Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

 

Entraves permanecem

Juliane da Silva Gomes*

O confinamento é uma tecnologia importante para o contínuo crescimento da pecuária brasileira, que passa por um consistente processo de profissionalização. A atividade convive com investimentos constantes em melhoramento genético, nutrição e sanidade a fim de obter maior produtividade e eficiência por área.

Segundo o Rabobank, a estimativa de crescimento de volume de animais oriundos de confinamento deverá mais que dobrar até 2023, superando 9 milhões de cabeças. Contribuindo com aproximadamente 20% da oferta de carne bovina, atingindo 2,5 milhões de toneladas de carne.

Isso se deve ao crescimento do consumo da carne bovina nos países em desenvolvimento, ao consumo interno e pela continuidade do processo de intensificação da pecuária de corte no Brasil.

Essa modalidade permite que os bovinos ganhem peso mais rapidamente, se desenvolvam mais em menos tempo e estejam prontos para a terminação mais precoce. É o toque final que dá o correto e necessário acabamento à carcaça no tocante ao teor de gordura e peso.

Dessa forma, os frigoríficos dispõem de carcaças pesadas, com carne de qualidade, com valor agregado, sendo desejada pelos consumidores mais exigentes de nosso País e dos demais para os quais exportamos.

É preciso atentar aos desafios que a cadeia produtiva da carne bovina sofre, o rebanho está migrando e concentrando-se mais nas Regiões Centro-Oeste e Norte do País, onde as terras são mais baratas, sendo um incentivo para o pontapé inicial na atividade. Existem ainda as questões ambientais e de agricultura, que exigem do pecuarista que ele produza cada mais em áreas menores.

O confinamento é a resposta para essa equação, pois potencializa a produção em áreas restritas e em menos tempo. Um exemplo de peso: contando com menos de 90 milhões de bovinos, os Estados Unidos produzem quase 12 milhões de toneladas de carne bovina por ano. O Brasil tem mais de 200 milhões de cabeças e fechou 2014 com cerca de 10 milhões de toneladas de carne. Nos EUA, o confinamento responde por mais de 90% da produção.

O governo brasileiro deu sinais de entender a importância do confinamento. O mais recente Plano Agrícola e Pecuário instituiu linha de crédito de custeio para compra de animais. O limite de crédito passou a R$ 1,1 milhão por produtor.

Aliado a isso, tivemos em 2015 um cenário de redução dos preços dos grãos, sendo um atrativo e facilitador da atividade, pois contribui para a redução dos custos de produção. Em contrapartida, a aquisição de boi magro foi um dos grandes entraves neste ano. Encontrá-lo a preços competitivos foi um desafio em 2015, muitas vezes perdido pelo pecuarista.

O ano de 2015 não começou com pé direito para os frigoríficos brasileiros, esse setor da cadeia produtiva de carne iniciou o ano assustado, pois o cenário apresentava preços do boi gordo em nível recorde, de R$ 148,7 por arroba e a demanda por carne caindo no mercado doméstico e em importantes países importadores do nosso produto. Levando abaixo a margem da atividade, tornando-a a de menor nível desde 2008. Além disso, as empresas, principalmente os frigoríficos pequenos e médios, em meio a essa tempestade de notícias desagradáveis, conviveram ainda com dificuldades para obtenção de crédito.

A combinação desses fatores negativos para o segmento levou-o a uma redução forçada da capacidade de abate. Segundo a Agroconsult, a margem bruta da atividade está hoje em 1,99% – esse índice é a diferença entre o preço de venda da carne desossada no atacado e o preço do boi gordo em São Paulo. É o pior nível desde julho de 2008, quando as margens ficaram negativas em 5,53%.

A demanda fraca fez com que, de janeiro a março, o preço da carcaça bovina vendida no atacado caísse 1,2% e o dos cortes desossados, 2%. Essa queda no atacado não foi repassada ao consumidor, que amargou um aumento de 0,76%. O preço da carne já está muito alto no varejo e o consumidor vem optando pela carne de frango.

Tida como tábua de salvação dos frigoríficos, as exportações – mesmo que beneficiadas pela desvalorização do real – iniciaram o ano sofrendo os efeitos colaterais da queda dos preços do petróleo, que atingiu alguns dos principais importadores do Brasil: Rússia, Venezuela e países do Oriente Médio. As vendas para a Rússia, por exemplo, caíram 65,6% em valores e 58,9% em volume nos primeiros dois meses de 2015. No caso da Venezuela, a queda foi de 48% em receita e 50,1% em volume.

Tivemos um primeiro semestre de expectativa e otimismo, porém, as incertezas causadas pelo risco de queda de demanda para o segundo semestre se concretizaram.

Vale ainda ressaltar que há uma expectativa de que o boi gordo continue valorizado em 2016, assim como foi neste ano em relação a 2014. Segundo os valores do Cepea, analisando de janeiro a outubro de 2014 e no mesmo período em 2015, na média, o valor pago pelo boi gordo sofreu valorização de 17,8%, saindo de R$ 123,00 e chegando a R$ 144,90 no mesmo período. No curto prazo, os preços manterão a tendência de alta, o que torna a produção intensiva mais atrativa.

O cenário está propício à obtenção de retorno econômico dos pecuaristas e o confinamento potencializa esse lucro.

Abates

O País abateu em 2015, no primeiro semestre, aproximadamente 15,4 milhões de cabeças de bovinos. Número 9,15% inferior ao mesmo período de 2014.

O primeiro trimestre de 2014 foi considerado um recorde para o período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Houve aumento de 2,9% em relação ao primeiro trimestre de 2013.

A queda no número de animais abatidos em 2015 aconteceu devido à menor disponibilidade de animais no mercado.

Ainda temos no Brasil um maior abate de machos, seguido pelo abate de fêmeas, novilhos e novilhas respectivamente.

Nota-se que em 2015 houve uma redução de fêmeas abatidas quando comparado aos dois anos anteriores. A retenção de vacas no rebanho fará com que nos próximos anos tenhamos uma maior disponibilidade de animais no mercado.

Nota-se que no primeiro semestre de 2015, nos dez estados de maior produção de carne no Brasil, houve uma redução no número de animais abatidos entre os quatro maiores produtores e, para esses, 2014 mostrou-se um ano mais produtivo.

O ano de 2015 foi um ano complicado para aquisição de boi magro e bezerro, com menos animais para reposição no mercado e a preços pouco competitivos.

A Assocon, ao longo do ano, realiza pesquisas entre os associados com o intuito de obter um panorama quanto à produção de animais dos associados. A pesquisa realizada em janeiro trouxe 7,65% de expectativa de crescimento em relação ao ano anterior, enquanto trabalhos de mesmo objetivo realizados pelo Imea e Minerva apresentaram expectativa de crescimento para o ano de 24% e 8,4% respectivamente.

Em sua segunda pesquisa, a expectativa de produção de animais confinados baixou. A dificuldade em encontrar animais para reposição foi o principal entrave. Muitos deles, na metade do ano, ainda não haviam adquirido todos os animais que comporia a expectativa de produção anunciada em janeiro. A produção em julho marcava uma expectativa de crescimento em torno de 5,17%, número menor ao anunciado no início do ano.

A pesquisa realizada em novembro mostrou que a produção de animais confinados em 2015 sofreu uma retração de 5%. Resultado de uma combinação de altos custos de produção e aquisição de animais para reposição desfavoráveis.

Cenário 2016

A abertura de novos mercados fez crescer a demanda internacional por carne bovina do Brasil, aliado a uma menor oferta de animais, que podem manter firmes o preço da arroba em 2016. A desaceleração do consumo interno não afetará os preços da arroba, levando-as a uma baixa.

Embora o cenário econômico não favoreça o mercado doméstico, com alta inflação, desemprego e desconfiança por parte do consumidor, a cadeia sentirá esse reflexo, no curto prazo, no preço da carne.

O ciclo pecuário só indicará maior disponibilidade de bois para o abate dentro dos próximos dois ou três anos, isso se deve ao fato do movimento de retenção de matrizes observado nos últimos meses, que fará com que a oferta de bezerros aumente entre 2016 e 2017, pressionando o mercado de cria. Somente quando esses animais forem terminados os abates devem voltar a aumentar substancialmente.

Isso fará com que os frigoríficos busquem compensar margens de lucro com a exportação, uma vez que o mercado interno lhe responderá de forma mais restrita.

O confinamento em 2016 poderá se manter nos patamares de produção apresentados neste ano; havendo crescimento, o mesmo será tímido, devido ao cenário vivido em 2015.

*Juliane Gomes é zootecnista da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon)