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Integracão

 

Sistemas de integração viabilizam produção em solos arenosos

Breno Lobato e Silvia Zoche

A redenção de milhares de pequenas e médias propriedades rurais localizadas sobre os 50 milhões de hectares de solos arenosos no Brasil pode se dar com a adoção de sistemas de integração, como indicam pesquisas da Embrapa. Ao menos 30 fazendas do Oeste de São Paulo têm apostado na rotação soja-capim, alcançando produtividades que chegam a mais de 70 sacas/ha em alguns pontos, algo até então considerado inviável para a região, com ganhos expressivos também em desempenho animal no período seco.

Já na “Costa Leste” e no Sul de Mato Grosso do Sul, um novo formato de sistema de integração tem resultado em produtividades médias de carne de até 20 arrobas/ha. Os resultados surpreenderam porque produzir nesse tipo de solo sempre foi um desafio para pecuaristas e agricultores.

Região tradicionalmente pecuarista, o Oeste paulista é marcado por pastagens degradadas sobre solos arenosos, considerados limitadores da atividade agrícola por conterem baixo teor de argila e grande porosidade, o que dificulta a retenção de água e, consequentemente, de nutrientes para as plantas. “Dizem que solo arenoso é um filtro de água. Mas, pelo menos, podemos pensá-lo como um filtro de água melhor”, diz o pesquisador João Kluthcouski, o João K, como é chamado na Embrapa Cerrados/DF.

Dia de campo mostrou a integração entre soja, pecuária e milho em solos arenosos

Sob a orientação da Embrapa e da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), de Presidente Prudente/SP, e com apoio da cooperativa Cocamar (PR), a Fazenda Campina, em Caiuá/ SP, passou a adotar o sistema Integração Lavoura-Pecuária (ILP) em 2013, iniciando a rotação de soja com braquiária em uma área de 450 hectares, ocupada durante 15 anos por pastagens de baixa produtividade. A propriedade, pertencente ao Grupo Carlos Viacava também agregou tecnologias como o sistema de plantio direto e a descompactação do solo.

Depois de apenas dois anos de plantio da soja, os dados impressionam. Na safra de verão 2014/2015, apesar dos 29 dias de estiagem que alcançaram o período reprodutivo da leguminosa, a produtividade média foi de 39,6 sacas/ ha, variando de 14,6 sacas/ha em uma área com plantio convencional até 73,6 sacas/ha em um talhão com plantio direto, algo impensável para a região.

No período de safrinha, foi plantado milho consorciado com capim braquiária. Dessa vez, foram 54 dias sem chuva. A colheita novamente surpreendeu: média de 80,8 sacas/ha de milho com 13% de umidade do grão e média de 41,9 t/ha de milho silagem. “São dados inacreditáveis para uma área com altitude média em torno de 400 metros, considerada imprópria para a cultura do milho”, comemora o pesquisador.

A terceira safra, a de boi, foi garantida pelo pasto, que permaneceu verde mesmo no período mais seco do ano. A pastagem, que em 2013 suportava 0,5 unidade animal (UA – equivalente a um animal com 450 kg de peso vivo) por hectare, viu a taxa de lotação aumentar para 1,9 UA/ha em 2015. O índice é bem superior à taxa de lotação média nacional, que, de acordo com estimativas, não ultrapassa 0,7 UA/ha.

O ganho médio de peso foi de 0,6 kg/dia/animal, e houve registros de animais com ganhos de até 0,9 kg por dia, sem qualquer suplementação adicional. A forragem de melhor qualidade também permitiu aumento do peso médio dos bezerros à desmama aos 210 dias: os machos ficaram 22 kg mais pesados e as fêmeas, 14,5 kg.

Na safra passada, quase 40% da área produtiva da fazenda foi dedicada à soja e o rebanho está maior que há três anos, quando o sistema ILP foi implantado. Diante dos resultados, a ideia é de que, com a implantação do sistema, metade da fazenda fique com lavoura de soja e a outra metade com pastagem durante dois anos, com rotação de 50% da área a cada ano.

“Quando completarmos o giro, o que vai levar de um a dois anos, teremos o máximo. Se conseguirmos aumentar a produção em 20%, já será um fenômeno. Tenho certeza de que teremos também um aumento substancial da produção de touros”, aposta o proprietário Carlos Viacava, que deve implantar o sistema em mil hectares na safra 2015/2016. “A propriedade, que antes só tinha receita advinda da pecuária, agora tem três fontes de renda”, completa o filho Ricardo Viacava.

João K aponta que o segredo está no uso do capim braquiária e no sistema de plantio direto, além do uso de mata-broto, um implemento agrícola usado na descompactação do solo. Outro fator de sucesso foi o deslocamento do período de enchimento de grãos ao efetuar a semeadura em novembro, em vez de outubro. “Plantando mais tarde, escapamos do veranico”, explica o professor Edemar Moro, coordenador do curso de especialização em ILPF da Unoeste.

Moro estima que entre cinco mil e dez mil hectares estejam atualmente cultivados com soja a partir do sistema ILP no Oeste paulista. Ele lembra que havia casos isolados de uso do sistema na região até 2011, quando a universidade passou a promover dias de campo na fazenda experimental em Presidente Bernardes/SP e em propriedades rurais como a Fazenda Campina, em parceria com a Embrapa, a Cocamar, empresas integrantes da Rede de Fomento à ILPF e outras. “Estamos conseguindo mudar a mentalidade dos pecuaristas da região”, afirma.

Na CV Nelore Mocho, de Carlos Viacava, o boi tornou-se a terceira safra da propriedade

“Mostramos aquilo que era considerado impossível: fazer, em 12 meses, três safras sem irrigação, em solos arenosos, com apenas 9% de argila, até então considerados inaptos à agricultura e à pecuária. Os solos arenosos estão distribuídos em várias regiões do Brasil e são a próxima fronteira agrícola. E os sistemas de integração são a única solução conhecida até o momento para esse tipo de solo”, completa João K.

Novo formato

Em Mato Grosso do Sul, a equipe liderada pelos pesquisadores Júlio Cesar Salton, da Embrapa Agropecuária Oeste/MS, e Ademir Zimmer, da Embrapa Gado de Corte/MS, validou o Sistema São Mateus (SSMateus), novo formato de sistema de integração apropriado para a região da Costa Leste de Mato Grosso do Sul, de solos predominantemente arenosos. O diferencial é que, após a correção da fertilidade, a sequência da rotação começa pela pastagem (pasto-soja).

O novo formato possibilitou o aumento da produtividade média de carne de seis arrobas/ha para 20 arrobas/ ha. E, na mesma região, considerada inadequada para a produção de grãos, é possível obter uma média de 50 sacas de soja por hectare. “Com o início da rotação pela pastagem, há tempo adequado para que os corretivos reajam no solo, o sistema radicular da pastagem construa uma estrutura de solo favorável à manutenção de umidade e forneça a palha necessária para o plantio direto da soja”, explica Salton.

Um modelo parecido está sendo levado ao Sul de Mato Grosso do Sul, na região de Naviraí, tradicional em pecuária de corte. Por meio de um projeto nacional de pesquisa e transferência de tecnologias (Rede de Fomento em ILPF e Macroprograma da Embrapa), foi montada uma Unidade de Referência Tecnológica (URT), em parceria com Cooperativa Agrícola Sul-Mato- -Grossense (Copasul).

Os últimos números da produção da pecuária indicam que o sistema de integração pode ser a saída para a região: em Naviraí, há cerca de 180 mil cabeças de gado. Antônio José Meireles Flores, gerente do departamento agronômico da Copasul, lembra que o número já foi maior (240 mil cabeças), e que existem cerca de 100 mil hectares ocupados por milho, soja, mandioca e cana-de-açúcar, a maior parte arrendada por pecuaristas a agricultores.

Segundo Salton, a região está ampliando a área cultivada com soja e milho em solos de textura média a arenosa, que, sem tecnologia adequada, não são propícios à agricultura. “A chance de perda nas lavouras é muito grande. Para aumentar a possibilidade de sucesso, é preciso colocar em prática o sistema integrado com pasto”, afirma.

O diretor vice-presidente da Copasul, Yoshihiro Hakamada, ressalta que a URT trará benefícios para a região, que precisa recuperar cerca de 80% das áreas com pastagens. “Com as pesquisas focadas na realidade local, vamos aumentar a área de grãos, diversificar a propriedade, melhorar a fertilidade do solo e a produção de carne, além, é claro, de valorizar a propriedade”, diz.

O pesquisador Júlio Salton certificou o sistema batizado de SSMateus para solos arenosos, no qual o ciclo começa com a pastagem

Nos 31 hectares reservados para a URT na Copasul, os trabalhos de recuperação dos pastos começaram em 2014, com uso de corretivos e incorporação ao solo e com o cultivo, em diferentes áreas, de soja, milho, milho consorciado com Brachiaria ruziziensis, mandioca, eucalipto e com a pastagem BRS Piatã, que serão avaliados ao longo das safras.

O ganho de peso do gado é monitorado a cada 60 dias em duas áreas: uma com pasto degradado e outra com pasto recuperado (BRS Piatã) em outubro/novembro de 2014. Na primeira avaliação, os resultados não apresentaram diferenças significativas, pois o ganho médio de peso foi de 0,199 kg/dia/cabeça na área de pastagem degradada e de 0,208 kg/dia/cabeça na área de pasto recuperado. Já na segunda avaliação, a recuperação da pastagem já mostra o seu valor: enquanto o gado na área degradada perdeu em média 0,030 kg/dia/cabeça, os animais da área recuperada obtiveram ganho médio de 0,536 kg/dia/cabeça.

Hakamada lembra que a região de Naviraí tem uma pecuária tecnificada, com carne de qualidade, participando, inclusive do Programa de Apoio à Criação de Gado para o Abate Precoce (Novilho Precoce), vinculado à Secretaria de Estado da Produção. “O gado daqui é o Nelore, e o frigorífico da região abastece também outros estados brasileiros e exporta para outros países. Com a ILP, com certeza a qualidade e o mercado ficarão ainda melhores”, acredita.

E, para quem ainda tem dúvidas quanto à viabilidade do investimento, Ademir Zimmer lembra que a ILP e a ILPF abrem novas fronteiras para culturas anuais em solos considerados marginais. “A ILPF é um investimento e não um gasto, como alguns ainda pensam. A primeira safra de soja, por exemplo, já se paga e ainda cobre os custos da recuperação das pastagens”, enfatiza.