Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Abate de Fêmeas

 

Recomposição do rebanho a caminho

Gustavo Aguiar*

Quando analisamos a distribuição dos abates bovinos entre machos e fêmeas, fica claro que é a oferta de fêmeas que regula o mercado e a disponibilidade total de bovinos para abate.

O abate de machos apresenta um crescimento quase que constante, ao passo que a flutuação da oferta de fêmeas é maior e mais brusca.

Isso ocorre em resposta às variações de preços do boi gordo, reflexo dos estímulos de oferta e demanda que compõem o chamado ciclo pecuário de preço. Na figura 1, está o abate bovino de machos e fêmeas. Quando a arroba do boi gordo está em baixa (fundo dos ciclos pecuários), o que também vale para o preço do bezerro, ocorre um aumento do descarte de fêmeas, seja para ajudar a compor o caixa da fazenda (prejudicado pelo menor preço da arroba do boi) ou porque não compensa reter a vacada para produzir bezerros.

Isso ficou claro em anos como 2006 e 2012, quando a participação de fêmeas no abate bovino ficou praticamente igual à verificada para os machos.

Dessa forma, temos que a participação de fêmeas no abate e os preços corrigidos do boi gordo são grandezas inversamente proporcionais. Quando um aumenta, o outro diminui, e vice-versa.

Momento atual
Após anos de preços em queda em 2011 e 2012, a participação das vacas no abate de bovinos aumentou em 2011, 2012 e 2013.

Com a recuperação das cotações do boi em 2013, tendência mais do que reforçada em 2014, com as fortes altas do boi e bezerro, esse cenário mudou.

Considerando os primeiros semestres, comparamos a evolução do abate de fêmeas neste período desde 2004, a fim de projetar os resultados em 2014.

Figura 1 – Abate bovino mensal sob algum tipo de inspeção, em cabeças

Foi possível identificar a inversão de tendência em 2014 frente aos últimos anos. Com a estilingada dos preços no segundo semestre, é provável que essa tendência seja reforçada no fechamento deste ano.

Figura 2 – Participação de fêmeas no abate nos primeiros semestres desde 2004

Expectativas
O mercado é que define o volume de fêmeas que vai para o gancho. Nesse sentido, é importante traçarmos cenários para antecipar as tendências do abate de bovinos.

Considerando a média dos dois últimos ciclos pecuários, após a estabilização da moeda, a duração foi de oito anos considerando a soma dos anos com preços em alta e em baixa.

Levando em conta essa média (dos últimos dois ciclos) e que 2013 foi o primeiro ano de alta do atual ciclo de preços pecuários, ainda teríamos preços em alta até 2016.

Sendo conservador, e utilizando como parâmetro somente o último ciclo, que se estendeu por seis anos, ainda teríamos mais um ano de firmeza. O ano de 2015.

Porém, cuidado, as questões macroeconômicas podem atuar como uma pedra no sapato com relação ao consumo de carne bovina. Devemos também analisar de perto se a magnitude da alta em 2014 será capaz de alterar a dinâmica do ciclo, através de uma interferência negativa na demanda.

Apesar desse contraponto, a expectativa é de que a oferta restrita deverá manter os preços no mercado do boi favoráveis à produção no ano que vem. Se este cenário se confirmar, teremos um novo estímulo à retenção de matrizes e à recomposição do rebanho. Ao que tudo indica, esse deverá ser o caminho.


Entenda o ciclo pecuário

Da redação
Segundo o também consultor, Rogério Goulart, a definição mais apreciada é a do professor James Mintert, da Universidade do Kansas: “a história do negócio de gado tem sido uma série de ciclos de produtores de bezerro ampliando estoques em resposta aos lucros e, em última análise, a contração do tamanho do seu rebanho em resposta às perdas. Enquanto na história não há dois ciclos exatamente iguais, há um número de padrões repetitivos que ocorrem em ciclos que podem ser usados para julgar onde estamos e para onde caminharemos dentro de um determinado ciclo de gado.”

Inspirado nessa colocação, o ciclo pecuário é visto de forma mais clara acompanhando o abate de fêmeas. É o que significa o termo “ampliando estoques”, na colocação do professor Minter. As consequências diretas do abate de fêmeas são a oscilação do preço do bezerro e, posteriormente, a variação do preço do boi gordo.

Mas qual a razão disso? Quem define o preço da arroba do boi é a vaca. A disponibilidade de fêmeas gordas em dado momento é a principal força que exerce pressão sobre o preço dos machos. Quando falta fêmea, o preço do macho tende a se aquecer. Quando há fêmea em excesso, os preços do boi gordo esfriam. Sendo assim, a pecuária se sustenta sobre quatro variações distintas:

1. bezerro caro/barato;
2. retenção/abate de fêmeas;
3. arroba esfria/aquece;
4. aumento/diminuição na produção de bezerros.

 

*Gustavo Aguiar é zootecnista da Scot Consultoria – gm@scotconsultoria.com.br