Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuária de Corte

 

Na contramão da crise

A pecuária de corte brasileira tem vivido dias de excitação quando analisamos os preços nominais da arroba do boi gordo e dos animais de reposição. Toda a cadeia vive um tempo nunca antes registrado desde que os números começaram a ser tabulados. O ano de 2015, sem dúvida, ficará na história como o ano em que a positividade tomou conta de vez da maioria dos atores da cadeia.

Mesmo as plantas frigoríficas que, preem tese, vivem margens diminuídas em épocas de preço da arroba em alta, se viram exportando cada vez mais e para vários mercados antes fechados ou inexplorados. Já internamente, nunca se falou tanto em carne de qualidade e em como a indústria tem interesse de receber produtos melhorados como neste ano. Pipocam em todo o Brasil programas de bonificação de carcaças, evidenciando que até mesmo o nosso consumidor final começou a ser mais exigente dentro de casa.

Por outro lado, ao mesmo tempo, o ano de 2015 foi também marcado pela crise econômica e política e, sem dúvida, está sendo desafiador. As medidas tomadas pelo governo ainda não são suficientes para estabilizar a economia, falta estratégia e planejamento para que o Brasil volte a crescer gradativamente. Então, o que esperar para o cenário econômico em 2016?

Embora seja muito cedo para definirmos qualquer prognóstico, economistas afirmam que o País começará a sair do atoleiro no ano que vem. Indicadores econômicos apontam para um crescimento modesto no PIB, de 1%, sendo que para 2015 a retração prevista é de 1,18%. Colocar a economia nos trilhos não será tarefa fácil, visto que haverá muitos desafios a serem enfrentados, como recuperar o nível de confiança dos empresários e consumidores, retomar a credibilidade no mercado internacional, evitar o rebaixamento das notas de classificação de risco no cenário internacional e controlar a inflação que freia o consumo doméstico.

E quanto à pecuária? Antes de entrarmos nas perspectivas futuras, façamos um balanço deste ano que está por se encerrar. A pecuária nacional enfrentou muitos desafios, mas também obteve muitas conquistas. Este ano não foi marcado apenas por cortes orçamentários do governo, mas também por investimentos que priorizaram o setor agrícola e pecuário, sendo que os recursos disponibilizados no Plano Agrícola e Pecuário de 2015 foram superiores em 20% ao plano de 2014.

Outra conquista que podemos destacar é o esforço do Brasil em erradicar a febre aftosa através do Plano de Erradicação e Prevenção da Febre Aftosa (PNEFA). Atualmente, as Regiões Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Sul do País são livres da doença com vacinação. Na Região Sul, o estado de Santa Catarina obteve, em 2007, o status de livre de febre aftosa sem vacinação. E o objetivo é incorporar os estados de Roraima, Amazonas e Amapá à zona livre de febre aftosa.

Podemos dizer que o ano de 2015 foi favorável para o setor pecuário. No sentido contrário à crise econômica, o setor vive bom momento, com preços favoráveis da arroba, trazendo mais otimismo aos produtores. A pecuária nacional desempenha um papel de importância dentro do agronegócio, pois, além de atender o mercado de alimentos, produzindo carne segura e de qualidade, o setor representa 8% do PIB (Produto Interno Bruto). A pecuária nacional mudou muito nos últimos anos, trilhando agora caminhos rumo à intensificação da produção, buscando por maior produtividade e rentabilidade. Com isso, também mudou a visão de muitos produtores rurais, que estão compreendendo agora que transformações são necessárias e representam o sucesso da atividade. Sendo assim, a adoção de ferramentas de gestão e das tecnologias no campo veio para ficar.

Hoje, nos deparamos com uma visão moderna do produtor rural, que já se projeta como um verdadeiro empreendedor. Está em curso um processo de transição do gerenciamento rural, de “tocar” a fazenda para um modelo mais profissional e inovador de gestão. Está cada vez mais presente no campo a correta aplicação de tecnologias, como a implantação das práticas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), os investimentos em melhoramento genético e as boas estratégias de nutrição. Enfim, o pecuarista está buscando informações para alcançar soluções que levam a uma melhor rentabilidade da atividade. Os tempos mudaram, a atividade está evoluindo e quem não acompanhar essas mudanças estará fadado a ter prejuízo.

Portanto, as perspectivais futuras para a pecuária são positivas, mas vale ressaltar que esse futuro promissor vai depender também das ações políticas para fomentar a economia. O governo precisa continuar a olhar o agronegócio, priorizando o segmento. Somadas às iniciativas governamentais, a cadeia produtiva precisa se fortalecer, continuar investindo em gestão e inovações tecnológicas para produzir com sustentabilidade.

O maior desafio para o produtor continua sendo a intensificação da produção, que depende quase totalmente do sistema de pastejo. O problema é o que o Brasil possui muitas pastagens degradadas, caracterizadas por pastagens ralas, espaços descobertos, muitos cupinzeiros e plantas invasoras. Um dos principais motivos para a degradação está relacionado ao manejo inadequado e ao descuido. O ideal seria não descuidar da principal fonte de alimento do gado, pois os recursos utilizados na recuperação das pastagens poderiam ser aplicados em outras tecnologias. Porém, se o caso for recuperar, existem muitas estratégias que podem ser usadas e se mostram eficientes, como o sistema de ILPF, o uso de herbicidas e o correto manejo com relação à taxa de lotação. Enfim, a escolha da estratégia vai depender das condições em que se encontra a pastagem.

O Brasil possui uma área equivalente à de um continente, dispondo de uma extensão de 8,5 milhões de km². Desse total, 20% são ocupados por pastagens. O rebanho brasileiro totaliza algo em torno de 212,3 milhões de cabeças, sendo que praticamente a sua totalidade é criada a pasto. Estima-se que apenas 3% do rebanho são terminados no sistema de confinamento.

Segundo levantamento da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) a intenção de confinamento de bovinos feita para o ano de 2015 apontou para uma redução de 5% quando comparada a 2014. Essa queda foi decorrente do alto custo do animal de reposição e do aumento dos gastos com alimentação animal ao longo do ano. De acordo com a entidade, na pesquisa feita junto aos associados, foram confinados 703.950 animais. Em todo o País foram confinados por volta de quatro milhões de cabeças (números a serem confirmados).

O mercado de carne bovina vem crescendo exponencialmente, ganhando força e espaço no mercado internacional. O Brasil é o maior exportador do mundo, tem o segundo maior rebanho e é o segundo maior produtor, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

O setor comemora resultados importantes tanto interna quanto externamente. Este ano tivemos a recuperação de mercados importantes, como a China, por exemplo, que havia suspendido a importação da carne brasileira em 2012, em decorrência de um caso atípico de encefalopatia espongiforme bovina (EEB), popularmente conhecida como doença da vaca louca. Também foi derrubado o embargo por parte da Arábia Saudita, maior e mais importante mercado do Oriente Médio. O protocolo sanitário e o acordo formal de liberação do produto brasileiro foram assinados durante a visita da ministra da Agricultura àquele país. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) estima que, com a reabertura desses mercados, o potencial que o setor pode exportar é de 50 mil toneladas de carne bovina ao ano, com valor estimado em US$ 170 milhões.

As exportações de carne bovina in natura para os Estados Unidos também farão do Brasil uma referência, pois os norte-americanos são bastante restritivos em relação à entrada de produtos. Doze estados brasileiros, além do Distrito Federal, estão habilitados para essa venda. Porém, a abertura efetiva depende ainda de uma missão ao Brasil ainda neste ano.

Com relação ao mercado do Japão, que embargou a carne bovina termoprocessada, esteve no Brasil, entre os dias 26 e 29 de outubro, uma Missão do Ministério da Saúde japonês (MHLW) para avaliar nossos estabelecimentos e o sistema federal de inspeção. Ainda neste ano virá também uma Missão do Ministério da Agricultura do Japão (MAFF) com a finalidade de também dar andamento às negociações para o fim do embargo.

Enfim, o mercado internacional é destaque para as exportações de carne brasileira. De acordo com a Abiec, no mês de outubro, foi registrada a maior alta de exportações do ano, com recorde de faturamento de US$ 557,3 milhões. Naquele mês, Hong Kong voltou a ocupar a primeira posição entre os importadores de carne do Brasil, comprando mais de 33 mil toneladas, seguido da China (mais de 17 mil toneladas) e da União Europeia (mais de 12 mil toneladas).

O ano de 2015 revelou um cenário de grande valorização, conforme mostra o gráfico acima. A arroba atingiu preços recordes em algumas praças no primeiro semestre do ano. Tomando o estado de São Paulo como referência, a arroba chegou a ser negociada a R$ 157,00 (a prazo), sendo que, no mesmo período, em 2014, estava valendo R$ 136,00 (também a prazo). A redução da oferta de animais para o abate, somada à estiagem na entressafra, refletiram na alta do preço da arroba. A cotação deverá se manter firme com a chegada das festividades. Apesar de o preço da carne estar mais salgado no varejo, os consumidores estarão mais capitalizados.

O preço da arroba tem sido sustentado pelas exportações e pela oferta restrita de animais. Mas, com a chegada do período das águas, que resulta na melhoria das pastagens, a oferta de gado deverá aumentar por volta dos meses de março e abril, sendo que, com mais gado sendo ofertado, o preço da arroba deverá ser pressionado. Porém, caso haja problema de estiagem, como já ocorreu em anos anteriores, poderá ocorrer uma limitação na oferta de animais terminados a pasto, elevando a arroba a patamares mais altos.

Sendo assim, o planejamento é a principal ferramenta que permite ao produtor se adaptar às situações adversas, como as condições climáticas, que, dependendo da região, podem comprometer as pastagens. Portanto, é importante planejar e promover ações preventivas contra a escassez de alimento. Existem muitas formas de contornar a sazonalidade de oferta de forragem. A mais usual é a conservação de forragens, como silagem e feno.

Outras formas de driblar a escassez de alimento na seca são o uso de subprodutos e resíduos da agricultura, assim como a vedação das pastagens no final das águas. De qualquer forma, para adotar qualquer dessas estratégias, é preciso saber qual será a demanda por alimentos. Essa demanda poderá ser estimada de acordo com a taxa de lotação esperada. Atenção à composição da dieta é importante, principalmente para o dimensionamento da produção de volumosos.

É importante que o produtor não fique com animais improdutivos na fazenda, pois esses geram custos desnecessários. Uma das ferramentas para a eliminação desses animais é o diagnóstico de gestação. Enfim, a estratégia adotada vai depender do objetivo que o produtor quer alcançar.

Analisando a indústria global de carne bovina no quadro “Boi Gordo no Mundo”, observamos o valor médio da arroba do boi gordo no período compreendido entre 13 de outubro e 13 de novembro de 2015, para os principais países produtores: Brasil, Argentina, Austrália e Estados Unidos. Houve uma desvalorização no preço médio da arroba no Brasil, quando comparado com o período anterior, reflexo da variação cambial.

O gráfico “Evolução do Preço da Arroba do Boi Gordo” analisa a evolução do preço em alguns estados brasileiros no período de 13 de outubro a 13 de novembro de 2015. O cenário é de firmeza, sendo que a arroba ganhou força na primeira quinzena do mês de novembro nas principais praças produtoras. Em São Paulo, a arroba chegou a ser negociada a R$ 150,00 (a prazo); em Minas Gerais, a R$ 144,00 (a prazo); e em Goiás, a R$ 140,00 (a prazo).

O preço do bezerro segue valorizado em quase todas as praças produtoras, para o período analisado (entre 13 de outubro e 13 de novembro de 2015). Em SP, o preço médio do bezerro foi negociado a R$ 1.312,50; em MG, o bezerro subiu para R$ 1.124,58; em GO, a R$ 1.249,17; no MS, avançou para R$ 1.267,80; no MT, R$ 1.144,17; no PR, R$ 1.296,25; no RS, recuou para R$ 1.040,83; e no PA, para R$ 994,58.

Já para o boi magro, a baixa foi geral, com a média da categoria sendo negociada entre os paulistas a R$ 1.623,33; em MG, a R$ 1.417,92; em GO, a R$ 1.545,00; no MS, a R$ 1.533,75; no MT, a R$ 1.415,42; no PA, caiu para R$ 1.288,75; no PR, passou a valer R$ 1.612,50; e, no RS, a R$ 1.373,33.

A balança entre o consumo doméstico e o externo não deverá estar equilibrada no ano que vem, pois o consumo interno vem caindo, reflexo da crise econômica e da alta da inflação, que descapitaliza o consumidor. Com o preço da carne bovina mais cara, o consumidor tem optado por outras fontes de proteína, com destaque para a carne de frango, principal concorrente da bovina.

Em contra partida, teremos um mercado externo bastante aquecido, com expectativas de recordes para as exportações, impulsionados pela forte demanda internacional, pela abertura de novos mercados e pela valorização do dólar. Fatores como crescimento de produção, preço competitivo e qualidade da carne, corroboram para a consolidação do Brasil como o maior exportador de carne bovina do mundo.

Porém, se por um lado a alta do dólar favorece as exportações, por outro, aumenta os custos dos insumos necessários para produção, como sal mineral, produtos veterinários, etc. Contra a variação cambial, o produtor não tem muito o que fazer, mas pode se proteger de possíveis prejuízos e antecipar ações que garantam uma melhor rentabilidade através de um bom planejamento e controle.

Tais ferramentas permitem analisar os custos de produção, traçar índices de desempenho e produtividade, melhorar a alocação de mão de obra, controlar estoque, etc. “Somente o olho do dono não engorda o gado”. É preciso planejar, organizar, coordenar e controlar. O produtor precisa ter acesso a todas as informações que envolvem a atividade. Só assim ele poderá mensurar se os investimentos realizados estão produzindo resultados positivos.

Antony Sewell e Rita Marquete Boviplan Consultoria