesar das pistas do Nelore apresentarem uma pequena queda no número de animais e a qualidade genética ter melhorado, o que eu sinto é que neste ano o mercado de produção está muito sólido, posto a excelente procura por bezerros”, avalia Picciani. Foi exatamente por este motivo que Alice Ferreira, titular da Fazenda Quilombo e ex-presidente da ACNB, também decidiu vender seu plantel de exposição e investir no estimado mercado de touros melhoradores. De acordo com o Picciani, a liquidação do time de pista da Mata Velha pode ser proveitosa para os demais criatórios. Não acredita em desdobramentos negativos para o mercado.

“Ficamos tristes por perder o convívio diário do Jonas Barcellos nos leilões, mas este remate é o mais aguardado do ano. São animais que não estariam à venda em outra ocasião”, relata o presidente da ACNB. Eduardo Biagi, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), concorda: “o plantel Mata Velha contribuiu muito para o desenvolvimento da raça Nelore. Este gado dispersado vai reforçar projetos de seleção de outros criadores e estimular o aparecimento de novos vencedores nas pistas”, observa. Para quem já havia adquirido produtos Mata Velha, a questão da valorização ou depreciação dos seus animais dependerá exclusivamente da qualidade genética que possui, sob o ponto de vista de Felipe Picciani. “Um animal que não era tão bom dificilmente verá seu preço subir. Ainda temos outro fator: vai depender se eles têm as linhagens mais desejadas atualmente”, pondera.

Mercado

Biagi avalia que cada liquidação tem uma história diferente. Lembrando apenas das últimas, a maioria delas foi realizada por questões de sucessão ou ainda por mudança de foco na seleção. “Todas elas foram grandes sucessos comerciais, com liquidez total e faturamentos de médios a altos”. Para ele, quanto às questões mercadológicas, reajustes de preços ocorrem em qualquer segmento produtivo, com a oferta e procura regendo as comercializações. “O Nelore, como dizem, aguenta desaforo, e desta vez até do câmbio. O importante é a constatação de que o mercado é sólido e mantém liquidez em todas as categorias. Animais bons são apregoados com preços bons. Animais de exceção continuam sendo alvo de desejo e muitas vezes registram valores recordes”, complementa.

Conforme Paulo Horto, proprietário da Programa Leilões, todos os setores da pecuária estão em evolução, não sendo diferente com o Nelore. Um ponto positivo que observa no mercado de elite Nelore é a descentralização dos pólos comerciais, antes restritos a Minas Gerais e São Paulo. “Hoje, podemos observar leilões de altíssimo nível em MS, MT, PR, GO, AL, RJ e PA, por exemplo”, assinala. Além disso, afirma que o número de leilões vem crescendo ano a ano, fortalecido por esses pólos regionais, proporcionando aumento nos números de criadores e animais comercializados. “Com relação a médias, nenhum leilão se compara a outro, pois a média de cada um depende muito do plantel oferecido no dia”, destaca.

Jonas Barcellos liquida plantel de pista para apostar no POI e na venda de touros

Seleção de pista

Muito além da necessidade de novas linhagens na raça Nelore, há tempos algumas vertentes, tanto de criadores quanto de pesquisadores, cobram maior proximidade entre a realidade de pista e de pasto, com foco em animais mais funcionais. Este motivador também poderia ajudar a explicar o comportamento atual do mercado. Eduardo Biagi diz que embora existam aqueles que acreditem no gado de pista como um produto diferente daquele indicado para os pastos, a função básica dos plantéis seletivos é fornecer genética para o rebanho comercial e manter a sustentabilidade do negócio do criador e do pecuarista. “A seleção pela morfologia era a única forma de trabalhar melhoramento genético, quando ainda não existiam tecnologias. Porém, essa cobrança é legítima. Muitos criadores que têm gado PO e gado comercial perceberam essa necessidade, e na ABCZ todos estão sendo ouvidos. O departamento técnico da entidade realiza cursos periódicos para atualizar os critérios de julgamento. Acredito que as duas linhas de pensamento sejam complementares”, conclui.