Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuário de Leite

 

Demora a engrenar

O consumo deverá continuar patinando em 2016 e a produção vai se ajustar

Juliana Pila e Rafael Ribeiro de Lima Filho*

Desde o segundo semestre de 2014 o mercado do leite tem sentido os efeitos do aumento da produção, frente a uma demanda que está patinando. Os preços aos produtores em patamares mais baixos e o aumento dos custos de produção têm inibido os investimentos na atividade.

Segundo levantamento da Scot Consultoria, o preço do leite em 2015, considerando a média nacional, ficou em R$ 0,936 por litro, uma queda de 3,5% em relação à média de 2014, que registrou R$ 0,970 por litro, em valores nominais.

O cenário em 2015 foi de ligeiro ajuste entre a oferta e a demanda no mercado interno, mas nada suficiente para emplacar uma alta das cotações do leite e derivados. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em setembro os dados da Pesquisa Trimestral do Leite.

No acumulado do segundo trimestre deste ano (abril a junho), últimos dados disponíveis, o volume de leite adquirido pelos laticínios com inspeção municipal, estadual ou federal foi de 5,64 bilhões de litros, 2,6% menos que no mesmo período do ano passado. No acumulado do primeiro semestre foram captados 11,74 bilhões de litros de leite no País, 1,8% menos frente aos 11,98 bilhões de litros em igual período de 2014.

Figura 1 - Preço do leite ao produtor, média nacional, em R$ por litro, valores nominais

A queda na captação é reflexo do mercado mais pressionado em termos de preços ao produtor em 2015. Com os custos de produção em alta, os investimentos foram menores e a produção diminuiu. O clima adverso também fez a produção cair em algumas regiões na segunda metade do ano, o que limitou a queda no preço do leite no início da safra.

Na Região Sul houve chuvas em excesso, já no Brasil Central e na Região Sudeste a falta ou os atrasos delas prejudicaram a produção de leite e atrasaram a safra. Para 2016, a expectativa é de uma oferta de leite mais regulada no mercado interno, o que poderia gerar uma reação positiva do mercado no primeiro semestre.

Figura 2 - Custo de produção para a pecuária leiteira de alta tecnologia

Porém, do lado do consumo, o cenário econômico do País deve atuar como fator limitante. A previsão é de um mercado patinando em 2016, a exemplo de 2015. O cenário deve melhorar a partir de 2017 na pecuária de leite, quando se espera uma retomada do crescimento da economia brasileira.

MARGEM APERTADA EM 2015

Um fator que vem preocupando a atividade é o custo de produção, que aumentou expressivamente no segundo semestre de 2015. O Índice Scot Consultoria de Custo de Produção para a Atividade Leiteira, que mede a variação do custo, subiu 2% em novembro na comparação com outubro.

Na comparação com novembro de 2014, os custos aumentaram 14,2% para a pecuária leiteira de alta tecnologia. Veja a figura 2, em que o índice considera a variação de preços dos principais itens que compõem o custo da atividade, tais como: alimentação, suplementos minerais, mão de obra, medicamentos veterinários, insumos agrícolas (fertilizantes e defensivos) e combustível, entre outros.

A alimentação, que representa mais de 30% dos custos operacionais da pecuária leiteira e os fertilizantes e suplementos minerais, que têm correlação com o dólar, merecem destaque em 2015. Sem falar na alta da energia, combustíveis e mão de obra no começo do ano. É importante destacar que, depois de quatro meses de alta, os preços de milho, farelos e fertilizantes recuaram em novembro.

No caso do milho, o ritmo das exportações diminuiu depois do recorde em outubro. Houve menor movimentação também no mercado interno. Os preços cederam ligeiramente. Para o farelo de soja, a pressão também veio dos recuos do dólar e do próprio preço em queda da soja em grão.

Apesar das quedas em novembro, tanto o milho como o farelo de soja estão custando mais na comparação com o mesmo período de 2014 e devem começar 2016 em um patamar mais alto de preço, em relação a 2015. Em São Paulo, na média de 2015, o preço do milho subiu 4,2% em relação a 2014, mas se compararmos novembro de 2015 com novembro do ano anterior, a alta foi de 35,5%. Nesse mesmo período, o farelo de soja estava custando 12,3% mais.

CUSTOS E EXPECTATIVAS

O planejamento das compras de insumos é essencial e deve ser feito de forma criteriosa. Em um ano de incertezas, como foi 2015 e como deverá ser 2016, a sugestão é para o produtor colocar a casa em ordem, com investimentos comedidos. As margens da pecuária leiteira estão estreitas, por isso, o planejamento da atividade para redução dos custos é essencial para resultados econômicos positivos.

Para 2016, o cenário do lado dos custos é de preços dos insumos oscilando bastante, a exemplo de 2015, com grande influência do câmbio sobre as cotações dos grãos, farelos e adubos. Na média, os patamares de preços no começo do ano deverão ser acima do verificado no mesmo período de 2015. Pensando no aumento da disponibilidade interna, a colheita da safra de verão 2015/2016 pode apresentar oportunidades de compras a preços menores para o milho, em especial.

BALANÇA COMERCIAL

Em 2015, de janeiro a outubro (últimos dados disponíveis até o fechamento desta edição), a balança comercial brasileira de lácteos acumulou déficit de US$ 96,99 milhões. Foram US$ 251,67 milhões em exportação contra US$ 348,66 milhões das importações. No caso do leite em pó, principal produto da balança, a receita com as exportações totalizaram US$ 228,48 milhões nesse período.

Ao mesmo tempo, os gastos com importações somaram US$ 224,43 milhões. O saldo da balança ficou US$ 4,04 milhões positivos. As quedas nos preços dos lácteos no mercado internacional aumentaram a competitividade do produto importado, mesmo com o dólar valorizado. O volume médio mensal de leite em pó importado pelo Brasil aumentou 122,3% em 2015, frente a 2014.

Nos primeiros dez meses do ano, o principal destino do leite em pó brasileiro foi a Venezuela, com participação de 77% no volume total. Com relação às importações, os principais fornecedores de leite em pó para o Brasil foram o Uruguai e a Argentina, com 45,8% e 41,7% do total, nessa ordem.

Para 2016, a expectativa é de que o Brasil mantenha o ritmo das exportações de 2015, considerando o dólar valorizado e a boa disponibilidade interna. Existe a possibilidade de crescimento dos embarques para Rússia e China. O fornecimento para a Rússia começou em 2014, resultado das barreiras impostas pelos russos aos Estados Unidos e países europeus.

Segundo Rafael Ribeiro, outro algoz do produtor foi a elevação de 14,5% nos custos de produção

Isso favoreceu a abertura desse mercado para o Brasil, que exporta, principalmente, queijos, manteiga e leite em pó para esse destino. Com relação à China, foi aprovado na segunda semana de setembro o comércio de produtos lácteos com o Brasil. As negociações vinham ocorrendo desde 1996. Embora a demanda chinesa esteja patinando esse ano, em função da desaceleração da economia interna, o país asiático é um mercado de peso nesse segmento.

Em 2014, o país importou 671 mil toneladas de leite em pó integral, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda). Vale lembrar que a China e a Rússia são os maiores importadores mundiais de produtos lácteos, com participação respectivamente de 14% e 7% do total mundial em 2014.

MERCADO INTERNACIONAL

O cenário foi de baixa também no mercado internacional de lácteos. A oferta por parte dos países exportadores, como a Nova Zelândia, os Estados Unidos e até mesmo a União Europeia, aumentou. Somado a isso, a demanda mundial perdeu força. Os elevados estoques da China, maior importador, reduziram significativamente suas importações de lácteos.

Em 2014 foram importadas 671 mil toneladas de leite em pó integral e 253 mil toneladas de leite em pó desnatado. As estimativas do Usda apontam quedas de 40,4% e 20,9%, respectivamente, nas compras desses produtos em 2015. Consequentemente, os preços dos lácteos, principalmente do leite em pó, caíram.

No leilão realizado pela Global Dairy Trade (GDT) no início de agosto de 2015, o preço médio do leite em pó integral atingiu US$ 1.590,00 e o leite em pó desnatado, US$ 1.419,00 por tonelada, os menores preços desde julho de 2008.

Como medida para conter a queda dos preços, as empresas que vendem através da plataforma diminuíram a produção e reduziram a oferta de produtos lácteos nos leilões. A ação surtiu efeito, mas pontualmente. Os preços do leite em pó subiram entre agosto e outubro, mas voltaram a cair no final de novembro, corroborando com o cenário de demanda mais fraca em 2015 e aumento da oferta.

O preço médio do produto em 2015 foi de US$ 2.430,00 por tonelada, uma queda de 30,5% em relação à média de 2014, de US$ 3.496,00 por tonelada. Lembrando que em 2014 o preço médio caíra 25,3% em relação à média de 2013, de US$ 4.677,00 por tonelada, recorde.

*Rafael Ribeiro e Juliana Pila são zootecnistas da Scot Consultoria