Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Pecuária de Corte

 

O salto da carne bovina em 2014

Muitas incertezas e expectativas rondaram o setor pecuário em 2014. Neste ano, tivemos acontecimentos importantes para o País, como a realização da Copa do Mundo e as eleições presidenciais. Findados esses acontecimentos, podemos dizer que a Copa nos deixou um resultado positivo, colocando o Brasil em evidência mundo afora. E com fim da campanha eleitoral, espera-se o fortalecimento da economia. Muito será cobrado do governo, visto que o crescimento econômico atual ficou muito longe do previsto. O que se aguarda para os próximos quatro anos é mais incentivo e novas políticas para o setor do agronegócio, que vem sendo o carro-chefe da economia brasileira.

Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF - 16/10 a 14/11 de 2014

O Brasil lidera como potência do agronegócio mundial e de fato há uma crescente demanda mundial por alimentos. O País tem condições de suprir parte dessa demanda, principalmente no setor de carnes, através da intensificação da produção pecuária.

Fazendo um balanço do ano de 2014, percebemos que o setor pecuário avançou em muitos aspectos, seja tecnológico, sanitário, de manejo e de produtividade. A pecuária caminha rumo à modernidade, promovendo mudanças importantes, como a intensificação da atividade, a implantação de ILP e a redução da área de pastagem. Hoje o Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, e ainda tem potencial para competir com outros grandes exportadores, pois possui um produto competitivo e de qualidade.

Em 2014 tivemos muitas conquistas no cenário da carne bovina, desde a recuperação de importantes mercados, antes fechados devido ao caso de encefalopatia espongiforme bovina (BSE), ocorrido no País, a um possível acesso da carne brasileira in natura aos Estados Unidos, esperada para o início de 2015. Outra conquista significativa foi a retomada das exportações para a China, mercado gigantesco e de extrema importância para o crescimento das exportações brasileiras, visto que o consumo de carne pelos chineses vem aumentando, devido ao acréscimo da renda e uma dieta mais rica. Outra negociação que também está sendo retomada este ano é com a Arábia Saudita, que havia imposto restrição à carne brasileira desde 2012. Para que as negociações sejam finalizadas com os sauditas ainda depende da visita de um corpo técnico do país ao Brasil; é esperado que a finalização da reabertura desse mercado aconteça no início de 2015.

Ainda no cenário internacional, outro fato marcante e positivo para o Brasil em 2014 foi o embargo da Rússia à importação de produtos alimentícios dos EUA, da União Europeia, do Canadá, da Austrália e da Noruega, devido à crise na Ucrânia. O Brasil acabou preenchendo parte da lacuna deixada por esses exportadores, expandindo a exportação da carne brasileira para aquele país, já que a Rússia é um grande consumidor do produto brasileiro: só no mês de outubro a Rússia importou 36,8 mil toneladas de carne bovina.

Nas questões sanitárias também tivemos resultados positivos. O Brasil permaneceu com status de risco “insignificante” para a doença BSE, conferido pela Organização Mundial da Saúde Animal (OIE). O País também avançou na luta contra erradicação da febre aftosa e conseguiu livrar praticamente a totalidade do rebanho de bovinos e bubalinos do risco da doença, elaborando uma ação eficiente de vacinação em massa. No total, são 23 estados e o Distrito Federal reconhecidos internacionalmente como livres de febre aftosa com vacinação e Santa Catarina continua sendo o único estado livre da doença sem vacinação.

O Brasil continua investindo na conquista de novos mercados, promovendo a qualidade de seu produto mundo afora. Neste ano, a carne brasileira esteve em destaque no mundo durante várias ações de promoção e divulgação da qualidade do produto. A divulgação foi satisfatória, com destaque para a participação da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) em feiras importantes como a World Food Moscow, onde estiveram presentes 36 empresas dos setores de carne bovina; Food&HotelAsia (FHA), em Cingapura, e a principal feira de gastronomia e bebidas do mundo, a Salon International de l’Alimentation (Sial), que aconteceu em Paris. A Abiec também promoveu o túnel da sustentabilidade, que levou aos europeus informações sobre pecuária sustentável e os avanços do setor.

Com relação às exportações, tivemos um cenário positivo para o ano de 2014, embora tenha havido uma retração no mês de setembro, tanto no volume exportado quanto no faturamento. As exportações de carne bovina voltaram a crescer no mês de outubro, registrando alta de 20%. Hong Kong e Rússia continuam sendo os maiores importadores da carne brasileira, sendo que no acumulado do ano que compreende os meses de janeiro a outubro, Hong Kong permanece ocupando o primeiro lugar com 326.865,66 mil toneladas de carnes importadas, seguido da Rússia com 290.165,96 toneladas. De acordo com a Abiec, os principais mercados importadores estão mantendo um ritmo crescente nas compras, gerando o resultado positivo para o acumulado do ano.

Média da evolução do preço a prazo da @ de janeiro a novembro de 2014

Com relação à produção, um dos maiores problemas enfrentados durante o ano pelo produtor foi a seca prolongada, que afetou as pastagens, comprometendo o bom desempenho da produção pecuária, principalmente no Sudeste, no Centro-Oeste e no Nordeste, regiões mais afetadas pela seca. Em algumas regiões também houve a incidência da síndrome da morte do braquiarão e ataques de pragas, como a cigarrinha. Mas por outro lado a seca contribuiu para a restrição da oferta, tanto de animais para abate quanto de animais para reposição, fazendo com o que a arroba permanecesse em patamares mais elevados.

Embora o setor tenha enfrentado alguns entraves, podemos afirmar que, no geral, o mercado da carne bovina brasileira portou-se dentro do esperado para o ano, trazendo boas remunerações para os pecuaristas. O preço da arroba alcançou valores recordes, sendo sustentado pela crescente demanda e pelo bom desempenho das exportações.

Após um cenário baixista nos últimos anos, os preços da arroba do boi gordo registrados durante o ano de 2014 agradaram aos produtores. Analisando o mês de novembro, a arroba chegou a ser negociada a R$ 143,00 à vista, referência para o estado de São Paulo, e R$ 136,67 (à vista) para o Mato Grosso do Sul. No mesmo período do ano passado tivemos negociações da arroba do boi gordo no estado de São Paulo a R$ 108,00 (à vista), portanto, com alta de 32,41%. Já o preço do bezerro chegou a ser negociado nos mesmos estados a R$ 1.087,50 cab e R$ 1.047,50 cab, respectivamente.

Diante desses acontecimentos, nos perguntamos como o mercado vai reagir em 2015; porém, fazer previsões é complicado, visto que temos vários fatores que oscilam, tais como o clima, o câmbio, o preço das commodities e dos insumos. Lógico que o produtor espera por maiores remunerações e menores custos, mas o cenário para o próximo ano deve ser de algumas altas, principalmente dos grãos. O milho deverá ter uma queda no Valor Bruto da Produção (VBP) e certamente essa alta deverá interferir na hora de confinar os animais, já que o milho é um dos principais componentes da ração.

Outra variável é o clima. A estação das águas deveria ter começado em outubro e o atraso nas chuvas poderá trazer reflexos bem consideráveis, como o atraso na engorda do gado existente. O esperado é que a seca não persista e logo entre o período das chuvas, permitindo a recuperação das pastagens.

Deságio do preço do boi gordo por UF - 16/10 a 14/11

Outro impasse para o mercado será uma dificuldade na reposição de bezerros. Nos últimos anos tivemos um abate maior de matrizes. Desde então as ofertas de machos estão mais curtas frente à demanda. O aumento dos preços dessa categoria vem sendo crescente durante todo ano e deverá se manter elevado em 2015. Com o valor da arroba nas alturas, o criador se vê estimulado a vender vaca gorda e novilha gorda, diminuindo a geração de bezerros e consequentemente a de gado gordo no futuro próximo.

Pelo visto, a pouca oferta de animais para abate vai continuar ditando o preço da arroba. Uma pergunta a se fazer é se o consumidor vai estar mais capitalizado e disposto a pagar um preço mais salgado pela carne. Ou seja, diante dos preços elevados da carne, o consumo vai permanecer em alta?

Quanto ao mercado internacional, há espaço para o Brasil continuar crescendo. No momento as principais negociações, como já foi dito anteriormente, são com o mercado chinês, finalmente foi assinado o protocolo de oficialização da liberação de venda de carne bovina para a China. De acordo com a Abiec, a expectativa do governo brasileiro é vender de 800 milhões de dólares a 1,2 bilhão de dólares de carne para China em 2015. Outro país cujas negociações estão em andamento é a Arábia Saudita, a conclusão da suspensão do embargo imposto por esse país está prevista para janeiro de 2015. O Brasil também está de olho em novos mercados, com destaque para Indonésia e Tailândia, os quais dependem de entraves burocráticos para se concretizar. A abertura do mercado americano também é esperada para o início de 2015, sendo que houve um atraso no processo, devido às eleições legislativas do país. No momento, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) analisa os comentários feitos por cidadãos e partes interessadas durante o processo de consulta pública.

O Brasil permanece em uma posição favorável com destaque internacional frente a seus principais concorrentes no setor, que são Estados Unidos e Austrália, que estão passando por um momento mais fraco na produção e que deverá continuar recuando no próximo ano. O País se manterá como principal exportador de carne bovina, suprindo demandas advindas principalmente do mercado Russo.

Ao comparamos o quadro “Boi Gordo no Mundo”, analisado entre 16/10 e 14/11/2014, com o período anterior que compreendeu 16/09 a 14/10/2014, as cotações da arroba do boi gordo apresentaram alta de 1,34% no Brasil; 1,01%, na Argentina; e 5,11%, nos EUA. Já na Austrália, houve queda de 0,66%.

O gráfico “Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF”, para o período analisado compreendido entre os dias 16/10 e 14/11/2014, mostra a evolução dos preços da @ pagos a prazo nas diferentes regiões. O preço do boi gordo vem tendo sustentação desde o início do ano. Em alguns estados, tivemos valores recordes, como é o caso do estado de São Paulo, onde a arroba chegou a valer R$ 145,00 (a prazo) e no estado de Mato Grosso do Sul, R$ 139,00 (a prazo).

O gráfico da página 8 mostra a evolução do preço da arroba a prazo de janeiro a novembro de 2014.

Analisando o estado de São Paulo, por exemplo, as maiores variações para o preço da arroba a prazo ocorreram nos meses de março, setembro e novembro. Em março, a arroba foi negociada a R$ 124,80, variação de 5,32% em relação ao mês de fevereiro. Já em setembro, a arroba chegou a valer R$ 129,70, com variação de 4,66% ante agosto e, no mês de novembro, a arroba foi negociada a R$ 143,10, variação de 6,54% frente a outubro.

Analisando o gráfico “Deságio do preço do boi gordo por UF”, no período de 16/10 e 14/11/2014,

observamos que a média do deságio pago aos pecuaristas entre o preço à vista e o preço a prazo (30 dias) foi de 1,15%.

O preço do bezerro continua disparado, atingindo novos patamares recordes. Essa elevação no preço do bezerro deve-se principalmente à oferta enxuta de animais.

O preço médio do bezerro foi de R$ 955,13/cab para o período de 16/10 e 14/11/2014, alta de 3,38% nas últimas quatro semanas. A alta foi geral nas principais praças pesquisadas, com o bezerro sendo negociado a R$ 1.087,73/cab no estado de SP. Em MG, o bezerro passou a valer R$ 890,00/cab.; em GO, o valor negociado foi de R$ 997,73/cab.; no MS, R$ 1.047,73/cab.; no MT, R$ 945,45/cab.; no PA, R$ 810,00/ cab; e no PR, R$ 1.025,45. No RS, o bezerro subiu para R$ 837,73/cab.

O boi magro apresentou valorização em quase todas as praças pesquisadas, exceto no RS, onde o valor caiu para 1.490,00/cab. Já no estado de SP, o boi magro avançou para R$ 1.639,09/cab.; em MG, R$ 1.490,91/cab.; em GO, R$ 1.597,27/cab.; no MS, R$ 1.598,18/ cab.; no MT, R$ 1.497,73; no PA, R$ 1.415,00/cab; e no PR, R$ 1.586,82/cab.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e boi gordo ficaram em 2,19. Para boi magro/boi gordo. ficou em 1,35, não sofrendo alterações significativas.

Enfim, o mercado da carne bovina teve um bom desempenho até agora e a principal contribuição para a alta dos preços da arroba foi a oferta restrita de animais prontos para o abate e o momento favorável das exportações. Com a proximidade das festas de final de ano, o consumo tende a ficar favorecido e com isso os preços da carne se manterão firmes.

Apesar de um balanço positivo para mercado da carne, é preciso ficar atento às mudanças. Não sabemos que rumo a economia vai tomar e nem temos como controlar variáveis como clima e preços.

Diante disso, o planejamento torna-se de muita importância para a atividade, sendo necessário para o aprimoramento dos processos de avaliação e controle, auxiliando na tomada de decisão e assegurando os objetivos do negócio. O planejamento permite ao gestor uma análise mais precisa do negócio ou de um determinado problema. É dentro desse contexto que o produtor rural precisa atuar.

O produtor precisa ter alternativas para minimizar alguns fatores negativos, como a seca, por exemplo. É necessária a adoção de um planejamento agora para enfrentar o período de seca para o próximo ano. Primeiramente, há de se conhecer as características climáticas de sua região, depois, ter noção de qual a capacidade de suporte da sua pastagem durante a seca. Se a pastagem não suportar a lotação, deve- -se ter alternativas, como a suplementação, o uso de confinamento e a conservação de forragem.

Antony Sewell e Rita Marquete Boviplan Consultoria