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AG - A Revista do Criador

Especial Doenças Reprodutivas

VACINAÇÃO É O MELHOR REMÉDIO

Lesões na pele, animais e equipamentos de inseminação contaminados são meios de contágio de doenças

Com o início da monta, a atenção com a saúde do rebanho precisa ser redobrada. Principalmente, com Brucelose, Campilobacteriose, Diarreia Viral Bovina (BVD), Leptospirose, Rinotraqueíte Infecciosa dos Bovinos (IBR) e ricomonose, pelo grande impacto econômico gerado. De forma mais objetiva, as doenças reprodutivas podem causar prejuízos pelo aumento do número de abortamentos, do intervalo entre partos, nascimento de bezerros fracos e repetições de cio. Não há sinais característicos para cada uma das doenças. O diagnóstico deve ser feito mediante análise laboratorial, do histórico de perdas que vem ocorrendo no plantel e das categorias mais afetadas (novilhas, vacas).

Mauro Pereira Soares, patologista do Laboratório Regional de Diagnóstico da Faculdade de Veterinária da Universidade Federal de Pelotas (RS), lembra que pesquisas relatam que a brucelose tem controle por meio da vacinação, em dose única, das fêmeas com três a oito meses de idade e o descarte dos animais positivos no teste de soroaglutinação sistemático. Já na BVD, o sintoma da diarreia aparece geralmente em rebanhos não vacinados e na faixa etária de seis meses a um ano e o controle pode ser feito a partir de um diagnóstico laboratorial para o uso adequado de vacinas, que são recomendadas para fêmeas de reposição na idade de oito e doze meses de idade com revacinação próxima à monta.

De acordo com Aiesca Oliveira Pellegrin, médica-veterinária e doutora em Ciência Animal da Embrapa Pantanal (Corumbá, MS), a campilobacteriose e a leptospirose podem ser tratadas com antibióticos.“No caso da campilobacteriose, sua utilização diretamente na cavidade prepucial dos touros infectados pode auxiliar a expelir a infecção, entretanto o mais recomendado é a eliminação dos machos positivos, uma vez que otratamento não é 100% eficaz. Para a leptospirose, o objetivo deve ser exterminar os portadores renais da doença, ou seja, aqueles animais que eliminam a leptospira por meio da urina”. Outro ponto destacado pela veterinária para essa enfermidade é a união da vacinação com o tratamento paliativo.

Se o objetivo é acabar por completo com a doença do criatório, somente a vacinação não é suficiente, sendo indicada associação com antibióticos, principalmente a estreptomicina. Aiesca ainda esclarece que, mesmo quando a vacinação das doenças reprodutivas faz parte da rotina obrigatória da fazenda, se o objetivoé controlar as doenças ou impedir a sua entrada no rebanho, qualquer das estratégias sanitárias utilizadas deve prever a não aquisição de animais de propriedades infectadas e o descarte do gado contaminado ou com problemas reprodutivos.

Segundo a veterinária, muitas vezes a simples prática de descarte sistemático de fêmeas que não pariram dois anos consecutivos já surte significativo resultado na redução de problemas reprodutivos de origem infecciosa.

Brucelose

Acomete bovinos, outras espécies animais e o homem. A bactéria instalase no útero, placenta e/ou no úbere das fêmeas, e nos testículos dos machos. Meios de transmissão: O principalé a aquisição de bovinos infectados.

A transmissão do germe se dá pela via oral, devido ao hábito do macho lamber a genitália da fêmea, ou pela ingestão de alimentos contaminados por urina, fezes corrimentos, restos fetais de bovinos doentes. Lesões da pele podem, também, ser via de penetração de germes.

Principais sintomas: Abortamento, principalmente a partir do sexto mês de gestação. Após a primeira infecção,é grande a ocorrência de abortamento, podendo diminuir e até cessar, mas continua como fonte constante de contaminação.

Prejuízos causados: redução na produção de leite, nascimentos e concepção de bezerros fracos.

Controle e Prevenção: Depende muito da vigilância sanitária imposta, tamanho do rebanho e fase da doença. Vacinação das bezerras com três a oito meses de idade; exame de todo o rebanho ao menos uma vez por ano; repetição do exame dos bovinos suspeitos três meses após o primeiro; descarte dos bovinos doentes; isolamento das vacas ao abortar; envio de coletas para exames laboratoriais; enterro do material resultante do abortamento não enviado para o laboratório; desinfecção com cal ou creolina de todo o material que teve contato com o feto, membranas fetais e líquidos fetais.

Animais de rebanho infectado, mesmo quando a sorologia é negativa podem estar contaminados.

Campilobacteriose

Caracterizada na fêmea por intervalos entre cios mais longos e abortamentos. No touro não há sinal visível da doença.

Meios de transmissão: Cobertura com touros ou uso de instrumentos contaminados na inseminação artificial.

Principais sintomas: Vacas com intervalo entre cios mais longos (30 a 35 dias): Corrimento vaginal; aborto geralmente após o 5º mês de gestação; retenção de placenta; infertilidade das fêmeas ciclando durante três a quatro meses.

Prejuízos causados: Esterilidade temporária nas fêmeas, alongando os intervalos de entre partos, e com isso reduzindo a produção de leite e o número de nascimentos de bezerros.

Prevenção e Controle: Inseminação artificial utilizando sêmen idôneo; vacinação anual trinta dias antes da monta para as fêmeas (promover vacinações sistemáticas e repetidas).

BVD

A Diarreia Viral Bovina (BVD) causa abortamento no primeiro trimestre de gestação.

Meios de transmissão: Contato com animais doentes; sêmen ou touro infectado.

Principais sintomas: Febre; diarreia; abortamento no primeiro trimestre de gestação; corrimento vaginal.

Prejuízos causados: Maior intervalo de partos com queda na produção de leite e menor número de nascimento de bezerros.

Prevenção e Controle: Vacinar as fêmeas aos sete meses de idade, aos 18 meses ou antes da cobertura, e revacinar anualmente. Animais já gestantes não devem ser vacinados para BVD.

Leptospirose

Causa abortamento nas vacas e nos animais jovens, febre, icterícia (amarelão), anemia e sangue na urina. Os germes instalam-se nos rins e são eliminados na urina.

Meios de transmissão: Ingestão de água ou alimentos contaminados por urina (de vacas, suínos e animais silvestres); fetos abortados e placentas; leite e lesões de pele.

Principais sintomas: Abortamento geralmente na fase final de gestação; sangue na urina; febre; anemia; falta de apetite. Prejuízos causados: Queda na produção de leite; menor número de nascimento de bezerros; maior mortalidade de bezerros.

Prevenção e Controle: Tratamento das vacas doentes; vacinação sistemática das vacas e novilhas em idade de reprodução; controle de roedores e do excesso de água nas propriedades.

IBR

A Rinotraqueíte Infecciosa dos Bovinos (IBR) pode causar alterações respiratórias, conjuntivite, metrite e sintomas nervosos, além do abortamento.

Meios de transmissão: Sêmen e vacas contaminadas.

Sintomas aparentes: Abortamento a partir do 5o mês de gestação; presença de pústulas na vulva (manchas avermelhadas) e vagina; inflamação no olho; corrimento vaginal.

Prevenção e Controle: A vacinação é recomendada somente em rebanhos nos quais se diagnosticou a doença − a vacina somente diminui os sintomas clínicos, não previne nova infecção; imunização das fêmeas de seis a oito meses de idade, revacinação aos 18 meses ou antes da cobertura e depois, anualmente.

Tricomonose

Provoca abortamento, caracterizandose por corrimento de pus no aparelho reprodutor da vaca. O protozoário localizase no útero e na vagina da vaca, bem como nas pregas do prepúcio do touro. Meios de transmissão: Touros, instrumentos de inseminação e locais contaminados. Principais Sintomas: Abortamento geralmente nos três primeiros meses de gestação, quase sempre despercebido; corrimento de pus na vagina; aparecimento de cios com intervalos mais longos. Prejuízos causados: Esterilidade temporária nas fêmeas, alongando o intervalo de partos e, com isso, reduzindo a produção de leite e o número de nascimento de bezerros. Prevenção e Controle: Uso da inseminação artificial; retirada do touro infectado do rebanho; isolamento para as vacas suspeitas e doentes por 60 a 90 dias.

Medidas em caso de abortamento

- Isolamento da vaca que abortou

- Consulta ao técnico para orientação quanto ao envio de materiais específicos para exames laboratoriais, visando ao diagnóstico da causa do abortamento.

- Enterro do material resultante do abortamento que não tenha sido enviado para o laboratório.

- Desinfecção do local onde ocorreu o abortamento.

- Recondução da vaca que abortou para junto das companheiras de rebanho, somente após ser considerada livre de qualquer doença infecto-contagiosa.

- Manutenção das companheiras de rebanho em observação, com relação ao aparecimento de novos abortos.


PERDAS EMBRIONÁRIAS

40 a 50% das causas de perdas de gestação Perdas embrionárias estão relacionados a doenças infecciosas como a IBR, BVD e leptospirose

José Luiz Moraes Vasconcelos, Fernando Henrique Sousa Aono, Marcos Henriquye Colombo Pereira*

Alucratividade dos sistemas de produção de gado de corte ou de leite é profundamente dependente da eficiência reprodutiva do rebanho. Apesar do grande avanço que obtivemos nos últimos anos em relação às biotecnologias, que estão se traduzindo em melhorias na eficiência reprodutiva, ainda temos grandes desafios sanitários que reduzem o potencial produtivo dos nossos rebanhos. Para se ter ideia, em um estudo realizado em vacas leiteiras nos EUA, em 2007, verificou-se que 24,7% das matrizes diagnosticadas gestantes aos 28 dias após a inseminação artificial não pariram, ou seja, apresentaram perda da gestação. Em dois levantamentos recentes realizados no Brasil em gado de corte, sendo um com mais de 300.000 e outro com 3.464 prenhezes, a porcentagem de “fundo de maternidade” (vacas que apresentaram perda de gestação) foi superior a 6%.

Existe uma grande quantidade de fatores que podem levar à perda de gestação e estudos demonstram que cerca de 40 a 50% das causas de perdas de gestação estão relacionados a doenças infecciosas, como a IBR, BVD e leptospirose. O vírus da IBR tem efeito negativo na fertilidade, pois influencia a qualidade dos embriões, causa morte embrionária e abortos. Estima-se que 70 a 90% das infecções por BVD ocorram sem a manifestação de sinais clínicos e que o principal problema econômico é decorrente da infecção intrauterina, que pode estar associada á morte embrionária e ao aborto. A leptospirose também pode causar morte fetal, abortos e infertilidade. Infelizmente existem poucas informações a respeito dos efeitos da vacinação contra esses agentes no desempenho reprodutivo.

Recentemente, foram avaliados, em diversas situações, os efeitos da vacinação para IBR/BVD/ leptospirose (5,0 mL, i.m., Cattle Master® 4 + L5) nas taxas de prenhez e de perdas de gestação em matrizes de corte e leiteiras em lactação submetidas à inseminação artificial em tempo fixo (IATF). No primeiro estudo, realizado em sete propriedades que não utilizavam a vacina anteriormente, 2.384 vacas de corte foram divididas aleatoriamente dentro de cada lote para receber ou não a vacina Cattle Master® 4+L5, sendo a primeira dose no início do protocolo de IATF e a segunda dose (reforço) no momento do primeiro diagnóstico gestacional (30 dias pós-IATF). Nesse estudo, as vacas submetidas à vacinação apresentaram maiores taxas de prenhez aos30 (Controle: 53,2% vs. Vacinadas: 57,4%) e 120 dias (Controle: 48,3% vs. Vacinadas: 53,5%) após a inseminação. No segundo estudo, realizado em uma propriedade que não utilizava a vacina anteriormente, 297 vacas de corte foram divididas aleatoriamente dentro de cada lote para receber ou não a vacina Cattle Master® 4+L5, sendo a primeira dose 30 dias antes do início do protocolo de IATF e a segunda dose (reforço) no dia do início do protocolo. Nesse estudo, as vacas submetidas à vacinação tenderam a apresentar maiores taxas de prenhez aos 30 (Controle: 52,9% vs. Vacinadas: 59,7%) e 120 dias (Controle: 50,0% vs. Vacinadas: 57,7%) após a inseminação.

Assim como observado em matrizes de corte, estudos em vacas leiteiras sobre vacinação para IBR/ BVD/leptospirose também têm indicado efeitos benéficos à eficiência reprodutiva. Em um estudo inicial realizado em 37 propriedades (total de 1.140 vacas produzindo, em média, 21,3 ± 8,2 Kg de leite por dia) não utilizavam a vacina anteriormente, as vacas foram divididas aleatoriamente dentro de cada lote para receber ou não a vacina Cattle Master® 4+L5, sendo a primeira dose no início do protocolo de IATF e a segunda dose (reforço) no momento do primeiro diagnóstico gestacional (30 dias pós-IATF). Nesse estudo, as vacas submetidas à vacinação apresentaram maiores taxas de prenhez aos 30 (Controle: 37,6% vs. Vacinadas: 44,4%) e 71 dias (Controle: 31,7% vs. Vacinadas: 41,1%) após a inseminação, bem como uma menor procentagem de perdas de gestação entre 30 e 71 dias após a inseminação (Controle: 15,6% vs. Vacinadas: 7,4%). Interessantemente, em outro estudo semelhante ao anterior, mas realizado em 16 propriedades (total de 820 vacas produzindo, em média, 24,5 ± 8,7 Kg de leite por dia) que já utilizavam Cattle Master® 4+L5 em seus programas sanitários, a vacinação no início do protocolo de IATF não alterou as taxas de prenhez aos 30 (Controle: 34% vs. Vacinadas: 34,7%) e 71 dias (Controle: 30,6 vs. Vacinadas: 30,1%) após a IATF, indicando que o reforço anual com apenas uma dose da vacina tem resultado semelhante a um reforço com duas doses em termos de taxa de prenhez à IATF.

Por fim, é importante salientar que cada propriedade tem desafios sanitários particulares e, portanto, as taxas de perdas de gestação diferem em cada situação. Assim, cada propriedade deve avaliar qual é o seu índice de perdas de gestação e qual é o impacto econômico dessas perdas. Finalmente, o médico veterinário deve investigar e esclarecer qual é o agente causador das perdas de gestação e adotar medidas para controlar e prevenir surtos, sendo que o uso de vacinação tem se mostrado uma boa estratégia.

*Pesquisadores do Departamento de Produção Animal – Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da UNESP/Botucatu

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Edição 141
10/2010
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