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Sanidade

 

Diarreia dos bezerros

Um mal que causa grandes prejuízos

Thales dos Anjos de Faria Vechiato*

Chega, enfim, depois de aproximadamente nove meses de espera, o fruto de um trabalho árduo na reprodução de uma fazenda de gado de corte: os precisosos bezerros!

Foram dias chuvosos e de sol forte, trabalhados intensamente na época de estação de monta, que na maioria do Brasil compreende o período de outubro a janeiro, cujas vacas visitaram os currais por três vezes em curto espaço de tempo, e que valeu cada segundo investido.

Todo esse trabalho é recompensando quando os partos começam a surgir e, com isso, nos deparamos dia pós dia, com os nascimentos de bezerros em todo o Brasil.

Mas o que fazer quando os partos começam a surgir? Qual procedimento a ser tomado? Tranquilo, os funcionários das fazendas sabem muito bem o que fazer nas primeiras horas de vida dos animais, como cortar umbigo (2 a 3 dedos – 5cm), aplicar iodo 10% dentro e fora dele e utilizar um spray repelente ao redor, além de injetar um endectocida. Tudo isso deve ser acompanhando de uma boa anotação, com a observação atenta às primeiras horas de vida.

Pronto, tudo perfeito. Bezerro curado e protegido. Será que é só esperar a desmama? Seu bezerro estará livre de todos os problemas? E quando alguns entraves começam a surgir, por exemplo, os problemas sanitários? Pneumonias, onfalites, tristeza parasitária, poliartrite – a famosa caroara –, entre outras enfermidades que podem ocorrer em um rebanho. Todas essas doenças têm grande importância, todavia, o grande mal que sempre assola as fazendas pecuárias chama-se diarreias.

O que fazer, como identificar, tratar só com antibióticos são as perguntas que assombram os pecuaristas quando ocorre uma diarreia no bezerro. Esse mal que paira nas fazendas pode ser ocasionado por diversos agentes, podendo ser viral, bacteriano, verminótico e nutricional, na qual esse último acontece de forma sazonal, quando iniciam as primeiras chuvas. Como fica difícil a identificação da causa nas propriedades, a classificação é feita de acordo com a coloração e consistência das fezes, sendo amarela, esverdeada e preta/ enegrecida, como pode ser observado na figura da página 84.

A diarreia verminótica é mais difícil de ser a causa principal, pois os animais tomam vermífugo no nascimento (ivermectina ou doramectina), além de começar a comer pasto com 60 dias, o que dificulta a ingestão e instalação do agente. No entanto, uma dica bastante importante é vermifugar os animais com 90 dias de vida, sendo fundamental para melhorar o desempenho dos animais até a desmama. Se os animais são de corte, o uso de vermífugos concentrados é uma boa opção e protege até a desmama, porém, no rebanho leiteiro, o desafio é maior e o uso de sulfóxido de albendazole se torna fundamental para a limpeza completa dos vermes e deverá ser feito mensalmente em conjunto com ectoparasiticidas.

Os distúrbios entéricos que normalmente ocorrem pode ter origem viral, seguidos de instalação bacteriana, em que o primeiro serve como porta de entrada, já que fragiliza o sistema imune dos animais, e, com isso, as bactérias fazem a “festa”.

Viajando neste Brasil nos últimos meses, percebi em muitas visitas que esse problema tem tomado grande proporção, principalmente na Região Centro- Oeste. Foi comum o relato dos amigos pecuaristas: “Rapaz, está dando um surto de diarreia de assustar na bezerrada. O que recomenda que eu faça?” ou “A diarreia foi a principal causa de mortalidade dos bezerros nos primeiros 30 dias de vida aqui na propriedade”.

Rodamos as fazendas, corremos os pastos, vistoriamos os animais e conversamos muito com todos os funcionários envolvidos. Um dos fatores que me chama atenção é a morte rápida em poucos dias do surgimento e, com incidência nos primeiros 30 dias. Quadros agudos e grandes surtos rodeavam os pastos nos lugares dos vaqueiros e, quando acometia o animal, a morte era em apenas 24horas.

Thales Vechiato percorreu diversas propriedades no Brasil e identificou que a diarreia em bezerros é um problema sério.

Uma coisa era certa: altíssimas temperaturas em todas as áreas. Um calor intenso, sol forte e em pleno inverno. Como assim? Isso mesmo meu amigo, esse calor fora de época e a intensidade das temperaturas fazia com que os animais sofressem em duplo sentido. Além disso, na Região Centro-Oeste, muitas áreas de pastagens eram originárias de lavouras, ou seja, carentes de sombras.

(FOTO 4)

A diarreia esverdeada entre o 14º e 42º dia de vida do bezerro pode ser indicativo de salmonelose.

Os animais eram tratados, mas só os antibióticos não estavam resolvendo. Um ponto é que, sempre que temos infecção, existe também um quadro inflamatório associado que causa um desconforto nos bezerros. Nesse caso, quando se usa antibiótico, o uso de anti-inflamatório é obrigatório, pois todo o processo infeccioso sempre tem inflamação, mas nem toda inflamação tem infecção. Resumindo nossa prosa: quando se tem pus, se usa antibiótico e anti-inflamatório juntos.

Para melhor assertividade e diagnóstico preciso da situação das fazendas visitadas, material foi coletado e encaminhado ao laboratório, com todos os cuidados necessários para armazenamento da amostra. Em 100% das coletas, houve isolamento de E. coli, bactéria que acomete os animais do 2º ao 10º dia, mas pode surgir nos demais dias. Trata-se de uma bactéria, mas não uma superbactéria, imbatível e de difícil tratamento. Se o tratamento for bem feito, ela morre, sim.

(FOTO 5)

O uso indiscriminado de antibiótico em algumas propriedades faz com que alguns ativos tenham seu efeito reduzido e, nesse caso, a troca de princípio ativo é recomendada. Outro ponto que pode influenciar na resolução do quadro é a quantidade administrada do produto, pois muitos funcionários utilizam a dose padrão, o famoso “5 mL para tudo”, sem verificar a dose indicada e o peso vivo animal.

O produto foi escolhido, aplicado na dose correta e associado a anti-inflamatório, será que é eficaz? Lembra o que escrevi anteriormente sobre o calor? Então... o que fazer com ele?

Recomendo incluir ao tratamento uma hidratação adequada, pois essa é uma forma barata e com grandes resultados. São diversos os graus de desidratação, sendo de extrema importância identificar qual o grau para que se forneça a quantidade adequada.

Vamos a um exemplo prático: um bezerro de 50 kg e com 10% de desidratação deverá receber em 24h o equivalente a cinco litros. Uma opção seria aplicação de soro fortificante, mas economicamente deve ser avaliada, no entanto, o animal precisa de energia, minerais e vitaminas e, pelo menos, de 10 a 20% do total de líquido a ser fornecido deverá ser via soro fortificante. O restante poderá ser feito fornecendo água via oral através de sondas ou por “beberagem”. Lembrando que se deve ter cuidado com a aplicação forçada, pois a água poderá fazer falsa via e entrar nos pulmões e, com isso, sufocar os animais e até matá-los. Cuidado! O procedimento é fácil, simples, barato e deverá ser feito sem pressa.

Outro ponto importante é construir sombras no piquete, pois de nada adiantará repor a hidratação e deixar o bezerro exposto ao sol, já que em poucas horas a desidratação voltará e todo o serviço desprendido será desperdiçado. Pode-se optar por piquetes-maternidades, aqueles que ainda tenham algumas quantidades de árvores ou, ainda, criar sombras utilizando sombrites, recomendando que se não for cercado para entrada apenas dos bezerros, haverá muitas vacas por lá. O ideal é fazer como um creep e apenas cobrir com sombrite, que terá somente bezerros e não animais adultos.

Bom, agora já se sabe! Para tratar as diarreias, o pecuarista deve ter no alforje dos vaqueiros: antibiótico, anti-inflamatório, soro e sonda ou recipientes para o fornecimento de água. E claro, sombra sempre é bom, não só para as pessoas, mas fundamental para o sucesso produtivo dos animais.

*Thales Vechiato é mestre em Clínica Médica pela FMVZ/USP thales_vet@yahoo.com.br