Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Caindo na Braquiária

 

Consultores de plantão

Alexandre Zadra

Diz a passagem que um experiente criador pastoreava suas ovelhas calmamente no campo quando inesperadamente um carro estacionou ao largo da cerca, descendo então um homem de terno italiano de fino corte e cabelo perfeitamente aparado e bem penteado. Antes de o pastor cumprimentá-lo, o esguio rapaz que aparentava não mais de 30 anos completos lançou um desafio – "Nobre senhor, quero aqui lançar um desafio, se em menos de 30 segundos eu acertar o número total de animais que tem aqui e ainda dizer quantos são por categoria, posso carregar um deles para mim ?". O experiente pastor aceitou e, em menos de 30 segundos, o rapaz usuário de um programa ultramoderno de identificação animal deu o veredito levando o prêmio até o carro em seu colo. Antes mesmo de o jovem mancebo chegar ao carro, o pastor o interviu, questionando-o:

– Distinto rapaz, posso lhe dizer sua profissão? Você é consultor, não?

– Como adivinhou senhor? - inqueriu o rapaz.

– É fácil distinguir um consultor, você veio sem eu pedir, me deu uma informação que eu já tinha e se percebe que não entende nada do meu negocio, pois levou meu cachorro e não uma ovelha.

Muito bem, essa pequena paródia espelha claramente a visão tacanha que boa parte dos consultores de escritório possui, dando muitas vezes conselhos que não condizem com a realidade futura do negócio. Tiago Corazza é o nome do agrônomo-empresário-pecuarista postado reclinadamente na cadeira de seu escritório em Piracicaba, exatamente na posição que gostamos de estar quando negociamos. Ele é, sem dúvida, um dos melhores selecionadores de Nelore de campo, onde também trabalha com cruzamento industrial, inseminando a vacada de pior mérito genético com sêmen de touros provados da raça Angus. Esse criterioso trabalho de quase 20 anos de melhoramento resultou no merecido 1º prêmio no concurso de carcaça de animais cruza Angus em Bataguassu, demonstrando que a seleção das matrizes Nelore buscando precocidade e habilidade materna leva inevitavelmente a um aumento real de ganho no peso e carcaça dos animais comerciais do rebanho por área.

E foi com Tiago que mais uma passagem indevida de um consultor foi registrada, quando o ignóbil conselheiro ora contratado para que se pudesse talvez desfrutar de uma visão diferente da propriedade aconselhou-o a matar todas suas vacas, partindo para engorda, pois seria assim que a fazenda teria lucro maior. Vale lembrar que Tiago vende sempre sua boiada com prêmios acima de média do mercado e com um giro muito maior que seus vizinhos por se tratar de abates precoces e venda de tourinhos selecionados a campo com interessantes valores agregados, obliterando a possibilidade de melhores ganhos por hectare com o sistema de engorda em dias atuais de boi magro escasso e caro.

Dias atrás ouvi de um engenheiro florestal ligado a projetos de plantio de eucalipto que o boi é um mero funcionário da madeira no sistema silvo-pastoril, no qual quem, na verdade, gera retorno inigualável são as árvores e não o gado. Para sua surpresa, fazendo contas simples de custos de implantação por hectare de cada projeto, provei que a pecuária de ciclo curto é muito mais lucrativa que o eucalipto, além de ser de baixo risco, pois se usarmos adubação, irrigação em níveis de investimentos iguais na terra para os dois sistemas, utilizando material genético de primeira para ambos, anualmente conseguimos 30 a 40@ de ganho por hectare com o gado recriado no sistema silvo-pastoril, enquanto temos um retorno de 22@ por hectare na área da floresta.

Outra peroração lamurienta que cansamos de ouvir na pecuária é a respeito da perda do poder de compra do valor da arroba atual, onde muitos consultores afirmam que há 20 anos tínhamos uma pecuária mais sustentável, quero aqui lembrar que, em 1990, o valor da arroba era algo em torno de US$ 18,00 e, atualmente, temos a mesma valendo cerca de US$ 50,00. Um saco de sal, em 1990, custava ao redor de US$ 10,00 e, hoje, vale US$ 20,00. Logicamente devemos analisar minuciosamente a questão em termos de valores de salário mínimo e outros custos operacionais das fazendas, comparando-os com imparcialidade, mas devemos levar em consideração que a matéria-prima para se engordar um boi está disponível a preços mais atrativos e o acesso do pecuarista ao mercado especial também, levando a pecuária a atingir níveis de produtividade excepcionais por hectare.

Alexandre Zadra - Zootecnista
zadra@crigenetica.com.br