Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuária de Leite

 

Balanço do mercado de leite e expectativas

Rafael Ribeiro de Lima Filho*

O planejamento e a antecipação dos riscos são fundamentais para o sucesso em qualquer atividade. Na pecuária leiteira não é diferente. Só no primeiro semestre de 2014, o segmento passou por diversos momentos distintos.

No primeiro trimestre, houve uma forte especulação acerca da produção por causa da seca em importantes bacias leiteiras. Como consequência, o mercado firmou- -se e os preços ao produtor subiram a partir de fevereiro. Os preços dos grãos, do boi e outras commodities também subiram com o clima adverso.

Figura 1 – Preço do leite ao produtor, média nacional, em R$ por litro

O segundo momento foi no início da entressafra, no final de abril. Mesmo com a captação em queda desde dezembro do ano passado, o volume captado em 2014 (média do primeiro semestre) foi 12,5% maior na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo o Índice Scot Consultoria para a Captação de Leite.

A demanda por leite e derivados, porém, não acompanhou esse incremento da oferta e o resultado foi o aumento dos estoques de lácteos nas indústrias, principalmente de leite longa vida e de leite em pó.

Os preços caíram na fazenda e demais elos da cadeia. Na Figura 1, estão os preços ao produtor, considerando a média brasileira nos dezoito estados pesquisados pela Scot Consultoria.

O terceiro momento foi entre junho e setembro. Apesar de o mercado de leite estar andando de lado em plena entressafra do Brasil Central e na Região Sudeste, os custos de produção caíram consideravelmente, principalmente com relação à alimentação concentrada.

O milho saiu de R$ 25,00 por saca de 60 quilos na região de Campinas, em São Paulo, em janeiro, e chegou a R$ 34,00 no começo de março.

A expressiva alta, de 36% em pouco mais de um mês, foi devido às perdas registradas na safra de verão e expectativa de redução da área plantada na segunda safra 2013/2014, naquela oportunidade.

Figura 2 – Preços médios do milho grão em Campinas/SP, em R$ por saca de 60 quilos

A partir de maio, no entanto, com um cenário melhor em termos de clima e expectativa de bom volume produzido na segunda safra no Brasil e nos Estados Unidos, os preços do grão recuaram para patamares próximos de R$ 21,00 por saca, os mais baixos desde o segundo semestre de 2010.

Lembrando que a queda no preço do milho pressiona para baixo as cotações dos alimentos alternativos, como o sorgo e a polpa cítrica.

No caso do farelo de soja, os preços no mercado interno também caíram, acompanhando a desvalorização da soja, cujos preços recuaram com um cenário positivo para a produção norte-americana, cuja colheita começou em setembro, e há perspectiva de aumento da área plantada no Brasil, em início de semeadura.

Do mesmo modo, a queda no preço do farelo de soja reflete diretamente na demanda e nas cotações de outros alimentos concentrados proteicos, como o farelo de algodão, o caroço de algodão e o farelo de amendoim.

Com a queda nos preços dos alimentos concentrados, houve investimento do produtor de leite na suplementação das vacas, principalmente considerando o cenário de falta de chuvas e condições ruins das pastagens na entressafra. Esse cenário contribuiu para o aumento da produção entre abril e maio.

Os preços de milho e da soja subiram fortemente a partir do final de outubro e começo de novembro, depois de um longo período em queda.

A pressão veio do atraso na colheita norte-americana (safra 2014/2015) e da demanda firme no mercado internacional.

Segundo levantamento da Scot Consultoria, na região de Campinas/ SP, a saca de 60 quilos ficou cotada, em média, em R$ 27,00 em novembro. A alta foi de 15,4% em relação à média de outubro.

Na comparação com o mesmo período do ano passado, a cotação do milho está 10% maior. No curto e médio prazos, o mercado futuro aponta para alta de preços no mercado interno até março de 2015.

Além dos fatores citados, a redução da área plantada no Brasil na primeira safra (2014/2015) colabora com esse cenário de preços firmes. O contraponto é a expectativa de estoques elevados ao final de 2014. No caso da soja, apesar das recentes altas, o preço do grão caiu 10,3% em relação a novembro de 2013.

A valorização da soja e a demanda firme por farelo de soja no mercado internacional repercutiram em alta dos preços do farelo em novembro, que retornaram a patamares próximos a R$ 1.100,00 e R$ 1.200,00 por tonelada em São Paulo.

Figura 3 – Preços médios da soja grão em Paranaguá/PR, em R$ por saca de 60 quilos

Início da safra e expectativas

O aumento da produção e o consumo patinando provocaram mais um mês de queda de preço ao produtor. O mercado esteve andando de lado desde abril.

De acordo com levantamento realizado pela Scot Consultoria, a queda de preço registrada no pagamento de outubro (referente a produção de setembro) foi de 0,6%. O produtor recebeu, em média, R$ 0,986 por litro.

Os volumes produzidos no Brasil Central e no Sudeste deverão aumentar com a safra, a partir de novembro, cujos números não estavam disponíveis. Por outro lado, na Região Sul, a produção tende a cair a partir de agora com o plantio de grãos da safra de verão e retirada das vacas das pastagens de inverno.

Do lado da demanda, espera-se um período de menor consumo no mercado interno, considerando as férias e as festas de final de ano. A expectativa é que a pressão de baixa mantenha-se no curto e médio prazos.

Segundo levantamento da Scot Consultoria, 62% dos laticínios acreditam em queda dos preços do leite ao produtor; 37%, em manutenção; e 1% estima alta no pagamento de novembro.

Em dezembro, a pressão de baixa deverá ganhar força, com 90% dos laticínios na Região Sul do País, acreditando em queda dos preços ao produtor.

Em 2014, apesar do aumento da oferta no mercado brasileiro e da pressão sobre os preços pagos aos produtores, na média anual, o preço deverá superar a média de 2013.

Isso porque no ano passado os preços subiram fortemente, mas saíram de um patamar próximo de R$ 0,80 por litro. Neste ano, apesar da pressão de baixa e mercado andando de lado, os preços mantiveram- se acima de R$ 0,93 por litro em todos os meses até então.

A Scot Consultoria estima um preço médio nacional de R$ 0,975 por litro de leite em 2014, 4,5% acima dos R$ 0,933 por litro em 2013.

Os custos de produção, porém, estão maiores. Apesar da queda nos preços dos grãos no primeiro semestre, a mão de obra, os combustíveis e os volumosos estão pesando mais no bolso do produtor de leite.

Segundo o Índice Scot Consultoria para o Custo de Produção da Pecuária Leiteira, os custos aumentaram 6,9% em 2014 (janeiro a outubro), em relação ao mesmo período do ano passado.

Figura 4 – Preço médio do leite em pó integral nos leilões da GDT, em US$ por tonelada

Mercado internacional

Os preços caíram fortemente no mercado internacional em 2014. O principal motivo foi o aumento da oferta mundial, tanto por parte de tradicionais exportadores, como a Nova Zelândia, como países menos tradicionais nas exportações de lácteos, como é o caso dos Estados Unidos, que aumentaram os volumes embarcados de queijos e leite em pó desde meados do ano passado.

No dia 18 de novembro foi realizado o leilão de número 128 pela plataforma Global Dairy Trade (GDT), que terminou com os produtos lácteos cotados, em média, em US$ 2,56 mil por tonelada.

A tonelada do leite em pó integral ficou cotada, em média, em US$ 2,40 mil, uma queda de 4,8% em relação ao leilão da primeira quinzena de novembro.

Na comparação com a segunda quinzena de novembro de 2013, a queda foi ainda maior, de 50,7%. Naquele período, a tonelada fora comercializada por US$ 4,87 mil.

O aumento da produção na Nova Zelândia, em função da safra, colabora com a pressão de baixa sobre os preços dos lácteos no mercado internacional e deve manter a pressão de baixa no curto e médio prazos.

Considerações finais

O mercado é dinâmico e não existe espaço para erros. O acompanhamento diário das informações e a criação de cenários auxiliam nas decisões, principalmente em anos de incertezas e grandes oscilações de preços, como ocorreu neste ano. O sucesso da compra de insumos e/ ou vendas dos produtos por vezes é a chave para o resultado positivo da atividade.

O tom do mercado de leite no segundo semestre de 2014 e em 2015 é de incertezas e pressão de baixa, considerando o período de safra no Brasil Central e na Região Sudeste, além da safra na Oceania, que aumenta a pressão de baixa sobre os preços dos lácteos no mercado internacional.

Os investimentos na atividade deverão ser comedidos, visto as recentes pressões negativas causadas pelo aumento da disponibilidade de leite e lácteos no mercado interno.

Aliás, a busca de mercados no exterior e o aumento da demanda interna são necessários para o desenvolvimento do setor, visto que esses choques de oferta e demanda, cada vez mais frequentes, afetam os preços e a estrutura do mercado.

No Brasil, mudanças conjunturais como a liquidação de ativos de laticínios em dificuldade e a saída de empresas do setor, entre outras, devem movimentar o mercado de leite e despertar a atenção de multinacionais para investimentos no País, como já vem ocorrendo.

*Rafael Ribeiro é zootecnista da Scot Consultoria