Entrevista do Mês - Carla Guerra

Pecuária mais floresta: esta é a TENDÊNCIA

O sistema silvipastoril ajuda o produtor obter renda extra com a mesma área e, de lambuja, uma maior produtividade e fertilidade do gado. A Profa Dra Carla Renata Silva Baleroni Guerra, especialista no assunto e docente nos cursos de Medicina Veterinária da FISMA/FCAA, em Andradina/SP, explica em detalhes.

Adilson Rodrigues [email protected]

Revista AG - A integração da agricultura e pecuária com floresta é um caminho sem volta?

Carla Guerra - O valor da terra é muito alto para utilizarmos somente com monocultivo. Os sistemas agroflorestais proporcionam aumento da produtividade por unidade de área, com exploração racional dos recursos naturais, incrementando maior renda ao agropecuarista, reduzindo os riscos e incertezas de mercado. As árvores nos sistemas agroflorestais funcionam como quebra-vento, mantendo a umidade do solo, aumentando a fixação de nutrientes, restaurando as propriedades químicas, físicas e microbiológicas do solo, melhorando a qualidade da cultura ou do pasto. Podem ser encarados como uma solução sustentável para toda a humanidade, sem restrições de localização, tipo de solo, clima e temperatura.

Revista AG - Antes acreditava-se que as árvores roubavam nutrientes do pasto. Então, não seria bem assim?

Carla Guerra - Esse é um preconceito completamente equivocado, já que as árvores exploram camadas de solo a mais de cinco metros abaixo do sistema de raízes de culturas anuais ou de forrageiras. Esta distribuição permite maior recuperação e ciclagem de nutrientes, em especial do nitrogênio e do potássio. Estes nutrientes são devolvidos ao pasto na forma de folhas, frutos e gravetos, favorecendo a estruturação do solo e disponibilidade de nutrientes no médio prazo.

Revista AG - No caso específico de pecuaristas, o retorno econômico é realmente interessante?

Carla Guerra - O retorno tem se mostrado interessante com a produção de madeira. Além disso, a combinação de árvores e pastagem constitui prática de uso múltiplo da terra e promove fluxo de caixa favorável ao produtor, amenizando o fluxo negativo que ocorre nos primeiros anos de produção madeireira convencional.

Revista AG - No entanto, seria necessário paciência, pois falamos de um negócio de longo prazo?

Carla Guerra - Realmente, é um negócio de longo prazo, principalmente no que tange à exploração madeireira. Para que o sistema torne-se viável, é importante o estabelecimento de um sistema agrossilvipastoril, onde, nos dois primeiros anos, a exploração agrícola seria a única fonte de lucro. O retorno econômico com a exploração madeireira tem se mostrado lucrativo após o quarto ano da implantação.

Revista AG - O sistema silvipastoril é viável para propriedades de qualquer porte?

Carla Guerra - É viável para propriedades rurais de todos os tamanhos. Há exemplos de fazendas com apenas 2 ha que conseguiram implantar com sucesso. Na pequena propriedade, as árvores são colocadas no meio da pastagem ou utilizadas como cercas vivas. As maiores possibilidades de exploração estão nas fazendas de grande porte.

Revista AG - Do ponto de vista do pecuarista, quais seriam as árvores economicamente mais interessantes?

Carla Guerra - A escolha das espécies florestais para a associação com pastagens requer conhecimento sobre as características das espécies arbóreas mais apropriadas, de forma a viabilizar a associação sem causar danos aos animais e/ou pastagem. Dentre as espécies de maior destaque no sistema silvipastoril, estão Eucalipto, Grevílea, Canafístula, Pinus, Angico, Acácia, Acácia Negra e Leucena. Fatores como condições climáticas da área a ser implantada e finalidades de exploração também são importantes no momento da escolha.

Revista AG - As diferenças de manejo são muito grandes entre as opções disponíveis?

Carla Guerra - O manejo depende da espécie escolhida, sendo que na maioria, o gado só pode entrar na área após 2 anos da implantação. No caso do Eucalipto, após o final do primeiro ano de implantação. Outro fator que determina as diferenças de manejo é a proteção das mudas, pois no caso de plantio de árvores dispersas em pastagens já instaladas, o ideal é que haja uso de grades de madeiras ou cercas de arame farpado. No caso de árvores em linhas, barreiras quebra-vento, árvores em bosquetes ou talhões, uma opção é que se faça o manejo com uso da área para a agricultura nos dois primeiros anos e só depois entre com o gado. Pode-se também usar cerca elétrica para proteger a área.

Revista AG - Quais os cuidados necessários em relação à qualidade, ao plantio e ao desenvolvimento das mudas?

Carla Guerra - O primeiro passo para estabelecer um sistema silvipastoril é que ele seja bem planejado e tenha os seus objetivos bem definidos. O plantio deve ser feito após o preparo da cova, que deverão ter as dimensões de 40 X 40 X 40 (cm). Durante a abertura das covas, deve-se separar a terra retirada e misturar com adubo orgânico, que preencherá as covas durante o plantio. As mudas poderão ser obtidas pela coleta de sementes e posterior semeadura ou então adquiridas em viveiros especializados. Para que o sistema seja bemsucedido, é necessário acompanhamento em todas as etapas.

Revista AG - A inserção de plantas fixadoras auxilia a integração entre pecuária e floresta?

Carla Guerra - As leguminosas fornecem serrapilheira rica em nitrogênio, que além de melhorar a fertilidade do solo, reduz a erosão, previne a infestação de ervas daninhas e serve de substrato para melhorar a estruturação e as propriedades biológicas do solo. A grande competitividade das leguminosas é atribuída, em grande parte, a sua capacidade de se associar simbioticamente às bactérias fixadoras de nitrogênio. Essa associação pode incorporar mais de 500 kg/ha/ano de nitrogênio ao sistema solo-planta, que, juntamente com o fósforo, é o nutriente que mais limita o estabelecimento das pastagens.

Revista AG - Notamos muitos produtores aderindo ao Eucalipto. A quê esse fato é atribuído?

Carla Guerra - Principalmente, porque apresenta rápido crescimento, possibilitando o uso mais rápido da pastagem. Também pela valorização da madeira, já que, segundo projeções da FAO, seu consumo mundial deverá crescer 60% até 2030.

Revista AG - Qual o primeiro passo para iniciar o projeto de Eucalipto?

Carla Guerra - Definir o tipo de madeira a ser explorada, pois se for de serraria, o espaçamento será um e para celulose terá outro. Porém, geralmente as operações realizadas no preparo do terreno são as mesmas e seguem a seguinte ordem: construção de estradas e aceiros, desmatamento e aproveitamento da madeira, enleiramento ou encoivaramento, queima das leiras, desenleiramento, combate à formiga, revolvimento do solo e sulcamento e/ ou coveamento.

Revista AG - Logística é um ponto importante. É preciso estar próximo dos compradores?

Carla Guerra - Quanto mais perto a plantação estiver do mercado consumidor, mais fácil será o escoamento e maior o valor pago pela produção. Para o pecuarista, o desembolso com frete é pequeno, pois, na maioria das vezes, o responsável pelo escoamento da produção no setor madeireiro é o comprador e não o produtor.

 

Revista AG - Algumas madeireiras se comprometem em fazer todo o acompanhamento técnico e correção de solo, cabendo ao pecuarista apenas fornecer a área. É prática comum?

Carla Guerra - Esta é uma prática de fomento muito comum no setor florestal, não só por madeireiras, mas também por outras indústrias consumidoras de madeira, como o setor de celulose e siderurgia. As empresas responsabilizam-se por todos os custos.

Revista AG - E quanto, em média, elas se comprometem a pagar por essa madeira?

Carla Guerra - É muito difícil afirmar qual o valor pago pela madeira, pois varia dependendo de fatores como região do Brasil, oferta do produto, qualidade e dimensionamento da tora.

Revista AG - No sistema silvipastoril, o produtor tem de investir em maquinário específico?

Carla Guerra - Esse investimento dificilmente fica por conta do produtor, já que, na maioria das vezes, a extração da madeira fica por conta do comprador.

Revista AG - O que deve ser feito para que o gado não destrua as mudas de árvores?

Carla Guerra - Elas devem ser protegidas até que esteja com tamanho suficiente para contato com animais. No caso de plantio de árvores dispersas em pastagem já estabelecidas, as árvores são protegidas com grades de madeira ou cercas de arame farpado. O ideal é que nos dois primeiros anos seja feita a integração de agricultura com floresta e que o gado entre na área apenas após o final do segundo ano. Caso isso não seja possível, é recomendado o uso de cercas elétricas.

Revista AG - Para os animais, quais as vantagens de se ter floresta na propriedade?

Carla Guerra - O sombreamento promove, para os animais, economia de energia para a manutenção corporal do animal. O excesso de frio ou calor aumenta a necessidade de energia para a manutenção da homeotermia, desviando energia que poderia ser utilizada para fins produtivos. O sombreamento também exerce influência sobre a fertilidade, já que o excesso de calor reduz a fertilidade, afetando a ovulação na fêmea e a viabilidade do espermatozoide no macho.

Revista AG - É possível citar mais alguns benefícios?

Carla Guerra - A arborização influencia o conforto animal, e este é um dos pontos fortes do sistema. Existe uma faixa de temperatura na qual o animal minimiza o gasto energético com manutenção de sua temperatura corporal: é a zona de conforto térmico específica. Quando ela ultrapassa essa faixa ideal, o animal busca meios para dissipar o calor, e sua primeira opção é buscar sombra. Estudos relacionando conforto animal e formas de sombreamento demonstraram melhores respostas (ganho de peso e produção de leite) sob sombreamento natural, com árvores. Os serviços prestados pelas árvores vão além da barreira para o calor: é promovido também o efeito “ar condicionado”, através da transpiração da água via folhas. A água transpirada é perdida para a atmosfera, reduzindo a temperatura sob a copa e elevando a umidade relativa do ar, por isso os animais priorizam áreas sob árvores a áreas sombreadas artificialmente. A diferença de temperatura sob a copa e fora desta pode alcançar até 8ºC.

O sistema silvipastoril constitui eficiente método para criação de animais especializados na produção de leite, fornecendo um ambiente de conforto térmico. A procura dos animais por ambientes sombreados durante o verão mostra a necessidade da provisão de sombra. No inverno, vacas mestiças, em lactação, permaneceram 43% do tempo da pastagem à sombra das árvores. No verão este percentual subiu para 69%.

Revista AG - A integração lavourapecuária ou sistema silvipastoril ajudam a agregar valor venal à propriedade?

Carla Guerra - Sim, há um aumento no valor agregado da propriedade, já que áreas com sistemas agroflorestais possuem alternativas de fontes de renda diversificadas, como a apicultura, a extração de madeira, frutos e sementes. Há ainda a venda do gado e dos produtos agrícolas cultivados.

É viável para propriedades rurais de todos os tamanhos. Há exemplos de fazendas com apenas 2 ha que conseguiram implantar com sucesso. Na pequena propriedade, as árvores são colocadas no meio da pastagem ou utilizadas como cercas vivas.

Revista AG - As técnicas também seriam uma solução para áreas degradadas?

Carla Guerra - Áreas degradadas pela derrubada e queima de árvores, que geram emissões de gases como CO2 e expõem o solo à chuva para erosão e assoreamento dos rios, as práticas agroflorestais podem ser recuperadas com o sistema taungya, cultivos sequenciais, pousio melhorado, árvores multiestrato, espécies de uso múltiplo, entre outros.

Áreas erodidas pela água de chuvas, acarretando perdas e compactação do solo, podem ser recuperadas com introdução de barreiras vivas, formação lenta de terraços para uso agrícola, estabilização de voçorocas, cultivos em renques, árvores em contorno e sobre curvas de nível.

Áreas de baixa fertilidade e mal drenadas que impedem o desenvolvimento das raízes podem ser reestabelecidas com cultivos em renques, faixas, folhagem florestal, com árvores em torno de cultivos agrícolas e de pastagens.

Áreas áridas, com solos apresentando dificuldade de armazenagem de água e nutrientes podem ser restauradas com a utilização de barreiras vivas, quebra-ventos, cercas vivas, árvores em torno de cultivos e pastagens.

Áreas de encostas (declividade acentuada), que geralmente são áreas desprovidas de florestas, com alto índice de erosão, podem ser revividas com fileira de árvores sobre terraços, cultivo em faixas e barreiras vivas.

Áreas de pastagens degradadas com cobertura vegetal deficiente, expondo o solo aos efeitos prejudiciais da erosão hídrica e eólica podem ser rstituídas com arborização de pastagens e bancos forrageiros.