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O Confinador

 

RAÇÕES PARA BOVINOS

É possível substituir fontes de fibra em rações destinadas a bovinos confinados sem promover alterações no consumo dos animais?

Rodrigo Goulart*

Tradicionalmente, o nível de inclusão de forragens em rações formuladas em confinamentos americanos apresenta em média 8,5% a 9,0% na MS (matéria seca) da ração total, com intervalos variando de 0 a 13,5%.

Em um questionário aplicado por pesquisadores da universidade do estado do Texas (EUA) envolvendo 42 nutricionistas na área de confinamento em diversos estados americanos, verificou-se que silagem de milho e alfafa (na forma de feno ou ensilada) compreenderam 72,41% da escolha dos nutricionistas como fonte de volumosos mais utilizados, sendo o caroço de algodão a terceira opção, com apenas 6,9% da preferência. Nesse cenário, é possível observar a grande preferência pelos volumosos mencionados, ou talvez a pequena possibilidade de utilizar outras fontes de forragem, em confinamentos americanos.

Além disso, o baixo nível de inclusão de volumosos utilizado em dietas de confinamentos americanos é justificado em razão de que forragens não são competitivas economicamente (maior custo por megacaloria de energia produzida) quando comparada com grãos, sendo por esse motivo consideradas pelos confinadores americanos como “ingredientes funcionais” apenas.

Nesse contexto, como o confinador brasileiro utiliza forragens em rações destinadas a confinamento?

Ao analisar rações formuladas em confinamentos brasileiros, é possível observar inclusões médias de forragens de 28,8% na MS da ração total em confinamentos nacionais, com mínimo de 12% e máximo de 45%, ou seja, quantidade três vezes maior quando comparada com rações típicas de confinamentos americanos. Ainda neste trabalho, tais autores reportaram nível médio de 26,4% (mínimo de 15% e máximo de 39%) de inclusão da fração fibra detergente neutro (FDN) oriunda de forragem (% na MS da ração total), contrastando de sobremaneira com formulações típicas americanas, variando entre 6% e 9% da fração FDN oriunda de forragem (% na MS da ração total). Outro ponto importante a ser ressaltado é que, em comparação às opções de fontes de volumosos em confinamentos americanos (alfafa ou silagem de milho), no Brasil é possível observar grande diversidade de fontes de forragem utilizadas em confinamentos, como cana-de-açúcar (ensilada ou in natura), silagem de milho, de sorgo, de capim e bagaço de cana, bem como a utilização de vários subprodutos contendo elevados teores de fibra.

Nesse cenário, diante da grande diversidade de fontes de forragens utilizadas em confinamentos brasileiros, é muito comum observar substituições de fontes de forragem contendo níveis idênticos da fração FDN na ração total durante o período de engorda e obter, por consequência, respostas distintas no consumo de matéria seca, refletindo em queda no desempenho animal. Tal comportamento se dá principalmente por haver diferenças quanto ao tamanho de partículas e a composição química (celulose, hemicelulose, lignina), entre fontes de fibra, como pode ser apresentado na figura 1.

Conceitualmente, a fração FDN e a fração FDA (entidades que representam as características químicas da fibra) são negativamente correlacionadas com o consumo de matéria seca em bovinos confinados, sendo a fração FDN considerada a de maior correlação (r = - 0,65) quando comparada com a fração FDA (r = - 0,53) ao avaliar diferentes forragens. Contudo, mesmo havendo evidências que comprovam a importância da fração FDN em predizer o consumo de bovinos, é possível observar resultados inesperados no consumo de matéria seca quando diferentes fontes de fibra são substituídas ao mesmo nível de inclusão da fração FDN na ração total, contrariando o conceito originalmente exposto. Nesse cenário, resultados científicos reportaram que tais variações no consumo de matéria seca são justificadas por haver diferenças no tamanho e na densidade das partículas da forragem, principalmente quando subprodutos fibrosos são utilizados (devido ao menor tamanho de partícula, ver figura 1), tornando a característica química da fibra (FDN) insuficiente para explicar alterações no consumo de matéria seca e no desempenho animal.

Sabe-se que fontes de fibras comumente utilizadas em rações para bovinos confinados apresentam diferentes características químicas e físicas, dificultando em muito a predição do consumo de matéria seca e, consequentemente, o consumo de energia da dieta de determinado lote de animais. Tais características (química, física ou ambas), que melhor descrevem fontes de fibra em formulações de ração, ainda são pouco compreendidas no âmbito científico, tornando necessário mais estudos quanto às exigências de fibra em confinamento.

Em termos práticos, é importante compreender como nutricionistas po- 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Palha de trigo Feno de capim Silagem de capim Silagem de milho Feno de alfafa Silagem de alfafa Casca de algodão casca de soja Caroço de algodão Polpa de beterraba Componentes (% na MS da ração) FDN Celulose FDNfe Hemicelulose Lignina Figura 1 – Teores da fração fibra insolúvel em detergente neutro, seus componentes químicos e valores estimados de fibra detergente neutro fisicamente efetiva em diferentes ingredientes. Adaptado de Owens (2008) derão substituir fontes de fibra em rações destinadas a bovinos confinados sem que haja alterações no consumo de matéria seca e, consequentemente, no consumo de energia. Pesquisadores americanos avaliaram o efeito de diferentes fontes e níveis de inclusão de fibra no consumo de matéria seca e no consumo de energia líquida de ganho em 11 experimentos, utilizando bovinos de corte em confinamento. O conjunto de dados incluiu 48 médias oriundas de tratamentos contendo como fontes de forragens: feno, palhas, subprodutos e silagens, com níveis de fibra variando de 0 a 30% de inclusão na matéria seca da ração total. Nesse trabalho, os pesquisadores concluíram que a concentração da fração FDN na ração total foi a melhor preditora do consumo, sendo, portanto, a fração recomendada para formulações de dietas contendo diferentes tipos de forragens para se atingir semelhantes consumos de matéria seca e de energia líquida de ganho em bovinos confinados. Entretanto, em virtude da baixa inclusão de forragem utilizada neste trabalho, é possível inferir que os efeitos de fontes e níveis de inclusão de fibra não geraram grandes alterações no consumo voluntário dos animais avaliados, razão dos autores afirmarem que o teor de FDN da ração total é bom indicador para substituir fontes de forragem. Por outro lado, sabendo que confinamentos brasileiros apresentam inclusões de forragens três vezes superior à média utilizada por confinamentos americanos e que convivem com grande diversidade de fontes de fibra (seja forragem ou subprodutos fibrosos), a utilização da fração FDN da ração total provavelmente não seja a melhor entidade para se obter rações que promoverão semelhantes consumo de MS e de ELg. Tal conclusão pode estar apoiada no fato de que para se substituir fontes de fibra é necessário avaliá-las por suas características químicas e físicas da fibra e não somente pela composição química (FDN) da ração total. Assim, a utilização do conceito de efetividade física da fibra, medida que envolve os atributos químicos (FDN) e físicos (tamanho médio de partícula), provavelmente será alternativa adequada no intuito de substituir diferentes volumosos em rações destinadas a confinamentos sem alterar o consumo e o desempenho de bovinos.

O QUE É FIBRA?

O aproveitamento adequado de rações destinadas a bovinos é influenciado pela composição química e pelas características físicas de cada ingrediente utilizado. Os carboidratos compõem a maior fonte de energia para ruminantes e compreendem de 60% a 70% da ração destes animais. Sua grande importância está relacionada ao fornecimento de energia para os micro-organismos ruminais e para o animal, além de manter a saúde e a funcionalidade do rúmen.

Em termos nutricionais, os carboidratos são classificados em fibrosos (CF) e não fibrosos (CNF). Nesta classificação, os CNF representam as frações degradadas mais rapidamente no rúmen e incluem amido, açúcares e pectina. Já os CF, representados pela fração fibra detergente neutro e pela fibra detergente ácida, ocupam espaço no trato gastrintestinal do animal e estimulam a mastigação. Conceitualmente, a fração fibra detergente neutro compreende a hemicelulose, a celulose e a lignina; enquanto que a fração FDA é composta por celulose e lignina apenas, excluindo-se a hemicelulose no processo analítico. Portanto, os valores de hemicelulose publicados na literatura são usualmente determinados por diferença entre ambos os valores, onde:

Hemicelulose = FDN – FDA A avaliação da composição das frações de carboidratos fibrosos é importante para o entendimento do potencial de utilização de diversos ingredientes, principalmente forragens. A hemicelulose é degradada no rúmen ligeiramente mais rápido que a celulose. O balanço entre esses diferentes componentes determina se a fibra de um ingrediente será mais ou menos degradada no ambiente ruminal.

A fração FDN é negativamente relacionada com a densidade do ingrediente, representando a fração de digestão lenta e, portanto, é bem correlacionada com o enchimento ruminal e, consequentemente, com o consumo de matéria seca (MS). Já a digestibilidade do ingrediente está mais relacionada com a fração FDA, pois a fração da fibra indigestível, a lignina, representa maior proporção da entidade FDA.

*Rodrigo Goulart é PhD e gerente Técnico Zilmax da MSD Saúde Animal

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Edição 159
08/2012
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