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Caprinovinocultura

 

Caminho trilhado para o CRESCIMENTO

Desenvolvimento da cadeia passa por iniciativas que promovam a qualificação e o aumento do rebanho

Denise Saueressig - denise@revistaag.com.br

Ainda que os desafios para um maior crescimento sejam importantes, a caprinovinocultura tem conquistas expressivas a celebrar nos últimos anos. É verdade que a atividade carece de maior estruturação em comparação com outras cadeias da pecuária brasileira, mas os esforços de produtores, instituições de pesquisa e iniciativas públicas vêm colaborando para que o processo de organização da produção seja acelerado e resulte em benefícios para produtores e consumidores.

O desenvolvimento específico da ovinocultura pode ser percebido a partir de diferentes enfoques, dizem os pesquisadores da Embrapa Caprinos e Ovinos Juan Diego Ferelli de Souza e Klinger Aragão Magalhães. Os especialistas avaliam que um dos destaques é o avanço de diferentes políticas públicas voltadas à atividade, como as linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e a inclusão de alimentos derivados no Plano Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). “Esse tipo de incentivo fortalece o mercado, principalmente o nicho voltado para a carne originada da agricultura familiar, incrementando a renda, a visão negocial dos produtores e sua rede de parcerias”, analisa Souza.

Projetos desenvolvidos nos estados produtores também têm muita relevância para fortalecer as cadeias locais. O presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Schwab, cita os recentes programas adotados no Rio Grande do Sul, estado com o maior rebanho do País, com 24,4% do plantel total, ou pouco mais de 4 milhões de cabeças.

Uma dessas iniciativas, lideradas pela Secretaria da Agricultura do estado, é o Programa Mais Ovinos no Campo, que ajudou a ampliar os números do rebanho gaúcho nos últimos três anos. Por meio dele, os criadores podem obter financiamento para a retenção de matrizes e aquisição de animais. Outro projeto do governo gaúcho é o Programa Estadual da Sanidade Ovina (Proeso), criado para ampliar o controle, erradicação e prevenção de doenças.

Parcerias que fazem a diferença

Os impactos das políticas também se desdobram em iniciativas do setor privado, atraído pelo crescimento do mercado, com interesse no fornecimento de produtos com maior valor agregado, como cortes especiais.

Exemplos desse crescimento podem ser vistos em parcerias entre produtores e indústrias, como é o caso do programa mantido pela empresa VPJ Pecuária, que trabalha com criadores de ovinos Dorper, estimulando esses produtores a fornecerem animais padronizados e que resultam em uma carne qualificada no mercado.

Outra iniciativa, que foi lançada oficialmente em setembro de 2014, é o Projeto Texel Gran Reserva Cordeiro Premium. O programa envolve dois produtores parceiros que pretendem oferecer ao consumidor cortes diferenciados e atrair novos criadores para ampliar o rebanho da raça Texel. “Os avanços ocorrem tanto em mercados tradicionais, como as Regiões Sul e Nordeste, com a otimização dos sistemas de produção em busca de qualificar e ampliar a oferta de carne, quanto em regiões não tradicionais, com o surgimento e consolidação dos mercados consumidores dispostos a consumir carne ovina”, constata o pesquisador Klinger Magalhães.

Um dos fatores de estímulo para a atividade vem dos preços aquecidos nos últimos anos, justamente pelo incremento da demanda. Em São Paulo, onde está o principal mercado consumidor, o quilo do cordeiro vivo é comercializado por valores entre R$ 5 e R$ 6. No Rio Grande do Sul, entre R$ 4 e R$ 5. Para se ter uma ideia, em 2009, produtores gaúchos recebiam R$ 2,50 pelo quilo vivo. “É interessante destacar que não existe apenas procura pelo cordeiro, mas também para os animais adultos, já que a carne pode ser usada com diferentes finalidades, como na cozinha árabe, por exemplo”, descreve Schwab.

Pesquisador Klinger Magalhães, da Embrapa: desenvolvimento da atividade ocorre em mercados tradicionais e em novas regiões de consumo

Qualidade e crescimento

Também presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Caprinos e Ovinos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o dirigente considera essencial um plano de ação nacional, que englobe as diferentes demandas do segmento. “É cada vez mais importante trabalhar com extensão rural, levando informações técnicas até o produtor. Precisamos nos esforçar para ampliar o nosso rebanho e cumprir essa missão com qualidade”, destaca.

O efetivo de ovinos no Brasil soma 16,8 milhões de cabeças, segundo dados do IBGE. Houve algumas pequenas oscilações ao longo dos últimos anos, mas de uma forma geral, os números mostram estabilidade. Para os representantes do setor, esse volume é considerado muito aquém da demanda do consumo e das possibilidades da pecuária brasileira. “Ainda mais se considerarmos que o rebanho bovino é de quase 220 milhões de cabeças”, observa Schwab.

Atualmente, segundo o dirigente, o consumo per capita é de apenas 400 gramas de carne ovina por ano. “Se quisermos ampliar em dois quilos esse índice, precisamos formar um plantel de 50 milhões de animais”, calcula.

Entre os desafios que precisam ser superados para estimular a produção, o presidente da Arco lista o grande número de abates informais, que variam entre 50% e 100% nas diferentes regiões do País, a sazonalidade da oferta e as importações de carne mais barata, especialmente do Uruguai. “O aumento da formalização deve ser perseguido, inclusive para que tenhamos uma maior quantidade de informações disponíveis sobre o setor e matéria-prima para a pesquisa”, salienta Magalhães.

Rebanho de caprinos do País é estimado em 8,646 milhões de cabeças, com destaque para o Nordeste, onde estão as maiores concentrações

Expansão geográfica

Os avanços e desafios da caprinocultura são bastante semelhantes aos identificados na ovinocultura. Algumas particularidades, no entanto, mostram que entre os criadores de caprinos algumas questões são mais regionalizadas. É o caso dos ganhos genéticos observados nos últimos anos, concluem os pesquisadores da Embrapa. “A evolução vem acontecendo, especialmente com a inserção de raças exóticas. Entretanto, essa melhoria ficou restrita a algumas regiões”, relata Magalhães.

Da mesma forma, essa característica faz com que o consumo esteja ainda muito associado a hábitos regionais. Por essa razão, a atividade requer estratégias diferentes de atuação. “É preciso que ocorra a expansão geográfica da produção para que se perceba o mesmo dinamismo observado na ovinocultura”, acrescenta Souza.

O rebanho de caprinos é estimado em 8,646 milhões de cabeças, com destaque para o Nordeste, onde estão as maiores concentrações, e para as Regiões Sul e Centro-Oeste, onde existe um movimento de crescimento ainda discreto.

O mercado do leite é um dos mais importantes para os criadores de caprinos e, no Nordeste, foi estimulado pelas compras governamentais, contribuindo para a consolidação de algumas bacias leiteiras. “No entanto, a demanda desses programas vem diminuindo, o que gera a necessidade de busca por novos mercados para o produto”, completa Magalhães.

De uma forma geral, a caprinovinocultura tem um imenso potencial para crescimento no País, com base em organização e produtividade. O aumento da demanda atrai investidores para a produção e a comercialização em maior escala e, consequentemente, deve ocorrer uma maior formalização. “Isso não significa que somente os grandes empreendedores têm espaço, pelo contrário, ao mesmo tempo outras oportunidades surgem, como a possibilidade de integração da agricultura familiar com a indústria nos moldes de outras cadeias”, sustenta o pesquisador Juan Souza.

Rebanho nacional e principais estados produtores (em milhões de animais)