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Hidroponia

O CULTIVO QUE DÁ UM CHEGA PRA LÁ NO SOLO

Hidroponia, a plantação que só precisa de água com nutrientes, é bem mais simples do que se imagina. E os produtos gerados podem ser mais saborosos e com vida útil mais estendida

Jorge Barcelos Oliveira, especialista em hidroponia, pesquisador da Universidade de Santa Catarin, www.labhidro.cca.ufsc.br

Até pouco tempo a hidroponia era vista como "o cultivo de alface". Mas as facilidades oferecidas por este sistema de cultivo não tardaram em mostrar toda sua potencialidade. E dia a dia surgem mais novidades. Conhecida como o cultivo na água, a hidroponia é bem mais do que isto. Aliás, vai além da imaginação! Como o cultivo é feito fora do solo, então não há limites. As plantas podem ser acomodadas diretamente na tubulação ou no próprio reservatório; em potes contendo areia ou fibra de coco; e, mais, podem ficar suspensas no ar. Acreditem, as raízes ficam livres, leves e soltas. Basta um pote vazio de sorvete e lá está a hidroponia. Basta algumas garrafas vazias de refrigerante (garrafa pet) com areia ou casca de arroz carbonizada e lá está a hidroponia. Basta um reservatório escuro e vazio e lá está a hidroponia. Nos três casos é necessário que a planta receba a solução nutritiva hidropônica, ou seja, irrigações.

E se alguém pensava que hidroponia tinha algum segredo especial, estava redondamente enganado. A solução nutritiva hidropônica nada mais é do que uma mistura de água com os nutrientes que a planta precisa. Nossos bisavôs já sabiam que a água do solo é, na verdade, uma solução de nutrientes (a solução nutritiva do solo). Os pesquisadores e agrônomos já sabem que as plantas não absorvem solo, nem matéria orgânica e nem húmus. A planta não "come", só "bebe". Esses elementos precisam degradar-se até "virar pó", ou seja, até voltar a ser simplesmente um átomo isolado (alguns, na forma de moléculas de quatro a sete átomos). Depois, eles reagem quimicamente com as moléculas de água, formando a solução nutritiva, seja a do solo, seja a da hidroponia.

Quimicamente falando se diz que as plantas absorvem água contendo íons (cátions e ânions). Ao reagir com a água alguns átomos ou moléculas perdem elétrons transformando-se em cátions. O átomo de potássio (K), por exemplo, se transforma em íon potássio (K+). O cálcio (Ca) vira Ca+. O magnésio perde dois elétrons e, portanto, vira Mg++. Aqueles que ganham elétron (roubam da molécula água, H2O) se transformam em ânions. O cloro (Cl) vira o íon Cl-. Enfim, a solução nutritiva é semelhante a um copo contendo água com sal dissolvido (sal = cloreto de sódio). Após a reação química o sódio (Na) e o cloro se transformam em Na+ e Cl-. Esses íons, a qualquer momento, podem ser absorvidos pelo sistema radicular das plantas. É assim que a planta se alimenta.

Uma vez que estes nutrientes chegam ao interior da planta (dissolvidos na água absorvida pelas raízes) eles acabam combinando com açúcar produzido na fotossíntese nas folhas. Este açúcar é composto de átomos de carbono (C), hidrogênio (H) e oxigênio (O) e é exatamente a primeira matéria orgânica produzida pelos vegetais (que depois será enriquecida pelos outros nutrientes). Um dia esta matéria orgânica (frutos, ramos, folhas...) voltará a ser pó novamente, ou seja, cada um para seu lado, fechando o ciclo da vida.

Vantagens e custos - A vantagem da hidroponia é que a dosagem de cada nutriente pode ser prevista na hora de prepará-la. Assim, é possível melhor atender as necessidades nutricionais das plantas, sem excessos nem deficiências. É como acertar a receita de um bolo. Quanto mais capricho melhor. Justamente por isso que o produto hidropônico ganha destaque. O fruto fica mais doce, mais saboroso. As flores ficam mais vivas e brilhantes. Após a colheita os produtos duram mais. Isto é visível no moranguinho. As verduras duram de sete a dez dias na geladeira.

Uma hidroponia comercial pode custar de R$ 20 mil a R$ 500 mil. Não existe um projeto acabado, do tipo pacote tecnológico. Cada produtor vai montando do seu jeito. Ele pode comprar estufas agrícolas prontas ou montar do seu jeito. No final das contas, a criatividade e a informação é que irá determinar se a estrutura ficou resistente ou será arrancada pelo vento e se será eficiente ao distribuir boa iluminação às plantas. O mesmo raciocínio vale para as estruturas hidropônicas. Podem ser de custo elevado, como podem ser mais simplificadas, independente da eficiência.

Boa parte das tecnologias utilizadas pelos produtores hidropônicos tem alguma relação com as pesquisas do Laboratório de Hidroponia da Universidade Federal de Santa Catarina ou com os eventos promovidos pela instituição. Mas o que mais chama a atenção são as novas propostas de cultivo. Tecnologias simples, à mão de todos. Numa delas o cultivo é feito aproveitando um pote de sorvete de dois litros disponível em qualquer armário de cozinha. Basta escurecê-lo com um papel laminado e fazer um furo na tampa para acomodar a muda. Basta adquirir a muda da planta desejada numa agropecuária e, bom cultivo! Mas não esqueça de colocar dois litros de solução nutritiva. Depois, basta ir repondo o que vai sendo absorvido pela planta.

O kit de adubos já pronto para a solução nutritiva é vendida em lojas especializadas. São cinco saquinhos de diferentes adubos que rendem mil litros de solução nutritiva. Cada saquinho deve ser dissolvido numa garrafa de cinco litros, totalizando assim cinco garrafas (guardadas no escuro). Se cada garrafa tem cinco litros e serve para fazer mil litros de solução, então para um pote de dois litros temos que adicionar dez mililitros (ml) de cada garrafa. O custo do kit deve estar em torno de R$ 12 a R$ 15. É bom lembrar que as plantas precisam de muito sol, caso contrário enfraquecem. Protegê-las da chuva com filme plástico agrícola, ou chapas de vidro, ou policarbonato transparente é importante. A proteção contra insetos voadores, pássaros e morcegos pode ser feita com telas como as de mosqueteiro ou com sombrite.

Viabilidade - Com tantas alternativas de materiais sobrando nas lixeiras, com tantas paredes disponíveis nos centros urbanos e com tantas pessoas criativas, a hidroponia ainda vai continuar surpreendendo por longos anos. O melhor de tudo é saber que a hidroponia não é uma moda. Ela surge naturalmente em função dos tempos atuais. E se adapta a cada realidade. No sertão nordestino a hidroponia está sendo empregada porque requer um mínimo de água e se pode colher o ano inteiro. Na região amazônica, porque sai mais barato do que importar frutas e verduras do Ceasa de São Paulo. No Centro-Oeste, porque tem priorizado a produção de grãos e criação de gado. Na região leste, porque há enorme demanda. E na Região Sul, por causa do
clima e da escassez de mão de obra no campo.

Hoje já se fala em jardins e hortas verticais (vertical gardens). Os miniverdes (microgreens) são uma tendência mundial. Cerca de 90% do cultivo hidropônico ao redor do planeta são de hortaliças de fruta como tomate, pimentão, pepino, berinjela e melão. No Brasil, ainda predomina a verdura, pois a demanda é grande, mas o quadro já começa a mudar. Alguns produtores gaúchos já estão produzindo moranguinho em travesseiros preenchidos com casca de arroz carbonizada e casca de pinus.

Nas regiões leste do país, Nordeste e Norte, cresce o cultivo de tomate e pepino em vasos com substrato de fibra de coco e também no sistema de calhas, denominado de NFT. Muitas pessoas são atraídas pela hidroponia pela facilidade do cultivo, pois a vida atual os afastou do campo. E o cultivo caseiro é tranquilo, uma terapia. Entretanto, o cultivo comercial dá muito trabalho. Envolvimento total e absoluto. E isso é muito bom, pois dá oportunidade para quem deseja, realmente, trabalhar.






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Edição 742
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