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Caprinovinocultura

Muito espaço para crescer

Atividade apresenta importantes sinais de desenvolvimento, mas ainda precisa lidar com desafios em todas as etapas da cadeia para acompanhar a demanda do mercado

Denise Saueressig denise@revistaag.com.br

Presente em propriedades de Norte a Sul do Brasil, a caprinovinocultura tem na sua base produtiva a diversidade de perfis. A multiplicidade dos rebanhos é característica de uma atividade que vai desde a subsistência de famílias de pequenos criadores, até a produção de animais voltados ao melhoramento genético. A pluralidade também é atributo da cadeia, que leva ao mercado produtos como carne, leite, itens de vestuário e artesanato.

São justamente as muitas possibilidades que respondem pelo crescimento dos últimos anos e pela expansão projetada para o futuro. Segundo números da Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, o efetivo de ovinos apresentou incremento de 1,9% entre os anos de 2013 e 2014, com o rebanho alcançando 17,6 milhões de cabeças. Já o plantel de caprinos teve aumento de 0,8% no mesmo período, chegando a 8,85 milhões de animais.

Comercialização de animais em exposições e preços altos do cordeiro mostram que a demanda pela carne ovina mantém-se aquecida

Além dos números que traduzem a evolução dos rebanhos, o pesquisador Espedito Cezário Martins, da Embrapa Caprinos e Ovinos, considera que o avanço é percebido na pesquisa, com a crescente disponibilidade de tecnologias, e também no mercado, já que o Brasil ainda precisa importar carne ovina para suprir a demanda de consumo.

Em 2014, as importações brasileiras de carne bovina alcançaram 9,93 mil toneladas, o que significa um incremento de 12% sobre 2013 e um valor de US$ 56,8 milhões. Mais de 90% das compras foram feitas do vizinho Uruguai. “É importante que sejam desenvolvidas ações que impactem todos os elos da cadeia, no sentido de que os produtores conscientizem-se de que o mercado é promissor e, assim, aumentem a oferta no mercado”, destaca.

Entre os grandes desafios da atividade, o pesquisador cita a necessidade de articulação das políticas públicas, a qualificação da assessoria técnica, a inserção de produtores em novos mercados de abate inspecionado, o combate à elevada informalidade e o trabalho pela constância na oferta.

Para Martins, os estados mais promissores para a atividade estão no Nordeste e no Sul, uma vez que a cultura de consumo da carne é bem difundida nessas regiões e, consequentemente, tem boas condições para a expansão. “No entanto, vislumbramos também a possibilidade de crescimento significativo nas Regiões Centro-Oeste e Sudeste”, acrescenta.

Iniciativas promovem desenvolvimento

O ano que está terminando foi bastante produtivo para a atividade, ressalta o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Schwab. Segundo o dirigente, houve evolução nas tratativas para modernizar e ampliar as iniciativas de estímulo ao setor, com trabalhos que envolvem parcerias entre instituições como a Embrapa, o Ministério da Agricultura, o Senar, o Sebrae e universidades.

Uma das ações esperadas para os primeiros meses de 2016 é o lançamento do Programa Nacional de Desenvolvimento da Ovinocaprinocultura (Pronadoc). “O mercado de produtos como a carne, a lã e o leite precisa evoluir com projetos de articulação como os que ocorreram em outras cadeias do agronegócio”, frisa.

Para o dirigente, uma das áreas que mais precisa de envolvimento é a extensão rural. “É necessário levar conhecimento de qualidade aos produtores que se interessam pela atividade ou que pretendem expandir seus rebanhos para conseguirmos fazer a retenção de ventres, diminuir a mortalidade e melhorar os índices zootécnicos. Assim, podemos criar a base para ampliar o rebanho nacional e atender a demanda”, argumenta.

Paulo Schwab, presidente da Arco: produtores precisam de extensão rural qualificada para melhorar índices dos rebanhos

Outra preocupação relevante diz respeito aos abates informais, que ainda são maioria entre o setor. Números do Ministério da Agricultura e divulgados pela consultoria Prime ASC mostram que o volume de abates sob inspeção federal teve queda de 334,7 mil cabeças em 2009, para 95,8 mil em 2014. “É importante conseguir organizar e reunir os pequenos produtores para viabilizar também a entrega de pequenas cargas em conjunto”, assinala Schwab.

O envolvimento político no setor é uma notícia saudada pelo presidente da Arco. Ele lembra que foi lançada este ano a Frente Ovino – Frente Parlamentar Mista de Apoio à Ovinocaprinocultura, com a participação de 241 parlamentares. Entre os objetivos da iniciativa estão a criação de uma política nacional de incentivo e de um programa de capacitação para trabalhadores, técnicos e produtores.

Paralelo ao trabalho de mobilização da cadeia, o mercado mostra que continua aquecido nas exposições e leilões realizados no País. É frequente durante esses eventos a comercialização de toda a oferta, o que indica que há muitos criadores interessados em investir na melhoria genética de seus plantéis. “Esse movimento é muito positivo se pensarmos que o reflexo será na qualidade da carne que será produzida mais tarde”, conclui o presidente da Arco.

Efetivo caprino é estimado em 8,85 milhões de cabeças, sendo que mais de 90% dos rebanhos estão na Região Nordeste

Os preços observados em algumas regiões ajudam a traduzir a forte demanda. No Rio Grande do Sul, o preço do quilo vivo do cordeiro em novembro era de cerca de R$ 5, valor acima da média histórica e do mesmo período de 2014. Em São Paulo, principal centro consumidor do Brasil, os preços eram ainda mais altos no mês passado, acima de R$ 6 pelo quilo vivo.

Estímulo para o consumo

Como mais de 90% do rebanho caprino está no Nordeste, é natural que a região concentre o principal crescimento do mercado. Para o leite de cabra, embora a expansão ainda não ocorra no ritmo esperado, o estímulo vem de ações do Governo, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). “Já na Região Sudeste, as políticas de marketing e o incremento da produção têm contribuído para aumentar o consumo de leite de cabra e seus derivados”, observa o pesquisador Espedito Cezário Martins, da Embrapa.

A oferta e a demanda da carne seguem a mesma lógica. Existe um movimento interessante nos estados do Nordeste, mas nas demais regiões do País o mercado ainda é muito incipiente. Assim, estimular o consumo em todo o Brasil é um dos grandes desafios do setor que, assim como acontece com a carne ovina, também enfrenta como fator crítico o elevado nível de informalidade na cadeia.

No entanto, ressalva Martins, o potencial de crescimento de consumo da carne caprina é muito grande. “Pode ser considerada uma das ‘carnes do futuro’”, resume. O pesquisador justifica a afirmação lembrando que a globalização possibilita a conquista de novos nichos de consumo. “Na União Europeia, por exemplo, a taxa de crescimento anual do consumo per capita de carne caprina é substancialmente maior que das demais carnes”, detalha o especialista.

Efetivo caprino é estimado em 8,85 milhões de cabeças, sendo que mais de 90% dos rebanhos estão na Região Nordeste