Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Suplementação

 

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Forma eficaz de usar ureia de liberação controlada

Gustavo Rodrigues Alves*

O Brasil é o único país entre os produtores mundiais de carne e de leite que ainda tem um grande potencial para crescimento numérico do rebanho bovino. Este aumento pode ocorrer por meio da melhoria dos índices reprodutivos e do incremento da produtividade, seja pela quantidade de animais abatidos ou pelo índice de desfrute médio, com ciclos de produção mais curtos e eficientes.

Contudo, apesar de o País ser detentor do maior rebanho bovino comercial do mundo, os índices de produtividade ainda são baixos. Esta situação tem sido atribuída, principalmente, ao fato de os animais serem criados, predominantemente, em sistemas extensivos, nos quais, em função da estacionalidade das plantas forrageiras, alternamse períodos de ganho e perda de peso, devido a maior ou menor ingestão de matéria seca.

O grande desafio a ser vencido na pecuária brasileira é a redução da diferença de ingestão de matéria seca entre o período das águas, que pode variar de 2,4% a 2,8% do PV (Peso Vivo do animal), e o período da seca, que pode variar de 1,7% a 2,0% do PV, dependendo do tipo de gramínea. Só isso provocaria um ganho adicional de 18,3% na oferta de carne ao abate - uma diminuição de 2,4 meses no Intervalo Entre Partos (IEP) e um aumento de 9,2% na produção de leite. Para se alcançar este objetivo, será fundamental o investimento em suplementação mineral e suplementação mineral proteico- energética diferenciada durante todo o ano. Assim sendo, o grande desafio de todos os técnicos e criadores é aumentar a ingestão de matéria seca pelos animais em um rebanho, seja ele de corte ou de leite, principalmente quando as pastagens estão secas e bem maduras. Quanto maior for o apetite do animal pela forragem ofertada, mesmo as "pastagens amareladas", maiores serão as chances de boa produtividade animal e lucro para os criadores.

Um bovino, ao se alimentar, está fornecendo nutrientes para sua microbiota ruminal, formada por fungos, bactérias e protozoários que utilizarão estes alimentos e, então, fornecerão nutrientes que alimentarão o animal. Os ruminantes vivem diretamente dos produtos decorrentes da fermentação do alimento pela microbiota ruminal.

Concluindo, quando se alimenta um ruminante, na verdade alimentase a microbiota ruminal que vive em simbiose com ele. Por isso, no balanceamento de uma dieta para o ruminante, deve-se levar em consideração a microbiota ruminal e suas necessidades básicas para um perfeito funcionamento do rúmen. Segundo Hungate (1966), os ruminantes vivem mais dos produtos da atividade bacteriana e dos próprios micro-organismos do que dos alimentos ingeridos.

Uma suplementação adequada deve maximizar o consumo e a digestibilidade da forragem disponível. Desta forma, o fornecimento de um suplemento mineral, associado à proteína verdadeira e na forma de NNP (Ureia), proporciona um aumento no teor proteico da dieta dos bovinos e a adequada nutrição da flora ruminal, aumentando a população e melhorando o processo digestivo dos animais.

A proteína é o ingrediente de maior custo unitário nas rações e, por isso, deve merecer maior atenção no momento de sua formulação. A substituição parcial da proteína dos farelos pelo Nitrogênio Não Proteico (NNP) da ureia em dietas para ruminantes é possível somente em virtude da capacidade dos micro-organismos ruminais de converter o NNP em proteína de alto valor biológico.

A principal fonte de NNP utilizada na dieta de ruminantes é a ureia, devido a seu custo, disponibilidade e emprego. Por se tratar de uma boa fonte de proteína degradável no rúmen, a ureia possibilita a redução da deficiência proteica de bovinos.

A ureia possui características específicas, como ser deficiente em todos os minerais, não possuir valor energético, ser extremamente solúvel no rúmen e rapidamente convertida em amônia. Portanto, se fornecida de forma incorreta, pode levar a distúrbios metabólicos graves.

Para melhor eficiência no aproveitamento do nitrogênio que se transforma em amônia, oriundos do desdobramento da proteína verdadeira e do NNP, é imprescindível a presença de energia no rúmen.

O fator mais importante que influencia a quantidade de ureia a ser usada por um ruminante é a energia digestível, ou de nutrientes digestíveis totais (NDT), contida na dieta. A presença de grãos potencializa a eficiência na utilização da ureia. Por isso, as misturas múltiplas ou os proteinados, quando bem utilizados, são ferramentas tecnológicas eficazes para a engorda de animais a pasto com eficiência e baixo investimento relativo, tendo uma boa relação custo/benefício.

A suplementação adequada aumenta a população microbiana ruminal, melhorando a eficiência da digestão da forragem e permitindo que o animal ingira mais matéria seca. Para utilização de ureia, alguns procedimentos devem ser seguidos para se reduzir os riscos de intoxicação:

? utilizar cochos cobertos e ligeiramente inclinados a fim de evitar acúmulo de água, dissolução da ureia e intoxicação;
? introduzir a ureia gradativamente, permitindo a adaptação dos microorganismos a doses crescentes. Se houver alguma interrupção no fornecimento, reiniciar a adaptação;
? evitar introdução de ureia em lotes famintos, mantendo ainda lotes homogêneos de animais;
? evitar a ingestão de uma única dose diária.

Apesar dos benefícios nutricionais indiscutíveis da utilização de ureia nas formulações de dietas, muitos técnicos e criadores ainda têm receio, por causa dos riscos de intoxicação.

Assim, novas pesquisas surgiram recentemente no mercado, crescendo o uso de uma nova tecnologia: a ureia de liberação controlada. A ureia recebe o revestimento de um polímero que torna a degradação no rúmen mais lenta, assemelhando-se à de um farelo proteico. O uso dessa fonte de nitrogênio não proteico tem sido recomendado não só por ser indutor de melhor desempenho, mas também pela ausência de toxicidade e, possivelmente, pela melhor relação custo/benefício, devido à substituição da soja na composição do suplemento.

Para um melhor desempenho animal, considere um período de adaptação dos animais à nova dieta de pelo menos dez dias, substituindo parcialmente a dieta antiga pela nova.

Para utilização a campo, caso a propriedade possua um técnico ou consultor responsável pelas formulações, pode seguir a seguinte receita:

1) Utilizar até 5% de ureia de liberação controlada na formulação do concentrado, quando este é fornecido separado do volumoso, respeitando o limite de 1,5% de ureia de liberação controlada na dieta total;

2) Utilizar até 40% de NNP em relação ao N total da dieta; 3) Fornecer fontes de energia de diferentes degradabilidades para sincronizar com a hidrólise da ureia;

3) Fornecer fontes de energia de diferentes degradabilidades para sincronizar com a hidrólise da ureia;

4) Proporcionar uma mistura uniforme;

5) Em propriedades onde não há técnico ou consultor, devese monitorar a dieta, limitando a ingestão diária de ureia de liberação controlada em 40 g para cada 100 kg de PV ou um máximo de 240 g por animal/dia. Esta quantidade deve ser dividida em dois ou três tratos diários e pode ser adicionada ao concentrado, silagem, cana-deaçúcar, etc. Pode ser adicionada no cocho ou no momento da ordenha.

Ao substituir o farelo de soja por um produto com alta concentração de nitrogênio não proteico de liberação controlada (39%) e enxofre (11%), durante um teste de performance, houve uma redução do custo do quilo da ração, que passou de R$ 0,5132 para R$ 0,4982 - uma economia de 2,92% (Tabela 1). Ao considerar o consumo diário de 8 kg por animal, os gastos caíram de R$ 4,11 para R$ 3,99, apresentando uma economia diária para todo o rebanho de R$ 156. A dieta foi complementada por milho, aveia, caroço de algodão e núcleo mineral.

No final do período em questão, o custo por arroba engordada, utilizando a dieta com farelo de soja, foi de R$ 65,39 – valor reduzido para R$ 63,48 com o uso de alta concentração de nitrogênio não proteico de liberação controlada e enxofre. Desta forma, o lucro por animal passou de R$ 26,61 para R$ 28,52 ao se substituir o farelo de soja, um ganho 7,18% maior (Tabela 2).

Os resultados citados foram constatados em prova de campo realizada em semiconfinamento a pasto, com 1,3 mil cabeças de Nelore, no Mato Grosso do Sul, no período de 1º de setembro a 17 de novembro de 2012 (77 dias).

*Gustavo Alves é coordenador técnico da área de Negócios Pecuários da Produquímica