Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

 

Visão holística

Uma nova abordagem para o confinamento estratégico

Francisco Vila*

Parece que a pecuária está se tornando mais previsível. Ao longo dos últimos anos, conseguimos acertar as principais previsões relativamente ao número de animais confinados e ao preço da arroba do boi. Esta estabilidade do cenário ajuda a planejar melhor o posicionamento da atividade para os próximos anos.

Séries estatísticas elaboradas por instituições componentes indicam que o lucro líquido por hectare baixou de R$ 450 na década 70 para R$ 300 na década 80, R$ 150 na década 90 e pousou num patamar de R$ 80 a 90 nos últimos anos. Ao mesmo tempo, a receita por hectare encolheu de R$ 1.100 nos anos 70 para menos da metade (R$ 500) nos últimos cinco anos. Ou seja, hoje, vendemos menos (metade) por hectare e ganhamos muito menos (um quinto) com a pecuária. Enquanto isso, o valor da terra mais que triplicou, diminuindo ainda mais a rentabilidade do investimento em agropecuária.

As respostas a essa tendência absolutamente normal de um setor com grande necessidade de modernização são conhecidas: tecnificação, escala e agregação de valor. Para isso, precisamos orientar a equipe da propriedade e realizar investimentos em estruturas, novas tecnologias e, mais importante, nas pessoas. O aproveitamento da revolução da "inversão da cadeia produtiva", bem como da integração de novos talentos no negócio através da "gestão compartilhada ou cogestão geracional", é um caminho que já foi abordado em edições anteriores.

Como nos outros segmentos da economia, o mercado da carne bovina mudou. As principais redes de varejo, que figuram como mediadores principais da cadeia, deixam claro que no futuro será o consumidor que vai mandar. Foram prometidos produtos com garantia de qualidade de origem. Por consequência, o fazendeiro tem de organizar seu sistema produtivo para poder responder a essa exigência. Não se trata mais de vender o que foi produzido, mas sim de produzir o que pode ser vendido com preços compensadores. Novos conceitos como nichos de mercado, animais padronizados, compromisso de venda de volumes prefixados de animais ao longo do ano inteiro, garantia de sanidade e boas práticas de manejo, bem como a operação em programas de fidelidade, definem o novo modelo da pecuária competitiva. Ou seja, trata-se de reinventar continuamente as práticas tradicionais para obter um lugar no grupo dos vencedores da produção bovina da próxima década.

VISÃO HOLÍSTICA

No passado, cada fazenda tinha competências em alguns segmentos do seu sistema produtivo e falhas em outros. Porém, a natureza da demanda e a pressão dos custos requerem que, no futuro, a produção bovina opere com excelência em todas as fases de transformação de genética e pasto num animal padronizado conforme as características do mercado da carne. Não é mais suficiente dominar bem uma ou outra técnica, seja na genética animal ou no manejo do pasto. É preciso combinar de uma forma bem estruturada, porém flexível, todos os fatores que contribuem para o produto final.

Após duas décadas de foco no animal, recentemente foi (re)descoberto o pasto como fator igualmente importante para obter resultados satisfatórios. O confinamento entrou como ferramenta estratégica para gerenciar melhor a lotação e melhorar o acabamento. Mais recentemente, a sofisticação das soluções chamadas "suplementação a pasto" ampliou o leque das opções estratégicas do produtor. Com isso, o confinamento terá de ser visto num novo contexto.

Na Feicorte o tema central ressaltou esse novo modelo dentro de programas de fidelidade bem estruturados, como o "Programa Cruza Angus a Pasto". Esse conceito sugere que, dependendo da gestão rigorosa dos principais elementos do sistema produtivo, será possível abater fêmeas de 24 meses com 15@ e machos de 24 meses com 18@, pagando um prêmio de 6% (para ambos os produtos) e buscando os animais na fazenda.

Para Vila, o pecuarista bem-sucedido será aquele que souber gerenciar melhor o sistema como um todo

Como será possível produzir esse animal de alta performance sem passagem pelo confinamento? Trata-se da combinação bem sincronizada entre pacotes de tecnologia:

• Manejo rotacionado de pasto perene (eventualmente com fertirrigação)

• Animais cruzados com monitoramento de exigências alimentares

• Suplementação estratégica desde a gestação até o embarque Como indica o termo "estratégico", o confinamento passa a ser uma opção para o melhor gerenciamento de risco, dependendo das circunstâncias do clima no ano e do custo dos insumos. Naturalmente, existe ainda a variação do "semiconfinamento" ou do "confinamento a pasto".

O que estamos avaliando aqui não é o abandono do investimento que fizemos nas instalações e no maquinário para o confinamento de 4 a 7 meses/ ano. Lembramos apenas que com a maior flexibilidade do sistema a pasto e as novas opções tecnológicas da suplementação podem ocorrer anos nos quais não usaremos nossa estrutura de confinamento. Isto não limita nossa estratégia, antes pelo contrário, aumenta nossas opções. Será o cenário de custo em cada momento que nos indica se vamos usar ou não e por quanto tempo o confinamento.

O recente foco num manejo mais eficiente do pasto possibilita em anos com clima favorável que os animais fiquem mais tempo no pasto do que no passado. Juntando-se a isso a perspectiva de gerenciar melhor o ganho de peso através de um acompanhamento com suplementação individualizado ao longo do ciclo de vida do animal, é perfeitamente possível "pular o confinamento" e levar as fêmeas e machos diretamente ao abate. Os animais são mais padronizados e assim atendem melhor à demanda por carne de qualidade que permite o pagamento de prêmios.

LUCRO SISTÊMICO

O que decidirá como o ano será gerenciado são as despesas dos diversos componentes do sistema. É importante lembrar que o custo é resultado de vários elementos que precisam ser sincronizados:

• Preço de compra e venda de animais

• Peso dos custos fixos (instalações, pessoal)

• Ônus de ociosidade e desperdícios (deficiências de gestão)

• Custo variável global (não unitário)

Quanto mais tecnificado for o sistema, maior o custo unitário, porém, maior o potencial do lucro global (como resultado da escala). Por outro lado, aumentamos o risco, com a incerteza da evolução dos preços de insumos e com a ineficiência na aplicação de pacotes tecnológicos mais sofisticados sem devida capacitação da equipe. Ou seja, não há solução única que possa ser aplicada para todos. Tudo depende da tradição da fazenda e de sua aptidão para a modernização contínua.

Aqui entram soluções avançadas, como manutenção de pastos, fertirrigação (alto investimento), sistemas de monitoramento (como o aplicativo gratuito "Suplementa Certo", da UFMS/Embrapa, que individualiza e otimiza o uso de suplementos conforme cenário alimentar e característica dos animais), integração lavoura-pecuária (com redução de perda de 150 g/dia no pasto com sobra e aproveitamento dos nutrientes da lavoura), adequação ambiental dos confinamentos (dejetos), estruturação financeira e blindagem de risco (através de pools de compra e contratos de opções), etc.

PLANEJAMENTO FLEXÍVEL

Com o aumento de variáveis, a produção bovina torna-se mais vulnerável. Por outro lado, aquelas propriedades que transformam os desafios em oportunidades serão as que no futuro colherão os frutos de um negócio com capacidade de atender às exigências do mercado e com perspectivas de remuneração diferenciada na modelagem de programas de fidelidade.

A questão agora é avaliar como entrar nessa espiral de modernização contínua. As pecuárias de ponta já possuem ilhas de excelência em seu sistema produtivo. Assim, o primeiro passo consiste em elaborar um SWOT (uma análise que identifica os principais pontos fortes e fracos, bem como as oportunidades e os desafios específicos do modelo atual dentro da realidade geográfica na qual a fazenda se encontra). Existem manuais da Embrapa e consultores especializados que podem ajudar na elaboração desse diagnóstico estático.

A próxima etapa é o planejamento estratégico com foco no novo cenário de divisão de custos e riscos entre a engorda suplementada a pasto e o uso de confinamento. Aqui entram os novos pacotes tecnológicos, bem como a estimativa da evolução dos custos das diversas opções. Não basta mais, como no passado, desenvolver projetos isolados (pasto, manejo de animais, terminação). As ferramentas de gestão permitem que tudo seja planejado em conjunto. Os modelos matemáticos dos programas calculam automaticamente os impactos laterais quando mudamos um componente de um pacote tecnológico da genética, alimentação ou nutrição. O que antigamente foi resultado da genialidade de alguns produtores bemsucedidos pode ser hoje acessado por qualquer operador de fazenda. O principal fator de ligação entre os subsistemas é a perspectiva de incluir na visão global o fator de tempo (e assim de clima) na definição precisa de decisões.

RELÓGIO SUÍÇO

A produção de carne bovina é uma das atividades econômicas mais complexas. Seu resultado depende de fatores como solo, pasto, clima, genética e preços definidos antes e depois da porteira, sem intervenção do produtor. Ao mesmo tempo, trata-se do setor com menor sofisticação administrativa. Aqui reside a perspectiva promissora para quem consiga se organizar dentro dos padrões gerenciais que caracterizam as outras atividades como agricultura, indústria ou serviços.

A linha divisória entre vencedores e perdedores não depende da capacidade de usar bem o pasto ou de ser um confinador estratégico de ponta. O pecuarista bem-sucedido será aquele que souber gerenciar melhor o sistema como um todo. Uma vez que os fatores podem oscilar bastante (conforme clima, época do ano, ou situação de preços) não se deve buscar uma única solução correta em segmentos isolados do sistema, mas sim a gestão do equilíbrio dinâmico de um sistema variável que muda o tempo todo.

O quadro mostra o mapa dos fatores de influência. Em cada caso devem ser definidos a relevância e o peso de cada elemento do subsistema para desenhar o mapa geral para a tomada de decisões ao longo do ano. Somente em função dessa visão holística saberemos se, nesse ano, usaremos ou não (e por quanto tempo e com qual formulação de dieta) o confinamento ou se podemos obter nossos resultados focando apenas na alimentação e na suplementação a pasto.

Estas reflexões valem exclusivamente para os chamados confinamentos estratégicos ou de manejo de instalações nas fazendas. A lógica para os confinamentos empresariais com potencial de operação durante todo o ano é completamente diferente.

*Vila é Consultor Internacional prismapec@gmail.com