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Capacitação e bem-estar animal

Quando as práticas de bem-estar animal são adotadas por uma fazenda é observada uma melhora significativa na qualidade de vida dos vaqueiros

Luís Fernando Soares Zuin, Poliana Bruno Zuin e Mateus J. R. Paranhos da Costa*

"É preciso saber compartilhar as ideias", essa frase foi dita por um funcionário de uma fazenda de gado de corte na Argentina, em uma das coletas de dados para as nossas pesquisas, sobre quais os caminhos empregados pelos profissionais que prestam tanto serviços de assistência técnica como de cursos de capacitação nas propriedade rurais naquele país.

Atualmente, um dos maiores desafios que as fazendas enfrentam é manter a sobrevivência, em um mercado global cada vez mais competitivo e dinâmico. A competitividade mais intensa entre os atores pressupõe que as pessoas as quais trabalham nas fazendas estejam constantemente preparadas para dominar novas tecnologias. Para se manterem competitivos no mercado de trabalho, os profissionais dos territórios rurais, frequentemente devem aprender e dominar novos conjuntos de conteúdos, que são postos à prova diariamente nas rotinas de trabalho. Esse aprendizado pode ocorrer tanto por meio de cursos e trabalhos de assistência técnica, prestados por profissionais diretamente nas propriedades.

Hoje, podemos dizer que nos territórios rurais brasileiros são ofertados cursos de capacitação pelas organizações governamentais e privadas, que disponibilizam formação continuada aos funcionários e proprietários rurais. Quando se visualiza as interações que ocorrem entre os participantes dos cursos, observamos que o primeiro formato apresenta um padrão hierarquizado e impositivo do conteúdo trabalhado. Por outro lado, a segunda abordagem revela uma proposta totalmente oposta, sendo participativos e abertos ao intenso diálogo. De forma geral, este último perfil é voltado para uma exposição prática dos conteúdos, apresentando um aprendizado mais significativo entre os funcionários e proprietários rurais.

Apresentamos alguns resultados de pesquisas realizadas em fazendas de gado leiteiro e de corte de alguns países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile e Uruguai). Em todos esses lugares a preocupação foi detalhar os caminhos didáticos e de conteúdos que os cursos de capacitação e os trabalhos de assistência técnica apresentam.

Para Luís Zuin, o sinal de que a capacitação para manejo racional funcionou se dá quando um vaqueiro ensina o outro

Quando as práticas de bem-estar animal (BEA) são adotadas por uma fazenda, é observada uma melhora significativa na qualidade de vida dos vaqueiros. De acordo com um capacitador argentino, quando uma fazenda começa a trabalhar com as práticas de manejo racional, diminui-se pela metade os números de acidentes de trabalho. Também foi constatado o aumento da qualidade de vida nas relações existentes entre vaqueiro e seus familiares. Pois, neste novo modo produtivo, chegavam a casa deles menos cansados e estressados. Entretanto, verificamos que em algumas fazendas os sujeitos (boiadeiros e gerentes) não internalizaram as práticas aprendidas nos cursos de BEA. Mas, por que nem todos os cursos são bem sucedidos? Por que as pessoas não empregam esse novo conhecimento nas rotinas produtivas, mesmo sabendo que essa nova rotina produtiva vai trazer benefícios, melhorando qualidade de vida.

Uma das maiores dificuldades que se pode ter durante os cursos de capacitação é que os funcionários apresentem uma postura de resignação. Ou seja, o sujeito, mesmo vivenciando nos cursos as melhoras que as novas práticas produtivas podem proporcionar na sua qualidade de vida no trabalho, não consegue se conscientizar. A resignação vai ocasionar a persistência na postura tradicional. Quando este funcionário não estiver sendo supervisionado pelo gerente ou proprietário, ele tende a realizar uma atividade produtiva como sempre a fez, sem empregar o conteúdo ensinado. Essa postura foi identificada em fazendas de gado de corte, onde se procurou introduzir as práticas de bem-estar animal, mas sem êxito total. Outros fatores extracurso, podem também contribuir com a manutenção do manejo tradicional nas fazendas, como o receio do vaqueiro em se machucar perante a lida com o animal e o grau de importância que o gerente da fazenda dá ao novo manejo aprendido nos cursos. No segundo caso, verificamos claramente que não houve a conscientização perante o novo modo de se produzir gado.

Nossas pesquisas apontam que o ponto chave em qualquer tipo de curso de formação continuada nas fazendas é a presença do embate das ideias, que deve ocorrer entre todos os participantes na capacitação. Em cursos onde se verifica um aprendizado significativo, tanto educador como educando, deve-se ao fato de que todos os envolvidos conseguiram expor o conhecimento adquirido durante as suas vidas, por meio de diálogo intenso. Neste momento, o conhecimento é exposto a todas as pessoas, surgindo novos sentidos, que foram produzidos por todos os presentes, para aquele lugar, onde foi realizado o curso. Caso não ocorra o embate, o vaqueiro pode apenas refletir durante a capacitação os mesmos movimentos e determinações apresentadas pelos capacitadores. Entretanto, o boiadeiro não irá se conscientizar. Esse ato só ocorre quando ele percebe um outro sujeito, por meio de suas ideias ou ações. O compartilhamento e o embate tiram o participante da zona de conforto.

Quando desdobramos as informações a respeito dos encaminhamentos didáticos e conteúdos do curso, observamos que os funcionários e proprietários rurais se interessam mais por aulas práticas do que teóricas. Na viagem à Argentina, foi dito por um funcionário de uma granja leiteira a seguinte frase: "Eu gosto de aulas práticas porque é real". Entretanto, as aulas teóricas não são recomendadas que passem de duas horas de duração, apresentando entre esse tempo um intervalo para um café. Esse momento é importante para que as pessoas possam dialogar entre elas, gerando novos sentidos.

Já quanto aos encaminhamentos didáticos foi dito pelos entrevistados que eles apreciam mais slides, onde os conteúdos são apresentados por meio de fotos e vídeos. Esse dois grupos não gostam que os conteúdos sejam apresentados por meio de gráficos e textos longos. Quanto ao uso de fotos e vídeos, não identificamos uma preferência clara por um ou outro formato, apenas o capacitador deve ficar atento que cada foto ou vídeo apresente apenas um conceito, um sentido. É comum, principalmente, em vídeos longos, muitos conceitos serem apresentados de forma simultânea, confundindo os participantes em relação àquilo que devem focar.

Outro ponto importante identificado em nossas pesquisas seria proporcionar, de alguma forma, para as mulheres e filhos dos vaqueiros, algum contato com o conteúdo ministrado, adaptando-o para esse público. Em dois relatos de vaqueiros, um argentino e outro brasileiro, verificamos, em ambos os casos, que as esposas tiveram um papel fundamental no processo de conscientização dos companheiros. De acordo com os relatos dos vaqueiros, depois dos cursos, eles levaram para casa o material que fora distribuído durante a capacitação. Após um tempo, começaram a ter a postura cobrada pelas suas companheiras, igual ao que estava descrito no material. Ou seja, elas tinham lido os panfletos e apostilas do curso, se conscientizaram e exigiram mudança do companheiro. Indo por esse caminho, o relato do peão brasileiro nos chamou a atenção porque, além de sua esposa cobrar uma nova postura, ela entendeu, em profundidade, qual era a rotina de trabalho do esposo. O que fez com ela valoriza-se mais ainda o que ele fazia, gerando uma maior admiração todos os dias. Esse novo olhar contribuiu com a permanência do casal na fazenda em que o profissional trabalhava.

Com a capacitação, funcionários melhoram convívio social, entre outros ganhos

A melhora da qualidade de vida no trabalho por meio da mudança dos processos produtivos pode contribuir para solução de um problema identificado em pesquisas na Argentina, no Brasil e no Chile. Esse problema se refere à brdesistência dos vaqueiros em exercer a profissão. Na Argentina e no Brasil, aqueles sujeitos que querem continuar nos territórios rurais vão trabalhar como tratoristas nas grandes culturas. No Chile, buscam novos empregos na colheita das frutas. Outro problema identificado nestes países é que as novas gerações não querem abraçar essa profissão. Entretanto, acreditamos que as práticas de bem-estar animal podem auxiliar na mudança deste cenário. Pois, alguns vaqueiros nos relataram o seu receio de mudar de local de trabalho e voltar a trabalhar da forma tradicional com o gado.

Os cursos de bem-estar animal devem ser fomentados não apenas por organizações privadas, mas também por agências governamentais. O resultado desta capacitação irá melhorar não apenas o bem-estar dos animais, mas também a qualidade de vida dos funcionários da fazenda. Para alcançar esse sucesso, faz-se imprescindível que os capacitadores rurais procurem internalizar conjuntos de metodologias pedagógicas dialógicas, que propiciem um aprendizado significativo.

Para finalizar, observamos que, independente do assunto a ser trabalhado, o melhor momento em que se pode ocorrer um processo de ensino-aprendizado significativo nos territórios rurais é por meio de uma consultoria (assistência técnica) realizada de forma frequente nas fazendas. Essa situação faz com que o profissional que está prestando um serviço desenvolva estratégias de ensino e conteúdos voltadas para as necessidades únicas da propriedade rural. Bem como estabeleça laços de confiança mais profundos, conscientizando os sujeitos envolvidos a mudarem as suas posturas perante a oferta de uma nova proposta de rotina produtiva, evitando o surgimento de uma postura de resignação.

*Luís Zuin é capacitador na Universidade de São Paulo, Poliana é pesquisadora e Matheus da Costa é coordenador do Grupo ETCO

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