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SOJA

A SAGA DO "PAI DA SOJA" DE SORRISO

Argino Bedin enfrentou até um drama familiar quando chegou ao Mato Grosso, há 30 anos. Hoje mantém uma estrutura de fazenda completa para a produção de soja gerada por 10 mil hectares

As histórias dos agricultores sulistas que abandonaram a terra natal para desbravar e conquistar o cerrado do Brasil-Central são ricas em dramaticidade. Coragem, ousadia, heroísmo são alguns dos muitos adjetivos que cabem para definir essa saga. Mas a história de Argino Bedin, que trocou a paranaense Renascença por Nobres, hoje Sorriso, no Mato Grosso, teve um componente a mais: apenas dez dias após chegar à nova terra, um irmão de apenas 15 anos de idade faleceu num acidente no Paraná. “Sair da família... longe dela... qual não era a angústia no coração...”, divaga Bedin sobre as dificuldades potencializadas pela perda trágica. Imagine a situação: além de experimentar a dor por deixar toda uma vida para trás e ao mesmo tempo observar logo ali à frente um desafio gigantesco, ele tinha que administrar uma situação paralela como a do irmão.

Assim começou a vida de Argino Bedin numa terra desconhecida cuja paisagem era de muito mato. E hoje? Hoje, junto do irmão Léo, do filho Ivan, agrônomo e mestre em fertilidade do solo, e do sobrinho Luciano, também agrônomo, ele cultiva 10 mil hectares de soja. Nas fazendas, a Santa Anastácia e a Lagoa Vermelha (na verdade, é o mesmo empreendimento, apenas separadas pela BR 163), trabalham uma dúzia de colheitadeiras e outro tanto de tratores, além de quatro caminhões rodotrens. O negócio ainda possui estrutura de armazenagem para abrigar toda a produção. Por ser um dos pioneiros da soja em Sorriso, Bedin é chamado de o “Pai da Soja”. Não é pouca coisa, afinal Sorriso é o município que mais planta soja no Brasil.

Mas daquele início traumático para o sucesso de hoje, naturalmente, muito aconteceu. Bedin lembra bem das circunstâncias que o empurraram para as terras desconhecidas. Em Renascença, a terra do pai era, conforme define, “dobrada” (acidentada, de difícil exploração) e pedregosa, além de insuficiente para todos os sete filhos.

A mecanização era quase impossível, ainda que em 1972 o pai tenha comprado um trator de 65cv para o cultivo de soja, trigo, milho e feijão. Foi um acontecimento histórico. “Já imaginou?”, provoca. “Hoje, mesmo com o trator mais sofisticado que compramos, nenhum desperta a mesma emoção daquele...”, revela. E o tratorzinho de tecnologia primária ainda está com ele. Como boa recordação, uma relíquia? De forma alguma: a máquina mantém-se corajosamente em atividade, para trabalhos mais leves, como puxar uma roçadeira.

Desde o início, Bedin investiu nas tecnologias modernas da época para produzir bem

Imensidão — Para quem estava acostumado com as terras “dobradas” do Paraná, foi um deslumbre se deparar com as imensidões do Mato Grosso. “Terra plana, mais ampla, clima bem definido...”, descreve o que o conquistou na primeira visita à região, em 1976. Dois anos depois esteve no local para preparar a terra, e no seguinte, portanto há 30 anos, ele, três primos e parentes da esposa, Bedin começara de vez a conquista do cerrado. “Foi uma mudança radical mesmo”, define. A idéia do pai, Adalino, era “comprar as terras para os netos”, afinal o desenvolvimento da região parecia tão distante. Conforme ele, “dois ou três conhecidos” já estavam na região e lhe fizeram bons relatos do lugar. Estas palavras de incentivo eram mescladas com as renúncias em Renascença. Dias antes da partida, com 29 anos, Bedin foi campeão municipal de futebol de salão de veteranos. Amigos, histórias, tudo ficaria para trás.

Mas a partir de diversos incentivos governamentais para a tomada do Centro-Oeste, a família deu a partida na nova terra. Eram os tempos do “Plante que o João Garante”, um slogan- referência às políticas de ocupação do Centro-Oeste implementadas pelo Presidente da República João Baptista Figueiredo. Na época, lembra, tudo era muito barato na região. O valor correspondente a um hectare no Paraná comprava de 10 a 12 hectares no Mato Grosso. E a família começou com 722 hectares. No princípio, os Bedin plantaram arroz, a cultura mais adaptada para os solos ácidos da região. Ele conta que chegou a levar algumas “sementinhas” de soja do Paraná, mas que a lavoura foi um desastre. As plantas não se desenvolviam. É claro, as cultivares eram moldadas para outro paralelo, o da Região Sul.

Depois, com a adaptação de variedades para o Centro- Oeste a partir da pesquisa da Embrapa, a soja entrou definitivamente no negócio – e na vida – dos Bedin. Isso ocorreu em 1982. Desde lá, a busca incessante pela evolução técnica e econômica é outra das marcas da família. “Todos os métodos modernos que existem nós utilizamos”, justifica o crescimento. “A gente vai sempre em busca de melhorias.” Os tratores da fazenda, por exemplo, se utilizam de pilotos automáticos. “O operador só faz a volta no final da linha. O trator anda sozinho”, espanta-se o produtor. É, as coisas mudaram muito desde aquele trator de 65cv com direção mecânica adquirido pelo pai...

Os irmãos Bedin conferem de perto como está a produção de soja

A procura pelo crescimento se dá também na gestão da propriedade. Por isso mesmo Bedin integra uma cooperativa de 25 produtores para aquisição conjunta de insumos e venda da produção. É a Cooperativa Agroindustrial Celeiro do Norte (Coacen), criada há quatro anos. Mais do que comprar e vender com valores diferenciados, eles conquistaram a confiança do mercado. “Dificilmente alguém vai vender (para os integrantes) e não receber”, revela. A cooperativa é uma maneira eficiente de obter desconto na compra e bônus na venda. Afinal, em qualquer lugar, sobretudo no Mato Grosso, ter escala conta muito. Internamente, os Bedin têm uma tática: nos anos em que a agricultura está bem, com os preços lá em cima, é a hora de investir. Mas investir no próprio negócio! E é por isso que a propriedade tem toda a estrutura necessária. Já nos anos ruins, a estratégia é esperar que o tempo passe e as coisas melhorem.

As dificuldades logísticas do Mato Grosso de hoje são as mesmas daquela época

A próxima meta dos Bedin é tornar a safra 100% financiada com recursos próprios. A auto-suficiência está projetada para 2010. “O lucro vai embora nos juros”, avalia a realidade de quem depende de financiamentos e custeios. “Sempre buscando a independência”, descreve Bedin o porquê do objetivo. Foi assim com máquinas, caminhões e silos. Mas tem algo incômodo cuja resolução não está ao alcance dele, do irmão, dos filhos ou das filhas Roberta e Simone: os graves problemas de logística do Mato Grosso. “Temos a pior logística do mundo. Longe de portos, estradas intransitáveis...” É o único lamento de Bedin em toda a entrevista. E isso, infelizmente, pouco mudou em três décadas de Mato Grosso. Veja ele na foto tentando desatolar o carro, numa rodovia vicinal do Mato Grosso. Mas nada disso abala uma convicção: “Lugar para se produzir como a nossa região pode até ter igual no mundo, mas não melhor”.

Leandro Mariani Mittmann


Edição 721
1/2009
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