Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

 

“O futuro não é mais o que era”

Reflexão sobre o ambiente sistêmico da produção de carne

Francisco Vila*

Na percepção geral, os próximos anos deverão ser favoráveis para a pecuária. A combinação das tendências dos custos de reposição e operação com as perspectivas da demanda e do preço da @ permite prever fluxos de caixa positivos durante algum tempo. Esses meios financeiros deverão ser investidos na modernização sistêmica da atividade, que passa a ser cada vez mais integrada. Essa reflexão poderá ajudar a definição da estratégia empresarial adequada que reforçará o posicionamento do confinamento em um setor crescentemente competitivo.

Há anos tornou-se comum falar sobre a quebra de paradigmas. Trata-se, em princípio, de fazer as coisas de forma diferente que no passado. Isso, infelizmente, inclui também as práticas bem sucedidas. Devido ao progresso quase insano de todas as tecnologias, aquilo que estava certo até ontem pode não ser mais viável amanhã. Aqui alguns exemplos.

No final de 2014, a Embrapa chamou lideranças do setor para apresentar o arcabouço de tecnologias avançadas que influirão em todos os processos produtivos do agro. Tratores-robô acompanhados por drones, que enxergam melhor do que o próprio “olho do dono”, circulavam livremente nos campos de ensaio avisando que, dentro em breve, iniciarão a cruzada de modernização até as regiões mais remotas da produção bovina brasileira.

O choque tecnológico começou-se a sentir na pele com o primeiro hambúrguer artificial produzido em um laboratório da Holanda. Outra notícia é a perspectiva de o consumidor poder imprimir sua carne em casa em uma máquina 3D, já disponível no mercado. Não é ficção, pois tudo isso já está sendo feito.

Em seu documento estratégico “Visão 2014-2034”, a Embrapa chama a atenção às principais forças-matrizes que irão alterar profundamente o modo de produzir alimentos já nos próximos anos. A necessidade de atender as novas exigências dos mercados em franca expansão, juntamente com a crescente escassez de mão de obra no campo, acelerará a incorporação de soluções tecnológicas sistêmicas cada vez mais sofisticadas. Nesse panorama geral para o setor, convém lembrar que “modernizar não é mais opção, é obrigação”. Não é por acaso que os especialistas preveem o abandono da atividade produtiva de 40% dos produtores rurais ao longo dos próximos 15 a 20 anos.

Na avaliação das tendências de inovação é importante lembrar três fenômenos. As tecnologias que estão sendo desenvolvidas são mais sofisticadas (profundidade), envolvem mais áreas (amplitude) e surgem ao mesmo tempo em diferentes lugares (simultaneidade). Resumindo: tudo muda o tempo todo.

No cenário do agro, a convergência das tecnologias biológicas e da comunicação revolucionará todo o ambiente da produção bovina. Trata-se da multifuncionalidade do conhecimento em torno da emergência de uma nova bioeconomia. Teremos como pilares principais da inovação as tecnologias das novas ciências (bio-, nano- e geotecnologia). Essas se apoiarão na automação, na informação (big data) e nas avançadas formas de comunicação. Urnas eletrônicas, e a declaração de imposto de renda on-line já são velhos conhecidos nossos. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) via Internet e o novo conceito da Plataforma de Gestão Agropecuária (PGA) através do CNA Card seguem nessa linha da interconectividade. Essas ferramentas facilitam a total transparência de todos os processos e movimentos em todos os sistemas produtivos, inclusive os da pecuária bovina.

É esse o novo mundo, o século das grandes conquistas e de novos desafios. Muitos vão prosperar, mas também muitos outros deixarão o mercado.

DESAFIO DUPLO

Concretamente, no setor da pecuária enfrentaremos dois cenários. O primeiro é a já conhecida inversão da lógica da cadeia produtiva e o segundo tem a ver com a vulnerabilidade do processo do planejamento estratégico do negócio bovino.

As redes sociais permitem a manifestação instantânea do consumidor. Isso vale mais para reclamações do que para uma participação construtiva na solução de problemas que costumam ocorrer ao longo da cadeia produtiva como um todo. O fiscal do governo está sendo substituído por centenas de milhares de consumidores, uma vigilância de 24 horas por dia. Sabe-se que o comprador da carne quer um produto saboroso, seguro, ambientalmente correto e bem confeccionado sem, naturalmente, estar disposto a pagar mais por isso. Assim está dado o ponto de partida para organizar a produção desse produto a partir da gôndola em direção ao frigorífico que passa essa mensagem via confinador, invernista e criador até a escolha adequada do sêmen. O confinamento, situado no meio desse processo, adquire o papel de articulador entre os diversos elos. Uma das suas funções principais passou a ser a de “corrigir” a matéria-prima no sentido de melhorar o padrão pré-abate. Dessa forma, contribuirá para a redução do custo de transformação, bem como da distribuição do produto.

No entanto, o representante do consumidor anônimo é o comprador do varejo. É ele que sinalizará ao frigorífico “o que” ele comprará, “quando”, em que “quantidade” e “qualidade” e em qual “época” do ano. Com o perfil da carcaça definido, o confinador, seja ele o próprio invernista em sua fazenda ou o boitel comercial ou do frigorífico, avisa ao fornecedor de gado qual o tipo de animal ele precisa. Pois devemos lembrar que “engordar não é a mesma coisa que terminar”. Nesse novo conceito da “produção puxada”, o confinador passa de “comprador de gado” para “indutor de critérios de produção” para o invernista e, da mesma forma, para o criador. Uma nova lógica de negócio à qual todos precisam se acostumar, pois o consumidor não perdoa mais.

Segundo Francisco Vila, especialistas preveem o abandono da atividade produtiva de 40% dos produtores rurais ao longo dos próximos 15 a 20 anos

O segundo desafio desses tempos novos é a vulnerabilidade do processo de planejamento estratégico da nossa atividade. Tradicionalmente temos apenas extrapolado as experiências do passado, incluindo algumas novas perspectivas de crescimento. O novo modelo requer o “planejamento inverso”. Esse processo começa a partir do cenário do futuro (2025) para depois definir as etapas de evolução qualitativa e quantitativa que deveremos seguir daqui para a frente. E é aqui onde surge o desafio. Como vamos planejar a partir de 2025 se não sabemos em que direção e com qual velocidade a tecnologia avançará ao longo desse período? Ficou latente que não se pode planejar baseado no modelo do sucesso do passado. Por outro lado, não sabemos, e nem podemos imaginar, para onde os avanços tecnológicos da bioeconomia e da informação e comunicação levarão os produtos e processos. A solução no novo ambiente da perplexidade é sair do isolamento e procurar sinergias com os outros envolvidos no processo da produção de carne bovina.

A SOLUÇÃO

A crescente complexidade e velocidade de tudo na sociedade moderna exige cada vez maior aplicação de “inteligência” nos negócios. Inteligência é a soma de observações e extrapolações em torno de um determinado assunto. Temos mais opções na genética, nos sistemas de manejo, na oferta de suplementação e, mais importante de tudo, na comunicação entre todos os envolvidos (pessoas, máquinas, animais e mercados). Todos os processos e subprocessos precisam e podem ser constantemente questionados para obter ganhos através da otimização do sistema da cadeia como um todo. Isso vale para o manejo do gado (via smartchips instalados em cada animal), para o uso da automação desde a leitura de pasto, do fornecimento de comida no cocho até a otimização da compra de matérias-primas e do transporte dos animais. Uma vez que o consumidor não pagará mais por uma carne melhor, a cadeia precisa vasculhar todos os processos para reduzir custos.

A figura da “Pecuária Competitiva” retrata esse aspecto da informação total através da comunicação on-line, seja por dados, voz ou imagens. Trata-se do chamado smart farming. O “olho do dono” está instalado nos postes de irrigação do confinamento para observar os animais, o consumo da comida e a movimentação das máquinas. Tudo isso dia e noite, sem grande investimento adicional e com o resultado de uma padronização dos animais para o abate cada vez maior e melhor.

Estima-se em 20.000 o número de propriedades que possuam instalações para confinamento. Outras projeções preveem a duplicação da capacidade estática ao longo da próxima década e o aumento de animais confinados dos atuais 4 para 10 milhões. Considerando o processo da concentração contínua, também no setor do agro, é de se esperar que o número de fazendas com cochos para o confinamento encolherá enquanto a suplementação a pasto e o confinamento por unidade aumentarão nos próximos anos.

Perante esse cenário, voltamos a frisar a importância do papel de catalizador que o confinador ocupa na cadeia da carne. O confinamento já é um processo quase industrial, pois obedece as estritas regras de contenção de custos. Essa postura fortalece a tendência de transformar os pecuaristas em empresários.

Visão, planejamento, execução profissional, controle físico e financeiro e comparação com o estado da arte do setor (benchmarking) são os requisitos de uma empresa competitiva. Querendo ou não, a maioria dos pecuárias terá que avançar nesse caminho. Aí a comunicação para obtenção e processamento de dados e para negociações on-line na compra, gestão e venda – que são retratados na figura – são elementos-chave.

Como vimos, o ciclo do planejamento começa com as exigências do consumidor que espera um produto seguro. Através de programas do tipo 100% de qualidade de origem, ele acessará todas as etapas da produção por meio do celular, passando no código de barras na gôndola do supermercado. Além de produzir de forma responsável, é importante assegurar que a boa qualidade não seja prejudicada ao longo das diversas etapas de logística. O boi vai da fazenda para o curral do frigorífico. De lá, vai para o centro de distribuição para finalmente chegar ao ponto de venda. Existem diversas ocasiões para estragar o que foi bem produzido. A vigilância da logística tornar-se-á um aspecto relevante na redução dos custos e na preservação da qualidade (temperatura, danos físicos, etc.). E, finalmente, a observação de múltiplas situações do processo de manejo a pasto, da suplementação, da sanidade e da performance no confinamento constituem o que se passou a chamar de “inteligência da produção sustentável”.

Desde o varejo e o frigorífico até as empresas de insumos, todos contribuirão para um alinhamento cada vez maior ao longo processo de transformação de sêmen e alimento em carne apreciado pelo consumidor. Afinação nas metodologias e mecanismos de correção ajudarão na obtenção de resultados técnicos e econômicos condizentes com as necessidades de cada elo da cadeia e com o bolso do cliente. Nesse contexto, o confinamento ganhará crescente importância como ferramenta de correção da diversidade dos animais que chegam ao curral do frigorífico.

Enquanto continua difícil antecipar com certeza a evolução de preços, torna- -se indispensável trabalhar os custos. Esses são compostos por custos internos, desperdícios operacionais e custos externos. Somente uma maior integração de sistemas de gestão e comunicação entre empresas de insumos, produtores e frigoríficos e também o compartilhamento de experiências técnicas e de gestão entre produtores de perfil semelhante assegurará a competitividade da carne bovina como produto de luxo na mesa do consumidor. Alianças verticais entre os diversos elos da cadeia e alianças horizontais entre produtores em forma de pools de compra representam o caminho adequado para criar essa nova cultura sistêmica de um setor exageradamente pulverizado. Aqui se insere também a perspectiva da integração lavoura-pecuária (ILPF). Legislação cada vez mais severa, um cliente cada vez mais exigente e a explosão de novas soluções tecnológicas constituem o quadro de referência para o produtor e confinador que pretende reforçar a competitividade. O mapeamento contínuo de novos cenários, modelos de negócios mais inteligentes e uma atuação cada vez mais integrada são a melhor defesa perante o desconhecido. Pois nem o futuro é mais tão certo como nós costumávamos acreditar.

*Francisco Vila é consultor internacional