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INTEGRAÇÃO

Silvicultura & Pecuária, parceria de resultado

Integração de florestas e pastos é aliada na criação de gado e na preservação do meio ambiente

Em tempos de conscientização ecológica, um sistema de pecuária não muito comum começa a ganhar destaque no Brasil. É a combinação intencional de árvores, pastagem e gado. Manejadas de forma integrada, as atividades têm objetivo de incrementar a produtividade por unidade de área e preservar o meio ambiente, recebendo o nome de Sistema Silvipastoril. Um dos primeiros exemplos da utilização paralela de silvicultura e pecuária em larga escala, com eucalipto, foi implantado pela Companhia Mineira de Metais (CMM), do Grupo Votorantim, em 1993, em uma fazenda localizada no noroeste de Minas Gerais, na região dos Cerrados. Mas a idéia de integrar animais em atividades florestais não é nova. No oeste dos Estados Unidos, a prática já vem sendo realizada há mais de 150 anos

Os sistemas silvipastoris apresentam grande potencial de benefícios econômicos e ambientais para os produtores e para a sociedade. “A produção é aliada na conservação dos recursos naturais. Além de fornecer alimento, madeira, lenha, forragem, plantas medicinais e fibras, o sistema auxilia na conservação dos solos, das microbacias, das áreas florestais e de toda a biodiversidade”, relata o pesquisador Valdemir Antônio Laura, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Gado de Corte. Um dos benefícios é a redução substancial dos custos de manutenção da floresta sem prejudicar o crescimento e a sobrevivência das árvores. A prática ainda pode fornecer alimento para pessoas e para o gado como madeira, lenha, postes e mourões, frutos e castanhas, resinas, pasto apícola, entre outros produtos.

A grande vantagem é que ele diminui os impactos ambientais negativos inerentes aos sistemas convencionais de criação de gado. Também favorece a restauração ecológica de pastagens degradadas, diversifica a produção das propriedades rurais gerando lucros e produtos adicionais. Ainda ajuda o produtor a depender menos de insumos externos (como adubos, postes e mourões), permitindo e intensificando o uso sustentável do solo. Outro benefício é o aumento do número da área florestal plantada, reduzindo a pressão de desmatamento, além da conservação e melhoria do solo – por meio da redução da erosão eólica –, da estabilização dos solos (especialmente nas encostas), da ação descompactante das raízes e da atividade microbiana. “As árvores aceleram a ciclagem de nutrientes, principalmente no caso de plantas fixadoras de nitrogênio, aumentando os nutrientes disponíveis no sistema”, diz o pesquisador da Embrapa Florestas, Vanderlei Porfírio da Silva

De acordo com ele, as culturas são multifuncionais, onde existe a possibilidade de intensificar a produção pelo manejo integrado dos recursos naturais evitando sua degradação, além de recuperar sua capacidade produtiva. “A criação de animais com árvores dispersas na pastagem, em divisas e em barreiras de quebra-ventos, pode reduzir a erosão, melhorar a conservação da água, reduzir a necessidade de fertilizantes minerais, capturar e fixar carbono, diversificar a produção, aumentar a renda e a biodiversidade, além de melhorar o conforto dos animais”, argumenta.

ANIMAIS GANHAM EM BEM-ESTAR

Para os animais, o maior benefício ocorre em relação ao seu bem-estar devido às alterações microclimáticas no ambiente. “Reduzem-se os extremos de temperatura (até 8°C de diferença entre as posições sombreadas e ensolaradas), propiciando que os animais pastem por períodos mais longos, bebam menos água (20%) e, conseqüentemente, mantenham a eficiência de conversão de forragem, maximizando o ganho de peso”, explica Silva.

A principal desvantagem da silvicultura aliada à pecuária é o tempo que a área fica indisponível para o pastejo, ou seja, até o momento em que as árvores cresçam e permitam a entrada do gado, o tempo é de aproximadamente um ano. “Por outro lado, o inconveniente “isolamento de área” é descartado no caso dos sistemas agrossilvipastoris, onde a área é utilizada para agricultura no primeiro ano ou enquanto as árvores não possuírem porte para receber animais”, diz.

Luiz Carlos Cesar da Costa Filho, proprietário da Fazenda Arizona, com sede em Dois Irmãos do Buriti, em Mato Grosso do Sul (MS), é um dos produtores que adotaram esse sistema. Sua fazenda, especializada na recria de machos Nelore, implementou-o há dois anos e meio. “Vimos a chance de agregar valor e melhorar os resultados na parte animal, refletindo no bem-estar, aumentando o ganho de peso e diminuindo o tempo de recria em pelo menos três meses”, conta o produtor. Costa Filho cultiva árvores nativas e também eucaliptos. Ele conheceu o sistema por meio da Embrapa Gado de Corte e afirma que o retorno é garantido. “Os investimentos geram lucros no ganho de peso e na qualidade do gado, além de podermos, daqui há alguns anos, derrubar as árvores e também ganharmos com a venda da madeira”, conta.

PLANEJAMENTO É CHAVE DO SUCESSO

Apesar dos benefícios de cultivar florestas e criar gado na mesma área, Valdemir Laura, da Embrapa Gado de Corte faz um alerta: é necessário um planejamento cuidadoso para capturar todos os benefícios da presença das árvores no espaço rural. “A utilização das árvores para a produção de madeira envolve planejamento e conhecimento das necessidades”, afirma. Itens como mão-de- obra e/ou treinamento de pessoal, produção esperada, custos, taxas, mercado e riscos devem ser calculados na ponta do lápis. “A cada novo elemento que ingressa no sistema de produção, árvore, forrageira e animal, há um aumento na complexidade do mesmo, exigindo mais conhecimento do responsável pelo sistema”, completa.

Alex Melotto ao lado das árvores quebra-ventos: “A implementação do sistema é simples”

O consultor de florestas e bolsista da Embrapa Gado de Corte, Alex Marcel Melotto, explica que a implementação do sistema é bastante simples. No primeiro ano, é realizado o plantio da espécie vegetal (eucalipto, na maioria dos casos, devido ao rápido crescimento), em espaçamento maior que o comercialmente usado em florestas puras (10,0 x 4,0 m).

Valdemir Laura, da Embrapa: “A produção é aliada na conservação dos recursos naturais”

A distância entre as mudas e o arranjo dependerá do objetivo do produtor: mais pasto ou mais floresta. Posteriormente, de acordo com o crescimento das árvores, é semeada a forrageira para formação da pastagem e o gado entrará na área, de acordo com o manejo da pastagem. “Algumas das gramíneas mais usadas para a formação de pastagens no Brasil, como Brachiaria decumbens, Brachiaria brizantha e cultivares de Panicum maximum são tolerantes ao sombreamento e, sob sombra moderada, o crescimento pode ser maior que a pleno sol”, explica Melotto. O eucalipto é colhido aos 11 anos de idade, quando se encerra o ciclo do sistema.

Alguns aspectos são essenciais na escolha das espécies arbóreas que irão compor os sistemas silvipastoris, conforme Melotto: a adaptação às condições regionais de fertilidade de solo, regime de chuvas e de seca, teor de alumínio, encharcamento da terra e alagamento. Também é importante avaliar a compatibilidade do sistema com os demais componentes (sem partes tóxicas para o gado e sem efeitos alelopáticos, por exemplo). É importante saber se as árvores têm crescimento rápido, se o tronco não tem ramificações laterais em condições de campo e céu aberto, se são resistentes ao vento (raízes profundas), se têm capacidade de rebrota, manejo silvicultural conhecido e, se possível, capacidade de fixar nitrogênio.

A utilização de bovinos e/ou ovinos em plantações de eucalipto não reduz o crescimento/sobrevivência das árvores, mas diminui o risco de incêndio, necessidade de capinas e o custo de manutenção das árvores. As vendas de bovinos provêem também ganhos adicionais em tempos menores, atuando como fonte de renda alternativa para os silvicultores, já que uma floresta pura traria retornos iniciais geralmente ao sexto ou sétimo ano após o plantio, dependendo da espécie.

Gabriel Bononi


Edição 119
8/2008
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