Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Nutricão

 

Caberia mais neste cocho

A alta do dólar minou o crescimento da indústria de alimentação animal, que patina por mais um ano

Erick Henrique erickhenrique@revistaag.com.br

Economistas alertaram todas as vertentes da bovinocultura que o ano de 2015 seria de turbulência política, não apenas pela manutenção do atual governo por mais quatro anos, mas também pelo inevitável ajuste fiscal que se anunciava. Em outras palavras, o que os especialistas vislumbravam era o corte nos investimentos em todas as esferas e a inflação exorbitante dos produtos industrializados.

Apesar da catástrofe anunciada, o setor de alimentação animal cresceu 3%, com uma produção de 52 milhões de toneladas de ração e suplementos, de janeiro a setembro de 2015, ante as 48 milhões de toneladas registradas no mesmo período do ano passado, uma média que vem se tornando padrão historicamente.

“É importante esclarecer que o efeito da supervalorização do dólar encareceu as matérias-primas utilizadas na pecuária de corte e leiteira, incrementou os preços agropecuários no atacado - reduzindo o consumo - e minou o fôlego das empresas de nutrição”, esclarece o vice-presidente- -executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), Ariovaldo Zani, que ainda tenta junto ao governo isenções tributárias para o setor.

Outro obstáculo enfrentado foi a valorização de algumas commodities importantes, principalmente o milho, ingrediente número um nas rações animais. De janeiro a novembro, o grão ficou 26% mais caro no Brasil, subindo de R$ 472,00 para R$ 595,00. E na soja, foi ainda muito pior. O farelo encareceu 31% no período, saltando de R$ 998,00 para R$ 1.310,00.

E tudo isso pode ser colocado na conta da des valorização do real, pois, em dólar, o preço do milho recuou 5%, caindo de U$ 174,71 em janeiro para U$ 166,00 em setembro, e o de farelo de soja 10%, de U$ 379,04 em janeiro contra U$ 342,96 em setembro, conforme dados do Ministério da Agricultura Norte-americano (Usda, na sigla em inglês).

Apesar da incerteza política, o setor avançou 3%, diz Ariovaldo Zani

“A queda é atribuída à generosa safra americana e às condições climáticas favoráveis na América do Sul, bem como outros fatores como queda no preço do petróleo, desaceleração gradual da economia chinesa, enxugamento monetário, alta dos juros nos Estados Unidos e recuperação europeia ainda indefinida”, constata o líder do Sindirações.

Suplementação mineral

Sempre é importante salientar a incrementação do sal mineral na produtividade do rebanho de corte e leite. Uma das mais significativas limitações nutricionais do gado nas regiões tropicais é a deficiência de minerais, visto que as forrageiras geralmente não atendem as exigências dos bovinos. O fornecimento adequado de suplementos minerais pode aumentar os índices zootécnicos do rebanho, melhorando consideravelmente a lucratividade e a rentabilidade do criador.

Ainda que os nutrientes minerais componham somente 5% do corpo do animal, esses nutrientes contribuem com grande parte do esqueleto - de 80% a 85% e complementam a estrutura dos músculos, sendo indispensáveis ao bom funcionamento do organismo do bovino.

Na análise da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os principais sintomas que indicam a ocorrência de deficiências minerais no rebanho são redução no apetite, mesmo com pastagens com plena disponibilidade de massa verde de boa qualidade; baixa fertilidade e imunidade, sendo mais suscetíveis aos ataques de parasitas internos e anomalias nos ossos.

Segundo a Embrapa, a suplementação mineral nas pequenas e médias propriedades do Pará, por exemplo, é extremamente precária, principalmente por falta de informação. Por sua vez, as grandes fazendas da região possuem mais acesso à tecnologia e ao mercado de insumos.

“O subconsumo mineral parece revelar- se o maior limitante à produtividade da pecuária no Brasil. O uso adequado e o controle do consumo são fatores importantes para aumentar o desempenho animal e a demanda por suplementos”, diz Zani, que mesmo diante desse gargalo, ressalta que o mercado de sal mineral avançou 2,5%, em 2015. No balanço do Sindirações, as vendas de sal mineral contabilizaram cerca de 2,4 milhões de toneladas, contra 2,2 milhões de toneladas em 2014 .

O vice-presidente-executivo do Sindirações informa que os produtos que mais se destacaram no ano foram os de alto consumo, classificados como suplementos minerais proteico-energéticos e concentrados, para preparação de rações nas fazendas (principalmente o grão inteiro, milho + pellet). O grão inteiro tem sido adotado desde a década de 1970 nos Estados Unidos, já no Brasil, só mais recentemente.

Bovinos de corte

No retrospecto do Sindirações, de janeiro a setembro, a arroba do boi gordo permaneceu valorizada e o patamar de preço da carne bovina continuou incomodando o bolso do consumidor doméstico, que optou por proteínas economicamente mais acessíveis, a exemplo das carnes de frango e de suíno. Além disso, o retrocesso nas exportações de carne bovina e a interrupção da atividade de diversos frigoríficos, no primeiro semestre, inibiram uma recuperação mais vigorosa dos pacotes tecnológicos.

O alto custo da reposição de boi magro e, sobretudo o desajuste entre a oferta e a demanda de bezerros, comprometeram o investimento em alimentação pelos projetos de confinamento e semiconfinamento, embora, mais cedo ou mais tarde, esse ápice do ciclo pecuário vá se reverter por causa da flagrante retenção de fêmeas.

“O saldo até setembro foi um aumento de 2% na demanda de ração pelo gado de corte. No entanto, o câmbio mais competitivo, a abertura do mercado estadunidense, da Arábia Saudita, da África do Sul e do Iraque, a retomada dos embarques para o Japão e à China, e a ampliação para outros destinos tradicionais podem reestimular a cadeia produtiva de carne bovina a produzir mais gado no ano”, complementa Zani.

Rebanho leiteiro

No mesmo período pesquisado pelo sindicato (janeiro a setembro), a cadeia de distribuição demonstrou mais cautela e não acumulou estoques de leite e derivados, em resposta ao enfraquecimento do consumo. “O custo para produzir leite seguiu em alta, por conta do aumento da energia elétrica, do combustíveis, dos fertilizantes e outros insumos cotados em dólar. Até o alívio no preço do milho e do farelo de soja, em boa parte do ano, não foram suficientes para compensar os custos”, explica o executivo.

A diminuição no preço do leite pago ao produtor corroeu as margens de lucro e forçou muitos fazendeiros a secar as vacas com antecedência, na esperança de reduzir custos e melhorar a rentabilidade.

Zani também lembra que fatores climáticos sazonais (estiagem, baixa temperatura e luminosidade) também contribuíram para o enxugamento da produção. Faltando um mês para acabar o ano, a produção de rações para gado leiteiro recuou mais de 2%.

Outro impacto forte sobre o mercado leiteiro foi o fator climático, com o excesso de chuvas registrado desde julho no Rio Grande do Sul, que está prejudicando a utilização das pastagens, a produção de feno e a implantação das lavouras de milho para silagem. Os alagamentos dificultam o manejo dos animais e a coleta de leite pela indústria.

Entidades ligadas ao setor observaram que a produção de leite recuou 5% em novembro. Conforme o assistente técnico estadual em Produção de Leite da Emater/ RS, Jaime Reis, as chuvas torrenciais deverão impedir a captação de 600 mil litros diários, além da já esperada redução que acontece nesta época do ano.

Para a Associação dos Criadores de Gado Holandês (Gadolando), os efeitos negativos do excesso de chuva não são momentâneos, podendo impactar no cenário do setor no próximo semestre, mesmo que o clima melhore. Isso porque a produção de feno, atividade paralela à bovinocultura de leite, praticamente estagnou nos últimos meses.

O feno é utilizado como fibra na alimentação das vacas de alta lactação, mas o corte, a secagem e o armazenamento do mesmo ficaram limitados pela alta umidade. Com isso, o produtor foi obrigado a usar o estoque ou comprar de outras regiões.

Mercado em 2016

Zani entende que os consumos da proteína bovina e leiteira continuarão influenciados pelas incertezas do ambiente doméstico tupiniquim, afligido pelo aumento do desemprego, crédito escasso e inflação nas alturas. No âmbito externo, a depreciação persistente identificada no preço das carnes, dos cereais e das oleaginosas, além do açúcar e dos derivados de leite, compromete as perspectivas de crescimento do Brasil, ainda predominantemente exportador de commodities.

“A persistência da diplomacia comercial enviesada ideologicamente, a falta de clareza e a fragilidade da política comercial do governo brasileiro continuarão provocando muitas confusões nos clientes internacionais, em tempos que o custo e o nível de diferenciação do produto embarcado e a confiança percebida pelo comprador internacional são pressupostos que modulam a competitividade. Assim, a ampliação das exportações de manufaturados continuará como mera ficção e o País alijado dos principais acordos de preferência”, conclui o diretor.

Na projeção do vice-presidente, a indústria de alimentação animal brasileira deve continuar produzindo, em 2016, rações e suplementos em quantidade modulada pelo desempenho da cadeia produtiva de proteína animal. Por esse motivo, crescer mais que 3% será uma incógnita.