Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Logística

 

Caindo nos mesmos buracos

Pecuária brasileira ainda esbarra nos problemas logísticos. Más condições das estradas são o maior agravante

Bruno Santos
bruno@revistaag.com.br

A agropecuária brasileira tem se esforçado para cumprir o desafio de suprir a grande demanda mundial por alimentos. Produzir mais em menos área tornou-se prioridade em qualquer propriedade agrícola ou pecuária. Mas, se da porteira pra dentro o pecuarista vem trabalhando arduamente para cumprir tal missão, é do lado de fora que estão as preocupações.

Viu-se recentemente o caos logístico dos grãos, em especial do milho e da soja. Encheu de orgulho uma superprodução, que rapidamente deu lugar à vergonha, ao ver toneladas estocadas em caminhões parados nos acostamentos das rodovias sem conseguirem descarregar nos portos, acarretando prejuízos imensuráveis.

Contudo, não é apenas a agricultura que é acometida com esse problema logístico do transporte, a pecuária vem sentido na pele, ou melhor, na carne, o quão grande é esse impasse. Atualmente, mais de 95% do transporte é feito via rede rodoviária, o que mostra o tamanho da necessidade de uma malha viária eficiente.

Segundo os resultados do levantamento periódico divulgado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), que analisou, praticamente, toda a extensão das rodovias federais e estaduais mais relevantes no País, atingindo, em 2012, 95.707 quilômetros pesquisados de estradas pavimentadas, a classificação das vias, no que diz respeito à situação geral, aponta que 62,7% dos trechos avaliados (60.053 km) tiveram avaliação negativa: entre regular, ruim e péssimo. Já os 35.654 km restantes (37,3%), estão distribuídos e classificados entre ótimo e bom.

Segundo o professor e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO), Mateus J. R. Paranhos Costa, a análise mostra a situação deficiente de uma expressiva extensão da malha rodoviária asfaltada. "Com isso, principalmente em épocas de chuvas, todo o planejamento que se fizer para o transporte pode fracassar, porque as condições das estradas acabam quase que inviabilizando o tráfego eficiente. Há relatos de motoristas que transportam bovinos de viagens que, teoricamente, deveriam durar 10 horas e se transformaram em três dias", cita.

Deve-se principalmente a defeitos como buracos, afundamentos e ondulações, que podem comprometer a segurança do usuário e, além disso, aumentar o tempo e o custo das viagens. O relatório da CNT mostrou ainda que, na ponderação do pavimento, cerca de 33,4% são classificados como regulares, 33,4%, como ruins e 3,9%, como péssimo. Destaca-se que a situação crítica ocorre em 12.037 km (12,5%), nos quais o nível de segurança e a produtividade das viagens ficam bastante comprometidos.

A única maneira de deixar nossa malha viária eficiente para que atenda a demanda crescente é investindo, cita César Alves

A situação mais crítica acontece nos estados do Norte do Brasil. Dos 10.393 km analisados na região, 5.222 km (50,2%) foram classificados como regulares e 1.380 km (13,3%), péssimos, estando no Amazonas os piores. O estado, que teve 947 km de suas vias pavimentadas analisadas pela CNT, conta com 554 km (58,5%) qualificados como regular, 248 km (26,2%), como ruins e a expressiva marca de 145 km (15,3%) avaliados como péssimos.

IMPACTOS NA PECUÁRIA

Milhares de bovinos são transportados todos os dias em nosso País, sendo os abatedouros o principal destino. Com estradas ruins, além da demora na chegada ao frigorífico, o principal agravamento está nos hematomas nas carcaças dos animais, causados durante os atritos na viagem.

Para o prof. Mateus Paranhos, outro problema que existe é a falta de organização do setor para definir uma estratégia para o setor de bovinos. "Podemos dizer que a logística do transporte do bovino vivo é muito precária. Não existe planejamento detalhado das rotas e não há protocolos para situações de emergência. Fica tudo para ser decidido na hora que o problema acontece", enfatiza.

Na maioria dos casos, a responsabilidade do transporte entre a propriedade e o abatedouro é do próprio frigorífico, por própria frota ou através de serviços terceirizados. Todavia, é descontada do produtor toda a perda de carne que houver decorrente dos hematomas sofridos pelo animal durante a viagem. O pecuarista pouco se envolve com o transporte e isso, de certa forma, o inocenta do problema logístico, mas, segundo Paranhos, o produtor tem parcela de culpa em dois momentos do processo. O primeiro é achar que não corre risco por se envolver pouco e se eximir da responsabilidade, o que é um grande equívoco. "Muitas vezes o boi é vendido no peso morto e a definição do peso da carcaça só é feita depois do abate. E tudo que resulte em hematomas nas carcaças durante o trajeto é descontado do próprio criador". A segunda falha grave é que muitas vezes os caminhos dentro das fazendas também estão em condições precárias e muitos não prestam atenção em como isso dificulta a vida dos motoristas. Muitas vezes, o problema não é a distância do percurso em si, mas, sim, a duração. Um caminho curto em estrada péssima pode demorar tanto quanto um caminho longo.

Todos os hematomas na carcaça causados com o transporte inadequado são descontados do produtor

O coordenador do grupo ETCO conta que, recentemente, acompanhou um embarque entre uma fazenda e um frigorífico. A propriedade, que estava a 40 km do asfalto, tinha 2 km de estrada muito ruim e o resto era rodovia de excelente qualidade. Porém, esses 2 km foram suficientes para ocasionar a quebra de uma ponta do eixo do caminhão, deixando-o parado durante muitas horas. "Foi um desastre, morreu vaca dentro do caminhão, além de outros animais ficarem muito machucados. Isso mostra como um problema pontual pode causar um transtorno imensurável", revela.

Como se pode observar na tabela, quanto mais longa a viagem em termos de horas, maiores são os hematomas e as perdas de carne. Para ter uma ideia, em uma viagem de 6 horas, cada animal pode perder 630 gramas de peso e ter, em média, 1,25 hematoma. Já em uma viagem de 12 horas, cada animal perde cerca de 1,2 kg e pode ter, em média, até 2,45 hematomas. Cada machucado pode ocasionar a perda de até um quilo de carcaça.

OUTROS GARGALOS

As estradas vicinais (vias de caráter secundário, na maioria das vezes municipais) apresentam ainda maiores problemas que as rodovias pavimentadas. Por não terem asfaltamento, dificultam a entrada e o trânsito de grandes caminhões, o que impacta diretamente no frete. É o que aponta o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicap) Antônio Márcio Buainain. Segundo ele, o custo do frete está ligado à qualidade das estradas, pois envolve muito os custos de manutenção. "Em estradas ruins se gasta mais combustível, pneu, suspensão e os veículos quebram mais. Evidente que a transportadora tem de contabilizar tudo isso no frete", pontua Buainain.

Em estradas ruins, os gastos são bem maiores e é evidente que a transportadora tem que contabilizar tudo isso no frete, diz Buainain

E a má qualidade das vias muitas vezes restringe o acesso do próprio veículo. Onde se tem estradas melhores pode se usar transportadores maiores. Conforme explica o professor, o caminhão de piso duplo é o mais adequado no ponto de vista econômico. Para se ter uma ideia, nas principais praças, o frete de uma carreta dessas está por volta de R$ 3,50/cabeça por quilômetro rodado, enquanto o frete de um caminhão comum está por volta de R$ 2,70.

Porém, em uma carreta de dois andares cabem quase três vezes mais animais, ou seja, reduz muito o custo unitário. "É um equipamento muito eficiente, mas tem suas limitações, pois uma carreta de piso duplo não vai a todo lugar", conceitua o docente da Unicamp. Um ponto falho é em relação ao bem-estar animal, pois a rampa que liga um piso ao outro, normalmente, é muito íngreme, aumentando a probabilidade de acidentes.

A má estrutura viária e o elevado de preço de frete estão provocando um impacto econômico importante e negativo na pecuária. Segundo Buainain, essa realidade é ainda mais proibitiva ao pequeno e médio pecuarista. O sistema distributivo existente hoje os penaliza pela má rede de transporte, custo do frete e concentração da produção.

Outra influência negativa é a limitação do comércio de gado. Como o frete é muito caro, o criador é obrigado a negociar no mercado local. "Antigamente transportava-se grandes boiadas em trens do Mato Grosso do Sul para São Paulo, por exemplo. Hoje, isso não é possível", cita o professor.

SAÍDAS

Todos os especialistas buscam soluções principalmente no curto prazo para o caos logístico da pecuária no Brasil, mas como mais de 95% do transporte é feito por rodovias, fica difícil imaginar outra solução. Para o analista de pecuária e consultor da MB Associados Consultoria, César de Castro Alves, a solução é investir forte nas rodovias. "É a única maneira de deixar nossa malha eficiente. Talvez a parceria público-privada possa ser uma boa saída, principalmente na melhoria das estradas vicinais", acrescenta.

O consultor lembra ainda a necessidade de um planejamento governamental para que os reparos nas vias sejam definitivos e duradouros, coisa que não acontece. "Tem muitos lugares que eles arrumam os buracos, mas no ano seguinte fica tudo ruim de novo. Tem de ser feito um trabalho reforçado e de qualidade", conclui Alves.


Boas práticas com o transporte

? Planejamento do transporte (documentação necessária);
? Planejamento da viagem com definições de início, término e paradas;
? Veículo adequado, respeitando a lotação e o bem-estar dos animais;
? Cuidados especiais no embarque e no desembarque;
? Plano de ação para situações de emergência.