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Leite

LAMINITE BOVINA

Doença é uma inflamação dos tecidos sensitivos ou lâminas do casco

José Jurandir Fagliari e Kalina Maria de Medeiros Gomes Simplício*

As enfermidades podais dos bovinos apresentam forte impacto econômico na rentabilidade da pecuária mundial. Depois dos problemas reprodutivos e das mastites, as doenças do sistema locomotor são consideradas uma das condições mais importantes que afetam negativamente a produção e a produtividade dos rebanhos bovinos. Aumenta o intervalo entre partos e a perda de produtividade devido à menor produção de leite, à perda de peso, aos custos com tratamento e ao descarte de animais, muitas vezes de alto valor zootécnico. As despesas anuais com tratamento, descarte de animais e honorários veterinários podem chegar a, respectivamente, 7,92%, 38,39% e 51,77% do custo total da produção da fazenda. No Brasil, relata-se um custo de 44 a 52 dólares por animal tratado.

Presença de sobresessola e inflamação do membro

Atualmente, a pododermatite asséptica difusa, ou laminite, é considerada uma das principais causas de claudicação na espécie bovina, pois se estima que mais de 60% das afecções podais estejam a ela associadas. Laminite é a inflamação dos tecidos sensitivos ou lâminas do casco, estruturas que unem a parede do casco à falange distal. Visto que as lâminas epidérmicas sustentam a falange distal e, portanto, o peso do animal, a degeneração laminar prejudica o mecanismo de suspensão e permite que as forças de sustentação do peso empurrem a falange distal ventralmente. A falha deste mecanismo suspensório laminar provoca claudicação dolorosa e, por vezes, incapacitante. A fim de aliviar a dor, os animais desviam o peso para o membro contralateral que, também, pode desenvolver laminite. Cerca de 80% a 90% dos casos são constatados nos membros pélvicos, acometendo, em cerca de 85% a 90%, os dígitos laterais.

Há uma tendência de aumento da ocorrência de enfermidades do sistema locomotor de bovinos à medida que os animais se tornam mais especializados. Desde meados do século XX, geneticistas e criadores intensificaram os trabalhos de melhoramento de bovinos leiteiros. Progressos relevantes surgiram quanto à capacidade digestiva e respiratória, maior desenvolvimento da glândula mamária e, consequentemente, maior produção de leite. Entretanto, estes resultados não foram acompanhados, na mesma velocidade, pelo melhoramento da capacidade de sustentação do corpo pelas pernas e patas. Paralelamente, atendendo a demanda de mercado, foram realizadas modificações nas instalações visando adequá-las às necessidades de intensificação dos sistemas de produção dos rebanhos, de modo a torná-los mais produtivos. Esses fatores culminaram com maior concentração de animais por área, resultando em maior volume de dejetos, maior umidade, piora na condição de higiene e manejo mais complexo. Na busca de soluções para estes problemas, iniciou-se um processo de impermeabilização dos pisos das construções objetivando reduzir a umidade e facilitar a limpeza. Este processo culminou com a construção dos sistemas loose-house, tie-stall e free stall, em cujas instalações as vacas frequentemente permanecem a maior parte do tempo em pé sobre piso de concreto, em situações de desconforto por falta de cama adequada que as estimulem ao descanso.

Corte de casco de um animal com laminite avançada, já com rotação de falange e fistulação da lesão

A etiologia da laminite é multifatorial. Uma gama de fatores, como manejo, ambiente, doenças infecciosas, desequilíbrios nutricionais, fatores genéticos, tipo de piso, modificações hormonais em função do estresse do parto, sodomia, aumento do peso corporal, ausência ou excesso de atividade física, ausência de cama, traumas, frio extremo e deficiências inerentes à queratinização da derme, podem estar envolvidos na etiopatogenia desta enfermidade.

Dentre os vários fatores de risco, a nutrição é considerada a principal contribuinte, especialmente devido à ingestão de quantidade excessiva de carboidratos facilmente fermentáveis com simultânea redução da produção de saliva e do tempo de ruminação. Isto ocasiona aumento da concentração de ácido láctico e redução do pH no trato digestório e, em consequência, acidose ruminal. A acidose ruminal ocasiona destruição de grande número de bactérias, sobressaindo-se Lactobacilus sp. e Streptococcus bovis, produtores de ácido láctico. A produção de ácido láctico excede a utilização, absorção e tamponamento e, assim, ocorrem liberação e absorção de endotoxinas, D-lactato e Llactato. Também, ocorre destruição da mucosa digestiva, endotoxemia, acidose sistêmica, anormalidades na coagulação do sangue, em especial nos capilares da lâmina dos cascos, diminuição do fluxo sanguíneo aos membros com isquemia parcial e lesões irreversíveis às estruturas dos cascos.

Embora já comprovada a relação entre a ocorrência de laminite e acidose ruminal e/ou sistêmica, várias pesquisas foram realizadas com o intuito de estabelecer uma ligação entre laminite e outras afecções. Substâncias vasoativas, histamina e endotoxinas, produzidas nos casos de enfermidades sistêmicas comuns no período pós-parto, como acetonemia, mastite e metrite, foram consideradas responsáveis por lesões ao córion laminar. Relata-se que a incidência de mastite (60%) e de metrite (25%) em vacas claudicantes foi superior à de vacas sadias, respectivamente, 29% e 12,5%.

Outros fatores, como teores de proteína, energia, cálcio, fósforo, cobre, manganês, selênio, zinco, molibdênio e vitaminas A, D e E também foram incriminados na etiopatogenia da doença. Estes minerais e vitaminas são essenciais na formação e manutenção da integridade do casco, na cicatrização e na imunidade.

Uma característica anatômica especial do casco é que o córium encontrase no estreito e inflexível espaço entre a terceira falange e o tecido ceratinizado. Assim, qualquer aumento de volume causa aumento de pressão e dor. Além disso, também deve-se considerar o desgaste excessivo do tecido córneo em pisos abrasivos, especialmente quando úmidos, onde a taxa de desgaste pode superar a de crescimento do tecido córneo, de aproximadamente 3 a 9 mm por mês. Outro aspecto a ser observado é a grande pressão exercida pelo peso dos bovinos por cm2 do pé, cerca de 10 vezes maior do que a de pessoas.

Sabe-se que vacas leiteiras chegam a permanecer de pé por até 16 horas diárias, para serem ordenhadas ou alimentadas. Afora o fato de se manter de pé por tanto tempo, estes animais são mantidos, na maioria das condições, em chão de piso abrasivo e irregular e, às vezes também sem cama. Algumas propriedades praticam até três ordenhas diárias, deixando pouco tempo para o descanso dos animais.

A gravidade da laminite está relacionada à frequência, intensidade e duração dos efeitos mecânicos ou da acidose no mecanismo responsável pela liberação de substâncias vasoativas. A forma aguda da doença não é tão comum em bovinos quanto é em equinos, sendo observada mais frequentemente em touros ou garrotes em confinamento, alimentados com dieta com alto teor de energia. Está associada a graves alterações sistêmicas relacionadas à endotoxemia decorrente de distúrbios digestivos, como acidose ruminal, abomasite ou deslocamento de abomaso. É possível a rotação da terceira falange, ou falange distal, embora mais raramente em comparação aos equinos. Caso seja constatada, recomenda-se procurar auxílio veterinário para intervenção imediata. O tratamento de animais com laminite aguda deve ser considerado uma emergência, pois a degeneração laminar está em curso e o retardo de algumas horas pode significar a diferença entre o desfecho bem sucedido e o fracasso.

Em vacas leiteiras submetidas à exploração intensiva em sistema de confinamento permanente prevalece a forma subclínica de laminite, de evolução lenta e, portanto, insidiosa e crônica. Os sinais clínicos não são evidentes desde o início e os produtores e técnicos só percebem a doença cerca de seis meses após a exposição dos animais aos fatores de risco, quando começam a manifestar lesões podais secundárias à laminite, como hemorragia e úlcera de sola, sola dupla, erosão de talão, doença da linha branca, fissuras ou rachaduras e deformações no estojo córneo. Na laminite crônica, a recuperação do animal é demorada e incerta.

Deve-se controlar a dor, embora com cautela quanto ao uso prolongado de antiinflamatórios não-esteróides, uma vez que podem causar irritação, ulceração, hemorragia ou perfuração de abomaso. Muitas vezes há necessidade de terapia antimicrobiana. É comum o descaso em relação à dose e ao período de tratamento com antibióticos. Tal negligência pode ocasionar resistência precoce aos antimicrobianos, atraso na recuperação dos animais e, consequentemente, maior custo final do tratamento.

O tratamento tópico, ou local, propicia bons resultados na maioria das lesões podais. Após a aplicação do medicamento, deve-se utilizar uma faixa para manter o produto em contato com a área lesada por um tempo adequado. Estas bandagens não devem permanecer por um período superior a três dias e devem, na medida do possível, serem impermeabilizadas. Neste sentido uma alternativa de baixo custo é o pincelamento da bandagem com emulsão asfáltica. O tratamento de laminite subclínica consiste no casqueamento e tratamento das lesões podais associadas, procurando-se corrigir as causas, inclusive aquelas relacionadas à dieta.

Como terapia de suporte, recomenda- se a inclusão de vitamina (biotina) e aminoácido (metionina) na dieta, em razão de seus efeitos na queratinização, além de cobre, zinco e selênio, na dieta do animal. Relata-se que o uso de ionóforos, como a monensina, reduziu a ocorrência de laminite em vacas leiteiras, de 31% para 18%, bem como a incidência de mastite no pós-parto.

Sem dúvida, no tratamento de laminite bovina é importante o casqueamento. No entanto, tal procedimento deve ser realizado com muita atenção, especialmente quando há uma área lesionada, pois o aprofundamento do casqueamento pode agravar esta lesão.

Professor docente e mestranda da UNESP/Jaboticabal-SP

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Edição 144
3/2011
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