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FRUTICULTURA

TRADIÇÃO PRESERVADA NO PARREIRAL

Apaixonado pelo que faz, Antoninho Ademir Calza mantém em Monte Belo do Sul/RS a produção de uva e vinho iniciada em 1888 pelo bisavô italiano

Ele não lembra exatamente quando foi isso, mas costuma dizer que trabalha com a uva “desde que se conhece por gente”. A verdade é que Antoninho Ademir Calza cresceu em meio aos parreirais da família na Serra Gaúcha. Seu bisavô, Domênico Calza, veio da Itália e iniciou a produção de vinho em 1888. Desde lá, com a mesma dedicação, as gerações seguintes mantiveram a atividade, que hoje é uma das mais significativas representações da imigração italiana no Rio Grande do Sul.

Fundada em 1995, a Vinícola Calza está instalada em um prédio construído ainda na metade do século passado, em Monte Belo do Sul. Antoninho é o administrador da empresa e, junto com seu pai, Angélico, tem 16 hectares de vinhedos plantados com variedades como Tannat, Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Chardonnay. Na vinícola, o produtor conta com a ajuda da esposa, Jussara, e de três funcionários. E, como conseqüência natural do processo, a tendência é de que o casal de filhos, com 13 e 10 anos, também siga no ramo. “Eles ainda são novinhos, mas já mostram interesse na atividade”, conta o pai orgulhoso. Além da paixão pela uva, Antoninho Calza, 44 anos, também tem adoração pelos estudos. Aos 19 anos, ele já era técnico em Enologia formado na Escola Agrotécnica Federal de Bento Gonçalves, hoje Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet). Depois disso, o enólogo ainda teve disposição para se formar nas faculdades de Direito, Economia e Ciências Exatas. “Apesar das poucas condições financeiras, sempre gostei de estudar e fui atrás dos meus objetivos”, relata.

Apesar de não exercer todas as suas profissões, Calza aproveita os conhecimentos adquiridos na universidade para cuidar dos negócios da família e ajudar o setor vitivinícola. Como enólogo, ele acompanha todas as etapas da produção, desde os cuidados com as mudas até a fabricação e comercialização dos vinhos. “A qualidade começa com a escolha da matéria-prima. Depois, além de todo o processo enológico, é essencial prestar atenção a fatores como a incorporação de tecnologia, os equipamentos utilizados e a higienização”, cita.

A Calza produz em torno de 90 mil litros por ano de vinhos e espumantes. As vendas são feitas diretamente ao consumidor final de estados como Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina. “Também vendemos na própria vinícola, onde valorizamos muito o atendimento personalizado”, salienta Antoninho. Ele comemora as duas medalhas – uma de ouro e uma de prata – conquistadas por dois de seus produtos nos últimos anos. “Fiquei bastante contente com essas premiações, mas o que mais me deixa feliz é ver os clientes voltando à vinícola para prestigiar o fruto do nosso trabalho. Isso é estimulante”, destaca.

Trabalho pelo setor — Entre os anos de 2003 e 2008, ao mesmo tempo em que cuidou da própria vinícola, Calza aceitou o desafio de presidir a Associação dos Vitivinicultores de Monte Belo do Sul (Aprobelo). No município, são cerca de 2.300 hectares de parreirais, dos quais 30% cultivados com castas no- Interesse na atividade levou o jovem produtor ao curso técnico de Enologia bres. Agora, os produtores locais batalham para conseguir a qualificação de Indicação Geográfica junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O projeto para a obtenção do certificado está adiantado e tem a parceria da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves/RS. “Nossa intenção é fazer a rastreabilidade e conquistar o consumidor com uma produção cada vez melhor”, sustenta o enólogo.

O conceito do vinho brasileiro evoluiu bastante nos últimos anos, na sua avaliação. “Hoje o nosso produto tem muito mais credibilidade”, resume. Para ele, isso é resultado do empenho de produtores e indústrias, que perceberam a importância da união da cadeia em torno de um objetivo comum. “Até mesmo os importados, que tanto nos prejudicam no mercado interno, forçaram as vinícolas nacionais a trabalhar de uma forma diferenciada.” O produtor acredita que um dos maiores desafios do vinho brasileiro está relacionado à carga tributária, considerada alta demais e, conseqüentemente, prejudicial para a competitividade frente aos concorrentes do Mercosul.

Denise Saueressig


Edição 721
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