Sanidade

Carrapatos para sem fim

Em suspeita de resistência, faça o teste antes da aplicação dos produtos. É possível realizá-lo na propriedade

Esta é a época do ano em que os pecuaristas mais se preocupam com as infestações de carrapatos nos rebanhos bovinos. O fato é que, apesar de sofrerem com a praga há décadas, ainda falta controle eficiente por parte de alguns pecuaristas. Sabe-se que um dos grandes problemas é a resistência às principais moléculas disponíveis, situação que teve início no Brasil em 1946, quando populações tolerantes ao arsênico tiveram de ser controladas com BHC, DDT e outros produtos do grupo químico dos organoclorados.

De acordo com John Furlong, médico-veterinário com Ph.D. em Parasitologia Veterinária e pesquisador da Embrapa Gado de Leite, geralmente esses parasitas se utilizam de alguns artifícios para sobreviver à aplicação de carrapaticida, dentre eles redução da taxa de absorção do produto, mudanças no metabolismo, no armazenamento e na eliminação e alterações no local de ação do carrapaticida. “O que é importante salientar é que, uma vez instalada a resistência de uma população de carrapatos a um determinado produto, ela será também para os demais da mesma família ou grupo químico – e para sempre”, alerta o especialista.

Alta infestação pode comprometer a produtividade e a saúde dos animais

Furlong lembra ainda que, na grande maioria das propriedades, o único método de controle utilizado é a aplicação de carrapaticidas, determinada pela quantidade elevada de fêmeas ingurgitadas (mamonas) no rebanho. Nesse caso, dois erros são comuns: o primeiro é a troca frequente e indiscriminada do produto; o segundo é a aplicação incorreta e constante. “Isso permite que sejam selecionados mais rapidamente”, adverte.

Para Cecilia Veríssimo, é fundamental que o produtor encaminhe amostra de mamonas para teste

Segundo Cecília José Veríssimo, médica-veterinária e pesquisadora do Instituto de Zootecnia (IZ), para que o controle seja efetivo, é fundamental que o produtor encaminhe amostra de mamonas (cerca de 200 ou meio pote de margarina) para realizar o exame conhecido como biocarrapaticidograma, que mostra qual o carrapaticida mais indicado para a propriedade. “O Centro de Pesquisa em Gado de Leite da Embrapa, em Juiz de Fora (MG), faz esse exame de graça para o produtor rural. O Instituto Biológico da APTA (Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios), situado em São Paulo, também o faz, cobrando um preço acessível pelo exame. Sem saber se o produto que usamos está funcionando, estaremos jogando dinheiro fora e não controlando a população de carrapatos, tanto nos animais como nas pastagens, além de prejudicar ainda mais os bovinos”, informa a pesquisadora. Também é possível fazer um teste caseiro na propriedade.

Alternativas de controle

Entre elas, temos o velho controle estratégico. A ideia é aproveitar os momentos desfavoráveis ao desenvolvimento do carrapato na pastagem, considerando duas variáveis climáticas que influenciam drasticamente: temperatura e umidade. Nesse sentido, é preciso trabalhar em períodos de seca, com raras exceções.

Na região Central, essa época – abril a setembro – é caracterizada por temperaturas mais elevadas, o que faz com que as larvas transpirem e percam água durante o dia. Como ainda não se alimentaram, essa ocorrência as leva à morte mais rapidamente. No Sudeste, onde a maior parte da região possui microclimas favoráveis aos carrapatos, o ideal é basear a atuação de controle na primavera – setembro a dezembro. Na região do Cerrado, a umidade do ar é muito baixa durante a segunda metade da época seca – julho a setembro –, condição que reduz significativamente a população de ovos e larvas nas pastagens. No Sul, estudos recomendam um primeiro tratamento no início da primavera – setembro/outubro –, outro em dezembro, e um terceiro em fevereiro/ março. Na Zona da Mata e Agreste, na região Nordeste, o ideal é fazer o controle estratégico durante os meses de outubro a março, enquanto que no sul da Bahia e na região Norte, praticamente não existem alternativas de tratamento, em função das condições climáticas. No primeiro, pode-se aproveitar os períodos de menor precipitação, e no segundo, a tendência de diminuição da disponibilidade de carrapatos na pastagem nos meses de agosto a outubro.

O correto é dar de cinco a seis banhos em intervalos de 21 dias ou fazer de três a quatro tratamentos pour on, com intervalos de 30 dias.

No caso das regiões Sul e Central, uma vez que sistema estratégico de controle é realizado nos períodos de chuva, a opção para escapar dessa desvantagem é programar os banhos ou tratamentos em intervalos menores (18 a 19 dias), podendo estender a até 22 dias se houver precipitação na data marcada para o próximo tratamento.

Além do controle estratégico, Cecília também destaca o controle biológico, com a seleção de animais resistentes aos carrapatos. Ela lembra que todos os bovinos das raças zebuínas se enquadram nisso, com ênfase para o Nelore. Já as raças de origem europeia, em especial a Holandesa, são altamente suscetíveis. “Contudo, a raça Jersey, embora tenha origem europeia, deve ter tido um ascendente zebuíno, pois ela é bastante resistente ao carrapato – e tolerante ao calor.”

A veterinária ressalta, ainda, que um estudo realizado pelo IZ com vacas das raças europeias Holandesa, Pardo-Suíça e Jersey, vacas mestiças de vários graus de sangue europeu x zebu, e zebuínas Gir Leiteiro e Nelore, identificou a última raça como a mais resistente, seguida de perto pela Gir. Houve uma surpresa: “as vacas Jersey surpreendentemente tiveram 70% de sua população considerada resistente”, comenta a especialista. A Pardo-Suíça e Holandesa foram as mais suscetíveis. “Mas é preciso lembrar que mesmo dentro de uma população suscetível existem animais resistentes. Por isso, recomendo que os produtores fiquem de olho em seus animais, e descartem, se puderem, aqueles mais suscetíveis ao carrapato. Selecionem e retenham os resistentes, pois essa característica é passada às gerações seguintes.”

A homeopatia é mais uma opção que tem se mostrado útil, no sentido de aumentar a resistência dos animais (observações feitas com gado mestiço). Assim como o controle seletivo, concentram-se as aplicações de carrapaticida nos animais de sangue “doce”, que estão sempre mais infestados. “Deixar animais resistentes sem a medicação permite que alguns carrapatos não sejam afetados pelo carrapaticida, podendo garantir que haverá uma população que não sofreu a pressão de seleção exercida pelo produto, o que aumenta a vida útil do medicamento”, esclarece Cecília.

A bióloga e pesquisadora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Animal do Instituto Biológico (IB), Márcia Cristina Mendes, lembra que presença de aves para o controle natural também é uma alternativa interessante e eficaz. Dentre as predadoras de carrapatos, temos as galinhas domésticas, a garça vaqueira, gaviões “Chimango”, o pássaro Vira-bosta, o gavião pomba e a galinha d’Angola. Outros predadores naturais são ratos, sapos e formigas.

Há também a vacina, cujo resultado de testes tem se mostrado de 50% a 90% eficiente. Márcia ressalta que a primeira foi lançada na Austrália, TickGARD; depois, cubanos lançaram a GAVAC, e mais tarde, a Austrália lançou uma nova versão da primeira: a TickGARD PLUS. “No momento, pode ser usada juntamente com tratamento químicos, pois reduz o número de aplicações de carrapaticidas. Mas há vários fatores limitantes, como o alto custo, efeito em longo prazo e os requisitos básicos no seu uso, que devem ser devidamente seguidos.”

Márcia Mendes chama a atenção para o controle biológico

QUAL A NECESSID ADE DE BANHO DE CARRAPATICIDAS?

Para se ter ideia, basta contar, em um dos lados do animal, o número de carrapatos maiores que 0,5 cm, encontrados no terço anterior do animal (cabeça, pescoço, paleta, braço, axila e barbela), conforme a tabela a seguir:

Se o lado do animal contiver de 9 a 33 carrapatos com mais de meio centímetro no terço anterior, é necessário aplicar carrapaticida

Banho de carrapaticida deve ser aplicado com critério

Teste caseiro de eficiência do carrapa ticida

Em vez de mudar indiscriminadamente o grupo químico do carrapaticida de “contato” caso desconfie de sua eficiência no controle de carrapatos de seu rebanho e da resistência destes ao produto, faça um simples teste:

1. Prepare as soluções de banho (um litro é suficiente) conforme a dose recomendada pelo fabricante para cada um dos produtos testados. Utilize seringas de 10 ml – marcadas com o nome dos produtos – para quantificar a dose utilizada e um copo de água para o grupo de controle.

2. Arranque do animal em torno de 10 fêmeas ingurgitadas para mergulhar nos carrapaticidas testados e outras 10 para mergulhar na água.

3. Após 5 minutos, retire os carrapatos dos produtos, seque-os levemente com um papel higiênico e coloque-os em recipientes limpos e identificados.

4. Os recipientes devem ser colocados em ambiente abrigados do sol. Em regiões e épocas cuja umidade do ar é muito baixa, pode-se colocar no recipiente um chumaço de algodão embebido em água.

5. Em sete a dez dias, é possível avaliar o resultado, desde que as fêmeas mergulhadas na água tenham colocado os ovos (marrons, brilhantes e aderidos uns aos outros), pois a temperatura, por exemplo, pode influenciar na postura. Atente para esse detalhe para não obter uma falsa conclusão a respeito da eficiência do produto avaliado.

6. Em época de frio, a avaliação do resultado deve ser feita com mais tempo, já que as “mamonas” levam mais tempo para fazer a postura, e os ovos, para incubar.

7. A maioria dos carrapatos mergulhados em produto morre antes de colocar os ovos. Aqueles que não morrem colocam poucos ovos escuros, secos e separados um do outro, dos quais não nascerão larvas. Caso haja resistência, os carrapatos colocarão tantos ovos quanto as fêmeas mergulhadas em água e com a mesma aparência destas.

* Esse teste não serve para grupos de produtos com ação sistêmica, pois entram em contato com os carrapatos somente por meio da alimentação.

** Com o teste é possível, também, identificar qual é o melhor grupo químico para controlar a população de carrapatos.

Fonte: com informações do livro Carrapatos: problemas e soluções, de John Furlong – Embrapa Gado de Leite.