Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Exportações

 

MENOS EMBARQUES EM 2015

Entretanto, o novo ano promete prosperidade com base nos acordos que estão sendo amadurecidos

Fernando Sampaio

As exportações de carne bovina faturaram, de janeiro a outubro de 2015, US$ 4.878.860.000,00 e dificilmente vão superar os US$ 7 bilhões registrados em todo o ano de 2014. Em volume, foram embarcadas, até o mês dez, 1.141.400 toneladas de equivalente- -carcaça. O resultado é inferior ao mesmo período de 2014, com queda de 18% em valor e 11% em volume. Isso se deve a um primeiro semestre mais morno, um pouco diferente da voracidade vivenciada no mesmo período do ano passado.

No início de 2015, as exportações de carne bovina recuaram na comparação com o calendário anterior, em função de problemas econômicos e políticos em alguns dos principais clientes da carne brasileira como Rússia, Venezuela e Hong Kong. Porém, nos últimos meses, recuperaram fôlego e os resultados têm melhorado. Os embarques realizados em setembro e outubro, por exemplo, observados no gráfico da página ao lado, foram dois recordes consecutivos em 2015.

A abertura do mercado chinês teve importante papel nessa retomada, porém, a julgar pela tendência da curva no segundo semestre, dificilmente o Brasil alcançará o recorde histórico obtido no ano passado. Pode ser que o Brasil encerre o calendário com pouco mais de US$ 6 bilhões comercializados, caso os números de novembro e dezembro repitam o faturamento de setembro e outubro. Mesmo assim, foi um ano aquém do esperado.

Perspectivas 2016

Apesar da desaceleração da economia chinesa, a previsão é que um dos mercados mais promissores para a carne bovina brasileira aumente as compras. Desde meados de junho, quando iniciaram os embarques, 61 mil toneladas de carne brasileira desembarcaram no país asiático, o correspondente a US$ 306 milhões. Recentemente, com a habilitação de mais três plantas brasileiras, é previsto um incremento de US$ 9 milhões mensais a essa fatura.

Ainda na Ásia, o Japão também pode voltar a comprar carne brasileira. Uma missão nipônica esteve no Brasil recentemente para inspecionar frigoríficos e a presidente Dilma tem visita confirmada àquele país, acompanhada da Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Kátia Abreu. Chegando- se a um acordo, o Brasil poderá exportar 4.000 toneladas anuais de carne industrializada, a um valor agregado bastante interessante. O próximo passo será negociar a entrada de carne in natura, produto do qual o Japão é um dos maiores importadores mundiais.

Passando pelo Oriente Médio, em novembro, a Arábia Saudita anunciou a reabertura para nossa carne bovina in natura, decisão que traz grande grau de otimismo às exportações de carne bovina no curto prazo. As barreiras sanitárias haviam sido levantadas após a ocorrência de um caso atípico de Encefalopatia Espongiforme Bovina (BSE), no Paraná, em 2012.

Além da possibilidade de embarques na ordem de 40.000 toneladas e US$ 160 milhões ao ano, outros países como Qatar, Bahrein e Kuwait podem também retomar as importações da carne brasileira, uma vez que seguem os árabes como referência. Já do outro lado do mundo, subindo mais em direção à América do Norte, a efetivação das vendas de carne também in natura para os Estados Unidos, cuja abertura ocorreu com a publicação da Final Rule durante uma visita da presidente Dilma a Barack Obama, continua com data indefinida.

Tem havido discussão entre os respectivos órgãos norte-americano e brasileiro para o estabelecimento de uma equivalência de processos de inspeção, para que as exportações de fato tenham início. Na primeira semana de novembro, uma missão de auditores dos EUA chegou ao Brasil e esperamos os primeiros embarques ainda no primeiro semestre de 2016.

Segundo Fernando Sampaio, o Brasil deve investir no fortalecimento do Mercosul

Potencial

O Brasil hoje tem uma participação de 21% no mercado mundial de carne bovina. Exportamos cerca de 20% de nossa produção, portanto, temos ainda um imenso gap de produtividade a ser preenchido. Ainda não temos acesso a vários dos maiores importadores mundiais desse produto, entre eles os países do Nafta (EUA, Canadá e México) e os asiáticos como Japão, Coreia, Taiwan e Indonésia.

E negociamos maior acesso a outros, notadamente a China, a Malásia e nações da União Europeia. O cenário aponta um aumento do consumo de proteínas em geral, devido ao aumento de renda e ao crescimento populacional, principalmente nos países emergentes, com destaque para a Ásia e América Latina, segundo o Agricultural Outlook da FAO. Partindo dessas premissas, podemos elaborar um raciocínio em dois pilares: a exportação e a produção.

Em relação à exportação, o Brasil pode com certeza ampliar sua participação no mercado mundial. Para que isso aconteça, é preciso eliminar as barreiras que hoje impedem o acesso pleno de nosso produto aos principais importadores. E o primeiro passo é a evolução contínua das garantias sanitárias do País. Em 2015, vimos os últimos embargos causados pela BSE, atípica de 2012 (“mal da vaca louca”), serem levantados em mercados como a China, África do Sul e Arábia Saudita.

Também neste ano vimos um avanço real nas negociações em mercados como Estados Unidos e Japão. Hoje, apenas os estados de Amazonas, Amapá e Roraima continuam fora da área livre de febre aftosa pela OIE. Provavelmente, no curto prazo, teremos o País todo livre da enfermidade, após uma luta de 60 anos. A implantação da GTA eletrônica traz maior segurança à defesa agropecuária ao controlar efetivamente o trânsito de animais. Uma atenção especial deve ser dada ainda ao controle de resíduos.

Mercosul

Além dos avanços sanitários, uma revitalização do Mercosul é necessária para a implementação de acordos comerciais que nos tragam vantagens tarifárias em regiões estratégicas. Em um mundo cada vez mais integrado por meio de acordos, o Brasil e o Mercosul têm ficado à margem do comércio mundial. E, finalmente, é preciso continuar o esforço de valorizar a imagem da carne brasileira junto aos principais compradores, reforçando as garantias de qualidade, sustentabilidade e sanidade do nosso produto.

Do lado da produção, é preciso avançar na intensificação sustentável da pecuária, com a disseminação de boas práticas e maior uso de tecnologia. Para que essa intensificação aconteça, precisamos eliminar os gargalos criados pela insegurança jurídica, falta de infraestrutura, dificuldades de acesso a crédito e uma completa ausência de extensão rural voltada para o setor.

Ciclo mais curto

A intensificação da pecuária é chave não só para atender a demanda doméstica e de exportação no futuro, mas também para liberar áreas para a expansão da agricultura e a recuperação de áreas previstas no Código Florestal. A efetiva implantação desse código, aliada à intensificação da pecuária, fará do Brasil um modelo real de desenvolvimento sustentável no campo, mitigando os efeitos de mudanças climáticas e contribuindo para a preservação da água e da biodiversidade no País.

O Brasil precisa acessar mais mercados para agregar valor a seu produto, e para maior estabilidade em suas exportações. Nosso setor tem a imensa responsabilidade, mas também oportunidade de contribuir com a segurança alimentar do planeta de forma sustentável. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) tem se empenhado incansavelmente em eliminar os gargalos existentes para que essa oportunidade se concretize, e queremos toda a cadeia de valor participando também dessas ações.

*Fernando Sampaio é diretorexecutivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec)