Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Bezerro

 

Preços fazem as pazes com a história

A inserção do milho na dieta dos bois produzidos a pasto pode colaborar para a manutenção de um futuro promissor ao ciclo de cria

Rogério Goulart*

Veja, caro leitor, como são as coisas. Se você está na atividade há algum tempo já deve ter visto algum tipo de gráfico de longo prazo dos preços da pecuária, tal qual o do bezerro. São representações que buscam situar os valores atuais com a história e que tentam dar sentido de continuidade aos diversos momentos pelos quais a economia brasileira passou nas últimas décadas e o que isso gerou nos preços daqueles produtos.

Os gráficos deflacionados, isto é, que ajustam os preços do passado para a moeda de hoje sempre mostram valores muito altos nas décadas passadas. Isso decorre do efeito da inflação. Todos os gráficos de longo prazo produzem um resultado parecido. Isso sempre incomoda um pouco. Será que no passado os preços do bezerro realmente tiveram os ímpetos dessas altas e conseguiram atingir níveis tão elevados em suas cotações? Um cínico questionaria se isso seria apenas maquiagem em planilha de Excel? Mas não, caro leitor, esses gráficos são reais e servem, de fato, como guia e registro.

Pois bem, eis que nos encontramos no final de 2015 com os preços do bezerro acima de R$ 1.250... e até em alguns momentos mais animados do primeiro semestre ocorreram negócios com valores chegando mais próximos dos R$ 1.500 por cabeça. Quando estamos no dia a dia da lida, talvez esses preços pareçam naturais. Afinal, normalmente, o pecuarista não tem o hábito de ficar avaliando o passado. Como a rotina da fazenda é agitada, é comum o produtor achar que essas cotações estão na praça há mais tempo do que parece.

Ocorre, caro leitor, que o bezerro, no longo prazo, pouquíssimas vezes valeu tanto. Em raros momentos, ele ultrapassou o patamar das nuvens, tal qual vemos agora. E, tão importante quanto, ele não conseguiu se manter assim por muito tempo, como será obervado na figura ao lado.

Chama a atenção nessa figura que discorre os preços do bezerro no Brasil nos últimos sessenta anos para os movimentos de alta do passado e os preços de hoje. Os valores na figura representam os preços no Estado de São Paulo, mas a tendência vista em terras paulistas se repete no Brasil inteiro. Por exemplo, um bezerro, enquanto escrevo estas linhas, gira ao redor de R$ 1.300 no Mato Grosso do Sul. Um valor desses coloca o bezerro lado a lado com os melhores momentos da história e traz aos criadores uma paz dentro da porteira que há décadas não era vista.

É importante comemorar o momento ímpar nas cotações desse pequeno animal. A cria é uma atividade que carecia de reconhecimento e de ter uma oportunidade duradoura de recomposição de margem como tem conseguido nos últimos anos. Isso devolve confiança ao setor, além de melhorar a genética do gado e no decorrer do tempo o País passa, aos poucos, por um processo de melhoramento dos bovinos engordados para atender mercados cada vez mais exigentes.

Porém, é necessário levar em consideração que um preço acima de mil reais já pode ser considerado uma vitória histórica e entre R$ 1.250 e R$ 1.500 coloca esse pequeno animal entre os melhores momentos da história brasileira.

O que levou o bezerro a chegar nesses valores considerados picos históricos?

Um fator é a disponibilidade propriamente dita de bezerros. Durante o período que abraça 2012 até 2015, a oferta desse animal esteve aquém do necessário para suprir o mercado de reposição. A oferta baixa de bezerros nesse tempo surgiu por um motivo que ocorre de tempos em tempos e é a razão das oscilações na quantidade de bezerros disponíveis no mercado. Lembre-se que uma coisa puxa a outra. O criador responde ao acréscimo de lucro da atividade com aumento da produção e retenção das fêmeas, e também descarta as mesmas nos momentos mais desfavoráveis à rentabilidade da cria. É uma roda que gira continuamente e nunca para.

Especificamente, a razão dos preços entre 2012 e 2015 e dessa baixa oferta entre esses três anos pode ser explicada pelos baixos preços do bezerro entre 2010 e 2012. Nesse período, o abate de fêmeas aumentou muito, evidenciando que os preços vigentes da cria não estavam remunerando a atividade. O criador viu-se diante de um impasse. Precisava-se produzir mais bezerros para pagar a conta? Ou reduzir a produção vendendo as vacas para pagar as contas do mês? A história nos mostra que em momentos de baixa lucratividade o criador tende a se desfazer de matrizes.

E essa redução de matrizes foi o embrião da alta que estamos vivenciando agora.

Porém, da mesma forma que lá trás a baixa lucratividade levou o criador a reduzir a produção de bezerros vendendo vacas, hoje temos o inverso acontecendo. Diante de uma lucratividade interessante nesses últimos anos, os criadores se animaram e estão investindo na aquisição de novas matrizes, retendo as novilhas nos pastos.

E estão fazendo isso com força. As últimas leituras do IBGE reportam retenções ao redor de 10% a mais de vacas em 2015, no comparativo com 2014. Os pastos estão se enchendo de novilhas esperando sua vez para criarem novas fornadas de bezerros e bezerras.

Essa nova leva de vacas poderá mexer com a oferta. Aliás, já começou a influenciar! A cotação da cria bateu no pico em abril deste ano ao redor de R$ 1.500 e, até o momento, sete meses depois, e enquanto estas linhas são redigidas, em meados de novembro, os preços estão reticentes em voltarem para tal patamar.

Porém, paralelamente, e é a outra razão para o aumento na oferta de bezerros, a engorda também está sofrendo mudanças significativas nesses últimos anos, com a introdução de milho nas dietas antes só de pasto, o que resultou em uma elevação na porcentagem do produto nas rações, antes de 0,3%, passando para 0,8% e atingindo até 2% do peso vivo do animal. Essa, de certa forma, é uma criação brasileira, ao aliar pastos com nutrição de cocho e acelerar a engorda dos animais, melhorando o acabamento de gordura.

E mais uma vez o bezerro é beneficiado nesse processo. O invernista realmente parte para esse tipo de intensificação na propriedade e ao se conversar com os representantes dos setores da indústria e do mercado de nutrição é nítido que esse movimento se alastrou pelo País inteiro.

A engorda intensiva não precisa de boi magro. O invernista pode pular uma etapa e utilizar diretamente o garrote ou até mesmo o bezerro e alimentá-los intensivamente, pois é bem provável que os mesmos saiam de dentro da fazenda já gordos, praticamente levando o mesmo tempo que antes se demoraria para trabalhar o boi magro.

E tem mais: ao se observar a figura à esquerda, é possível que na relação da arroba do boi gordo versus o preço do milho acima de quatro sacas por arroba, engordar boi com o grão se tornou uma excelente operação.

Esta é mais uma boa notícia para a cria. Ao mesmo tempo que se vê o criador mantendo uma margem adequada para o negócio, a demanda para seu produto também está em alta. Por esse motivo, a orientação é a mesma de sempre, busque unir forças com os invernistas de confiança que valorizam o seu bom animal. Vá atrás deles para negociar o produto ou fazer parcerias de fornecimento. Com o tipo de alimentação disponível hoje em dia, um bezerro de qualidade vale, e sempre valeu, mais. Quem almeja engordar paga mais por um animal melhor.

*Rogério Goulart é analista de mercado e editor da Carta Pecuária - cartapecuaria@gmail.com