Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Abate de Fêmeas

 

Mais um ano de GRANDE PARTICIPAÇÃO

Hyberville Neto*

Se um negócio dá lucro, a tendência é de investimento na atividade. Se uma indústria vai bem, o empresário compra maquinário, buscando aumentar a produção, afinal, os preços estão remuneradores e é interessante produzir mais.

Da mesma forma ocorre com o boi gordo. Se o pecuarista enxerga um mercado atrativo, com preços remuneradores e margens confortáveis, a tendência é que ele busque aumentar sua produção.

Para isso, o criador pode adquirir bezerras, novilhas e matrizes ou reter as fêmeas que seriam vendidas. Esta busca maior pelos meios de produção, as fêmeas, diminui a oferta desta categoria para abate. Com isto, o mercado de bovinos terminados, que já estava interessante, tende a ficar ainda melhor.

Este investimento em produção seria interessante, se não ocorresse de forma generalizada. A partir do momento em que boa parte dos pecuaristas tenta aproveitar o mercado em alta, a produção supera a demanda e o mercado perde a firmeza.

Com o mercado frouxo e a atividade pouco atrativa, as fêmeas deixam de ser vistas como produtoras de bezerros e passam a ser encaradas como ativos de boa liquidez, que podem ser convertidos em caixa para a fazenda.

A partir do momento em que aumenta a oferta de fêmeas, de matrizes para abate, a disponibilidade geral de carne bovina aumenta. Isto pressiona as cotações, que já estavam abaladas pelo aumento de produção, gerado pelo otimismo da fase de alta.

O mercado cede e, em dado momento, a produção das fêmeas abatidas fará falta, o que tende a reiniciar o ciclo. Estas movimentações de preços, geradas por oscilações de oferta, principalmente de fêmeas, são a característica fundamental do ciclo de preços pecuário.

ÚLTIMA FASE DE ALTA

Em junho de 2006, o mercado do boi gordo observou os piores preços já registrados, cuja média mensal foi de R$ 76,21/@ em São Paulo, em valores deflacionados pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna), da Fundação Getulio Vargas.

Naquele ano o mercado sofria com o elevado abate de fêmeas, com os efeitos dos casos de febre aftosa, em outubro de 2005, e com a gripe aviária, que diminuiu as exportações de carne de frango, o que aumentou a oferta da proteína no mercado interno. Veja a figura 1.

Em 2006 as fêmeas compuseram 43,4% dos bovinos abatidos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A participação de fêmeas nos abates vinha subindo desde 2002, o que colaborou com a pressão de baixa e diminuiu a produção de bezerros.

Na segunda metade de 2006, a entressafra trouxe consigo o início da recuperação do mercado. As cotações subiram 6,1% entre junho e dezembro. Até aí nada de anormal, valorizações na entressafra são esperadas.

A firmeza do mercado em 2007 foi que definiu a guinada do ciclo. Entre janeiro e dezembro de 2007, houve valorização de 28,4% para o boi gordo em São Paulo, já descontando a inflação.

A diminuição da participação de fêmeas nos abates colaborou com o cenário altista. Elas compuseram 40,4% dos bovinos abatidos, queda de 3% na comparação com 2006.

Em 2008 as valorizações continuaram. O preço médio foi 23,9% maior que no ano anterior. A participação de fêmeas nos abates caiu, ficando em 39,1%. Aquele ano foi caracterizado pela forte valorização das categorias de bovinos mais jovens. Considerando o bezerro de 12 meses em São Paulo, a cotação média em 2008 foi 33,7% maior que a de 2007.

No segundo semestre aconteceu a crise global, que nocauteou o consumo ao longo de 2009. Naquele ano os preços patinaram, não devido ao excesso de oferta, pois as fêmeas retidas ainda não eram suficientes para tanto, mas pela demanda fraca.

O preço médio do boi gordo foi 7,3% abaixo do observado em 2008, o que esfriou o ânimo do pecuarista. Ainda assim, a participação de fêmeas nos abates não aumentou, o que foi um sinal, hoje claro, de que o mercado ainda não estava suprido de fêmeas. Elas participaram com 37,4% do total, mesmo com preços em queda.

Em 2010, com a recuperação do consumo, o mercado subiu forte, atingindo R$ 115/@, em valores nominais em meados de novembro. A cotação média do ano foi 5,3% maior que no ano anterior. As fêmeas compuseram 36,1% do total abatido sob inspeção (municipal, estadual ou federal).

SINAL DE ALERTA

Em 2011, o preço médio ainda foi maior que no ano anterior. Isto ocorreu porque a valorização foi forte em 2010. Com isso, o patamar de preços mudou e 2011 já começou com valores maiores.

Apesar do preço médio 7,2% acima do registrado em 2010, as cotações dos animais terminados não demonstraram o mesmo vigor dos anos anteriores (exceto em 2009, devido à crise). Falava-se em aproximação da fase de baixa, suspeita que ganhou força com os dados dos abates de fêmeas, que aumentaram 4,1 pontos percentuais.

Foi a inversão de uma tendência de queda que vinha desde 2007. Em 2012, o mercado corroborou com as expectativas de preços mais frouxos. A cotação média foi de R$ 104,13/@, a prazo, em São Paulo, ante R$ 115,06/@ em 2011, queda de 9,5%, em valores reais. Os abates de bovinos sob inspeção aumentaram 7,9%, influenciados pela maior oferta de vacas e novilhas.

MOMENTO E EXPECTATIVAS

Após um ano de baixa, 2013 não trazia muitas esperanças, sob a óptica do mercado. E, por isto, surpreendeu, com preços firmes, mesmo ao longo da safra.

Foram momentos pontuais de pressão de baixa mais acentuada. De toda forma, a cotação média de janeiro a outubro foi 0,4% menor que no mesmo período de 2012, em valores reais. Ou seja, os preços estavam com variação próxima à da inflação.

Para um ano no qual boa parte dos participantes do mercado acreditava em baixa, foi um resultado positivo. Apesar da oferta maior de animais para abate, com aumento de 12,4% no primeiro semestre, na comparação com 2012, a demanda segurou as pontas.

De acordo com os dados disponíveis até o momento, 2013 foi mais um ano de aumento na participação de fêmeas no gancho. Segundo o IBGE, elas compuseram 46,1% dos bovinos abatidos no primeiro semestre, ante 44,8% de janeiro a junho de 2012. Veja a figura 2.

Um mercado estável, mesmo com oferta significativamente maior, pode ser considerado positivo. A tendência é que a oferta de bovinos sinta o abate de vacas e novilhas crescentes desde 2011 no curto prazo. Segundo o IBGE, o rebanho brasileiro encolheu 0,7% entre 2011 e 2012.

Apesar de ter sofrido influência da seca, que afetou o Nordeste e diminuiu o rebanho da região, também houve retração em importantes rebanhos, como no Mato Grosso (-1,8%) e no Mato Grosso do Sul (-0,3%).

Uma menor disponibilidade de bovinos para abate, associada a um consumo forte, tende a gerar um horizonte positivo para as cotações do boi gordo e demais categorias nos anos vindouros. Assim deverá ser em 2014.

*Hyberville é médico-veterinário da Scot Consultoria