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HEREFORD e BRAFORD : genética de sucesso

Genética, aliada a resultados de ganho de peso, conversão alimentar, rendimento de carcaça e adaptabilidade, motiva investimentos

Sob uma temperatura de extremos, que pode ultrapassar os 43ºC durante seis meses do ano e até 15º C na outra metade, estão sendo produzidos e criados tourinhos meio-sangue, 3/4 e 3/8 Braford, na região do Pantanal sul-matogrossense, fronteira com o Paraguai. O criador Guilherme Prata, da Prata Agropecuária, de Porto Murtinho (MS), é um dos pecuaristas do Centro-Oeste que enumera os avanços obtidos no rebanho a partir do uso da genética Hereford e Braford na região. “O gado melhorou muito depois que começamos a trabalhar com as raças. O Braford trouxe adaptabilidade para as condições climáticas adversas que enfrentamos aqui”, exemplifica. O produtor, que faz ciclo completo há mais de 20 anos, iniciou suas apostas nas raças com cruzamento industrial de sangue Hereford em fêmeas Tabapuã. Prata relata que tem obtido animais com pelo zero, prepúcio corrigido e grau de sangue entre 55% a 60% zebu para 45% a 40% sangue Hereford, em média. “As vacas com sangue Braford parem 30 dias antes das outras raças; as novilhas emprenham seis meses antes e o período do abate é antecipado em seis meses, tanto nos machos quanto nas fêmeas”, diagnostica, tendo como base resultados obtidos em ambiente de criação 100% a pasto.

O técnico da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Walvonvitis Baes Rodrigues, há 12 anos radicado em Campo Grande/MS, reforça que as raças Hereford e Braford passam por um grande momento no Brasil Central, onde há um interesse em animais cruzados por parte dos invernistas e confinadores, em especial os oriundos dos cruzamentos com raças britânicas. “De 2008 para cá, houve uma retomada na utilização dos cruzamentos industriais de forma mais organizada, com orientação técnica por parte dos profissionais que trabalham com as diferentes raças europeias sobre as exigências e necessidades de cada uma delas e os benefícios que podem trazer para a pecuária nacional.” É nesse contexto que o Hereford e o Braford vêm ganhando espaço, pois entre as características das raças, são enumeradas qualidades quanto à elevada produtividade, excelente acabamento de carcaça, facilidade de adaptação ao confinamento, docilidade, sem falar das fêmeas apontadas como altamente férteis e que criam muito bem o bezerro. Rodrigues reforça quanto à necessidade de se produzir animais adaptados, que respondam bem a todo o tipo de ambiente ao qual for submetido. “Sabemos das exigências que esses animais necessitam, por isso não podemos abrir mão da adaptação e da rusticidade, sem desconsiderarmos o padrão genético.”

Walvonvitis Baes destaca que as raças Hereford e Braford passam por um grande momento no Brasil Central

Prova da aceitação desse padrão genético, por parte dos criadores do Brasil Central, está no crescimento do uso das genéticas Hereford e Braford em Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF). “Ano passado, realizamos em torno de 25 mil IATFs, das quais 40% foram de genética Hereford e Braford. Temos atendido a região de fronteira do Paraguai, onde há uma preferência declarada aos ‘caras-brancas’”, analisa Rodrigues. A ABHB tem no quadro de associados criadores no Centro-Oeste trabalhando com cria, recria e engorda. “Os resultados são compensadores: os produtores estão abatendo animais oriundos desses cruzamentos antes dos dois anos de idade, com ótimo acabamento de carcaça e produtos destinados à exportação. As fêmeas, após seleção, seguem para a reprodução com 14 a 16 meses”, reforça o técnico. O relatório da Associação Brasileira das Empresas de Inseminação Artificial (Asbia), divulgado em março, comprova: houve um crescimento de 23,4% do uso de sêmen Braford em 2010 na comparação com os doze meses de 2009. Porém, se a avaliação considerar o desempenho de 2006 a 2010, o número sobe para 173,54%.

Bezerros fortes e saudáveis : sinal de produtividade

Pelo sistema que a pecuária de corte é submetida no Centro-Oeste, observase que a raça Hereford tem sido utilizada em inseminação artificial para cobertura de vacas zebuínas e a raça Braford em monta natural para repasse de inseminação ou na inseminação de matrizes cruzadas. De acordo com o técnico da ABHB, as cruzas das duas raças atendem às expectativas daquele que opta por produzir um animal mestiço. “Há uma expectativa atendida, uma vez que se terá um animal precoce que venha a encurtar o período da recria ou até mesmo excluí-la do processo. As fazendas de cria tem se entusiasmado com o terneiro produzido nesse cruzamento. Os invernistas estão à procura desses animais porque já comprovaram os ganhos proporcionados na cruza.” Segundo Walvonvitis, mesmo com custos extras para produzir essa arroba nos animais cruza Hereford, estes ficam reduzidos devido ao rápido ganho de peso, conversão alimentar e rendimento de carcaça, além da padronização e uniformidade quando os animais são submetidos ao mesmo manejo, seja intensivo ou extensivo

O técnico da ABHB, Gustavo Isaacsson, radicado no Rio Grande do Sul, vai além e reforça que a raça Hereford é a mais cosmopolita entre as britânicas da atualidade. “O Hereford está presente nos mais variados e diferentes ambientes e em grandes volumes, e proporcionou ultrapassar fronteiras através do Braford, que é visto no Brasil Central e em países como Bolívia, Colômbia, Venezuela, Paraguai, Argentina e Uruguai com perfeita adaptação e produção pujante.” Alinhada com as raças além fronteiras, a ABHB busca orientar o rumo da seleção das raças pelo Programa de Melhoramento Genético PampaPlus. Desenvolvido em parceria com a Embrapa Pecuária Sul (Bagé/RS), o programa atua com um modelo de avaliação que considera os vários ambientes de produção. O trabalho de seleção e utilização dos resultados, a cada etapa de avaliação, possibilita ao criador ter alguns de seus animais destacados num total de avaliados que cresce a cada ano. Conforme a presidente do Conselho Técnico da ABHB, Thais Bento Pires Lopa, o relatório genético dos touros candidatos à dupla marca gerada anualmente pelos programas de melhoramento genético chancelados pela ABHB é um exemplo disso. “Para receber essa distinção, esses animais ainda devem passar pela revisão do Inspetor Técnico, ou seja, é o suprassumo.”

Segundo Gustavo Isaacsson, sangue Hereford ultrapassou fronteiras através do Braford

Com isso, a ABHB atua na expectativa de garantir que o criador, ao adquirir essa genética, esteja obtendo animais que irão gerar produtos que vão dar uma resposta positiva em termos produtivos, independentemente do ambiente. O Programa de Melhoramento Genético PampaPlus avalia 42 estabelecimentos e aproximadamente 15 mil animais, tendo recebido o ingresso da Estância La Victória – tradicional criatório uruguaio -, em abril. Conforme Gustavo Isaacsson, outra facilidade compreendida através de programas de melhoramento genético são os diferentes resultados que podem ser encontrados. “No Braford, por exemplo, é possível atuar para que os animais fiquem mais azebuados ou europeus, conforme a necessidade do criador. Isso é um grande combustível para a aceitação da raça. Se temos ambientes mais frios, vamos trabalhar com animais menos azebuados; clima mais quente exige o contrário”, complementa o técnico. Nessa linha, acentua a presidente do Conselho Técnico da ABHB: “A Associação Brasileira de Hereford e Braford, dentro da sua filosofia de valorização das raças Hereford e Braford, vem trabalhando na conscientização dos criadores e do seu corpo técnico na necessidade de buscar um biótipo adaptado que se destaque em vários sistemas de produção. Animais adaptados poderão expressar todas as qualidades naturais das duas raças, como fertilidade, habilidade materna, facilidade de terminação, rendimento e qualidade de carcaça e temperamento dócil.”

Meio-sangue Braford e Nelore criados no Mato Grosso do Sul

Outro trabalho realizado para garantir a qualidade dos animais é o de capacitar e atualizar os Inspetores Técnicos de Registro Genealógico credenciados pela associação, que fazem o trabalho de seleção dos animais de acordo com as normas e parâmetros da raça. Segundo Thais, além desse trabalho, eles também prestam outros serviços aos criadores, que vão da orientação no acasalamento à seleção final dos reprodutores e matrizes. “Esse encontro de atualização é realizado anualmente com intuito de padronizar os critérios de seleção de acordo com o que se está buscando fixar na raça Hereford e Braford e, assim, também promover o intercâmbio de experiências entre eles, já que atuam em diversas regiões com ambientes diferentes.” Todas essas ações têm a intenção de soma ao trabalho individual de cada criador em buscar um animal que dê maior rentabilidade, tanto na venda de genética quanto no rendimento final no frigorífico.

Programa Carne Pampa

O Programa Carne Certificada Pampa, da ABHB, comemora 11 anos de existência em uma estrutura reformulada e em franca expansão. Somente no primeiro semestre deste ano, verificou-se um incremento de 62% de animais certificados em relação ao ano passado. Conforme o gerente do Programa, Guilherme Dias, a expectativa é de superar os 30 mil certificados até o final do ano. “Hoje, os animais Hereford estão sendo beneficiados pela garantia Esalq Max, que supera as bonificações de tabela em momento de baixa do boi. Isso significa que o produtor receberá automaticamente o que for maior entre o preço negociado +6% e o preço indicado no ESALQ Max +2%,” exemplifica quanto ao pagamento realizado por um dos frigoríficos parceiros. O programa de certificação da ABHB atua em parceria com o Grupo Marfrig (plantas gaúchas de Bagé, Alegrete, São Gabriel e Capão do Leão) e com o Frigorífico Silva (Santa Maria). Em ambos, as fêmeas recebem os mesmos preços praticados para os machos. O gerente complementa que além das características inerentes à raça Hereford na obtenção de carne de qualidade, reconhecidas mundialmente e registradas através da história, o cenário atual desafia os produtores a se especializarem cada vez mais a entregarem uma carne com a mais alta qualidade a preços competitivos. O investimento em ações de marketing é um dos diferenciais para mostrar a qualidade diferenciada da carne. Além disso, pesquisas têm comprovado o desempenho superior da raça Hereford na fase de terminação, tanto a campo quanto em confinamento. “Estudo divulgado no primeiro semestre pela Embrapa Pecuária Sul destaca a habilidade do Hereford em produzir carne, sendo a raça mais produtiva tanto a pasto quanto em confinamento. No mesmo experimento, comprovou-se a eficiência bioeconômica do Hereford, que obteve a melhor conversão alimentar e o melhor consumo alimentar residual”, frisou.

Brazilian Hereford & Braford

Em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), a ABHB atua desde 2009 com o Brazilian Hereford & Braford, promovendo no mercado internacional a qualidade da genética brasileira das raças Hereford e Braford e de produtos agropecuários produzidos no Brasil. O projeto de promoção comercial objetiva, ainda, a internacionalização das empresas e a aproximação comercial com mercados compradores. Para isso, são realizadas missões comerciais a países considerados alvo e projetos como “Comprador e Imagem”, no qual são trazidos convidados para conhecer a produção genética das raças e os produtos participantes do BHB no Brasil. Outra forma de fomento e realização de negócios é a participação de rodadas de negócios: nesta edição da Expointer 2011 (Esteio/RS), o Projeto Imagem trouxe convidados da Colômbia e Nova Zelândia para conhecer cabanhas produtoras de genética, centrais de inseminação artificial e o Centro de Pesquisa da Embrapa Pecuária Sul; já em julho, empresários que integram o BHB participaram da Agroexpo, realizada em Bogotá, na Colômbia, com estande próprio, e também da Expo Paraguai, em Assunção. Para o presidente da ABHB, Fernando Lopa, o Projeto BHB, sobretudo, busca a valorização do produtor nacional. “Queremos reverter 500 anos de importação e de sentimento de povo colonizado. Temos excepcionais produtores de genética no Brasil – como o Nelore –, então, por que em outras raças temos que nos sentir inferiores?” Segundo Lopa, os produtores no Brasil, devido a uma bem-sucedida política de marketing internacional, compram animais por foto e se encantam porque são de outros países. “Acabam comprando animais de criatórios de 50 matrizes, por exemplo, em vez de criatórios de mais de mil matrizes e uma pressão de seleção de 15% dos machos de toda uma safra, como são os touros dupla-marca do PampaPlus, da ABHB”, informou. Nessa direção, é importante o trabalho das empresas que integram o BHB nas mostras internacionais. Dados de resultado da missão comercial à Colômbia mostram que os empresários brasileiros que viajaram para Bogotá tiveram contato com, pelo menos, 30 visitantes de, no mínimo, quatro países interessados em produtos. Para a ABHB, isso demonstra o potencial de internacionalização que essas empresas estão tendo e terão, sem falar na aproximação comercial com fortes mercados compradores, como Colômbia, Venezuela, Equador, Estados Unidos e Canadá, países que realizaram rodada de negócios com integrantes do BHB.

Consócio BHB possibilita que estrangeiros utilizem a genética brasileira

Para o secretário de Administração Geral da ABHB, Celso Jaloto Ávila Jr., o Brasil tem grandes possibilidades de exportar material genético para algumas destas nações. “Na Agroexpo, em todos os momentos pude constatar que a pecuária do Brasil e, particularmente, a genética Braford brasileira, tem excelente futuro, face ao comércio com os países da América Latina”. De acordo com José Saldaña, que representou duas empresas brasileiras integrantes do BHB, na Agroexpo, existem muitas raças bovinas na Colômbia, pois os criadores estão acostumados a provar raças novas buscando aquelas que melhor se adaptam às suas regiões. Ele destaca também que o comércio de embriões está muito avançado no país, uma vez que os produtores já conhecem bem as vantagens da utilização da técnica. “Creio que o Brasil tem um potencial enorme para oferecer genética para o mundo todo, especialmente aos países que vem expandindo atividades pecuárias”, afirmou. Ele revela ainda que suas empresas representadas estão fechando negócios na Colômbia com uma proposta de formar sociedade em alguns exemplares, bem como de manter animais próprios por lá. “O BHB é muito importante porque abre caminhos para podermos oferecer nossos produtos. O projeto está começando a dar os primeiros frutos, por isso temos que nos esforçar para que ele tenha longa duração, pois ele faz com que nos capacitemos cada vez mais e que passemos a olhar nossos estabelecimentos sob outro ponto de vista, com a visão de empresários”, completa Saldaña. O presidente da ABHB aponta, no entanto, para o entrave burocrático enfrentado pela pecuária brasileira. “As diversas mudanças de cargo no Ministério da Agricultura e Pecuária, aliadas à falta de cultura exportadora de genética dos técnicos, tem nos causado grandes entraves para levarmos nossa genética ao mundo. Porém, estamos começando. Já comercializamos para todos os países do Mercosul e Bolívia, e nossa genética é almejada por Rússia, Colômbia e Peru. Também estamos em contato com outros quatro países na África e da EuroÁsia. Ou seja, assim que acertarmos os protocolos sanitários, levaremos a genética Hereford e Braford brasileira para os quatro cantos do planeta.”

Para Jaloto, um projeto como o BHB é de vital importância para qualquer empresa que deseja exportar seus produtos. “Não podemos esquecer que a Apex-Brasil foi quem nos proporcionou isso tudo. É através dela que recebemos todo apoio para nossas realizações. Para mim, o BHB está muito bem consolidado e com certeza, num futuro próximo, novos países passarão a ser elencados como mercado-alvo do projeto”, aposta o selecionador, também secretário de administração da ABHB.

Para Fernando Lopa, o gado brasileiro tem tudo para ser referência mundial

Segundo Lopa, a ideia de mostrar a genética nacional das raças no mercado externo vem sendo trabalhado há algum tempo na ABHB. “No início deste século, quando comecei a visitar exposições consagradas por países do Mercosul, reparei que as árvores genealógicas dos animais Hereford e Braford não eram muito diferentes das dos animais brasileiros, e, ainda, não tinham a nossa pressão de seleção. Quando da realização da Exposição Braford do Mercosul, em Uruguaiana, mostramos nas pistas aos representantes de outros países presentes a superioridade zootécnica dos animais brasileiros apresentados, pois foi a única dos últimos 30 anos em que se confrontaram animais de várias nacionalidades na mesma pista. Ganhamos quase 60% dos prêmios em disputa. Resumindo, temos animais tão bons quanto os de outros países, o que nos faltava era ação e apoio para mostrar nossa genética para o mundo.” O presidente da ABHB reforça que desde 2006 a associação está focada em atuar com produtos Hereford e Braford tipo exportação, e, em 2009, com o acerto do convênio com a Apex-Brasil, está sendo possível mostrar a genética HB em feiras fora da Brasil e fazer marketing no exterior. “Ainda estamos incipientes nisso, mas, na produção, somos “decanos” e estamos prontos para suprir o mercado internacional com a nossa genética.” Hoje, o BHB é formado por 27 empresas brasileiras, parte estabelecimentos rurais, produtores de genética Hereford e Braford brasileira e empresas de produtos e serviços agropecuários.


ABHB apoia criadores de todo o Brasil

A Associação Brasileira de Hereford e Braford atua há 53 anos, em Bagé/ RS, e tem 220 associados de estados como RS, SC, PR, SP, MS e MT. Além de representar os associados nas mais variadas esferas, também é responsável pelo controle do registro genealógico da raça Braford e Hereford PC e delegada da Associação Nacional de Criadores - Herd Book Collares no caso dos animais Hereford PO. Conforme o superintendente da ABHB, Gabriel Isaacsson, os Remates Chancelados pela ABHB são outro trabalho de suporte ao associado. “Neles, são controlados ativamente a oferta de animais Hereford e Braford, garantindo qualidade. Eventos que em 2010 movimentaram R$ 10,9 milhões de reais, em 27 leilões”, reforçou. Outro trabalho desenvolvido pela ABHB são os cursos técnicos oferecidos a público – como estudantes. “Todo o ano, realizamos cursos com o que há de mais moderno em melhoramento genético no mundo, e com os melhores jurados de pista, a preços praticamente de custo para estudantes, profissionais formados e demais interessados, difundindo e democratizando o conhecimento na visão de um futuro cada vez mais produtivo para o nosso país”, complementou o superintendente.