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Pecuária de Leite

 

Balde cheio, e pressão de baixa

2013 foi um ano de recuperação das margens. Todavia, se observou que os investimentos do produtor ficaram restritos à alimentação

Rafael Ribeiro de Lima Filho*

Considerando a média brasileira, o preço do leite ao produtor teve ligeira queda no pagamento de outubro, referente ao leite entregue em setembro. O produtor recebeu R$ 1,011 por litro de leite (média ponderada dos 18 estados pesquisados), queda de 0,2% em relação ao pagamento anterior. A queda pôs fim ao movimento de alta que perdurava desde o pagamento de outubro de 2012. Veja a figura 1.

A disponibilidade interna de leite aumentou, pressionando os preços na fazenda e no atacado. Segundo o Índice Scot Consultoria para a Captação de Leite, o volume aumentou 2,3% em setembro, na comparação com agosto (média nacional). Para outubro, considerando a média brasileira, os dados parciais apontam para um incremento de 1,6% na captação em relação a setembro.

Em São Paulo, as frequentes chuvas melhoraram as condições das pastagens, mas ainda não na sua capacidade total (novembro). A suplementação dos animais está sendo mantida. Em Minas Gerais, a produção de leite aumentou de forma tímida. As chuvas se intensificaram em outubro e novembro, recuperando parte das pastagens no Sul de Minas e no Triângulo Mineiro.

No Leste e no Norte de Minas choveu menos. Os investimentos na alimentação continuam, o que favorece a produção de leite no estado. Em Goiás as chuvas foram mais regulares em outubro e novembro, favorecendo a rebrota das pastagens.

Na região Sul do país, as chuvas favoreceram a implantação, o crescimento e o manejo das forragens anuais de verão, como milheto e sorgo forrageiro, e também do rebanho na maioria das bacias leiteiras da região. No Rio Grande do Sul, as chuvas, que ainda são frequentes, e a boa alimentação, com silagem, feno, grãos e rações, mantêm a produção.

No Paraná e em Santa Catarina, os capins de verão não vão tão bem quanto os de inverno, por isso o pico de produção de leite já aconteceu. A expectativa para outubro e novembro é que o aumento na produção seja menos acentuado nestes estados.

Na região Nordeste em geral, os volumes de chuvas foram insuficientes. Nas regiões Sul e Sudoeste da Bahia, iniciou-se o período de chuvas, o que gera uma previsão de aumento na captação em curto e médio prazos. Já em Pernambuco, Ceará e Maranhão as chuvas cessaram.

A expectativa é de que a produção aumente até janeiro do ano que vem, pico de produção nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Outros fatores, como a recuperação dos estoques de lácteos e as quedas do preço do leite em pó no mercado internacional, tiraram a sustentação do mercado. Em curto e médio prazos a expectativa é de queda no preço do leite ao produtor.

A pressão negativa é maior no Sul do País. No Sudeste e no Centro- Oeste, considerando as médias estaduais, os preços caíram em São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Entretanto, o mercado se mostrou firme em regiões como Leste e Norte de Minas, região de Catalão e de Goiânia, em Goiás, onde a recuperação da produção foi mais tímida.

No Nordeste, os preços subiram diante da concorrência pelo leite entre os laticínios. Na tabela 1 estão os preços médios do leite ao produtor nos dois últimos pagamentos, por estado.

Para o pagamento a ser realizado em novembro, 51% dos laticínios pesquisados acreditam em queda do preço do leite ao produtor e 43% creem em manutenção das cotações. O restante acredita em alta (região Nordeste). Para o pagamento de dezembro, o movimento de baixa deverá ganhar força em praticamente todo o país, sendo que mais de 80% dos laticínios estimam queda do preço do leite ao produtor.

No mercado spot, ou seja, o leite comercializado entre as indústrias, os preços caíram em outubro e na primeira quinzena de novembro. Os recuos chegaram a R$0,05 por litro em algumas regiões. É um grande indicativo que a oferta aumentou e a concorrência entre os laticínios diminuiu.

Em São Paulo, Minas Gerais e Goiás o litro ficou cotado, em média, em R$ 1,12 no mês de novembro. Foram registrados negócios de até R$ 1,40 por litro de leite no mercado spot nestes estados em agosto e setembro deste ano. No Rio Grande do Sul e no Paraná, os preços do leite spot também caíram. Os valores médios ficaram em R$ 0,99 e R$ 0,92 por litro, respectivamente.

IMPORTAÇÕES DE LÁCTEOS

As importações brasileiras de lácteos totalizaram US$ 492,29 milhões no acumulado de janeiro a outubro de 2013. Em volume, as compras no mercado internacional somaram 942,10 mil toneladas equivalentes litros de leite.

Apesar da maior concorrência por leite entre os laticínios brasileiros, as importações foram 8,8% menores na comparação com o mesmo período do ano passado, quando foram adquiridas 1,01 bilhão de toneladas equivalente litros de leite.

O dólar valorizado em relação ao real aumentou a competitividade dos produtos lácteos nacionais, em relação aos importados.

O leite em pó foi o principal produto importado. Representou 57,2% dos gastos totais com lácteos. Foram 68,89 mil toneladas de leite em pó de janeiro a outubro deste mês, frente às 78,87 milhões de toneladas importadas no mesmo período de 2012.

Um pouco diferente de 2012, as importações não chegaram a prejudicar tanto os preços no mercado brasileiro, em função da menor disponibilidade de leite no País.

O déficit na balança comercial de lácteos brasileira foi de US$ 419,90 milhões nos dez primeiros meses de 2013, frente a US$ 535,63 milhões em igual período de 2012.

BALANÇO DE 2013

As margens apertadas, em função da alta dos custos de produção, resultaram em um ano difícil para a pecuária leiteira em 2012. A quebra da safra norte-americana, causada pela estiagem no ano passado, elevou os preços do milho e dos produtos do complexo soja (grão, farelo e óleo) no mercado internacional e brasileiro, diminuindo o poder de compra do pecuarista.

O farelo de soja mais do que dobrou de preço. O preço do milho subiu 50% em dois meses. O produtor sentiu a alta dos custos e reduziu os investimentos. Em dezembro de 2012, a alta acumulada em 12 meses para o custo de produção, segundo o Índice Scot para o Custo de Pecuária Leiteira, foi de 11,8%. Porém, em 2013, os custos foram menores, em especial com a alimentação.

Os preços do leite em patamares elevados melhoraram a margem para o produtor. Lembrando que os preços pagos subiram do pagamento de outubro de 2012 até o pagamento realizado em setembro deste ano. A alta acumulada (média nacional) foi de 27,1% neste período. O produtor recebeu, em média, 14,2% mais em 2013, em relação a 2012 (média de janeiro a outubro).

A alta do leite foi em função da concorrência, decorrente da oferta mais apertada no mercado interno e da demanda aquecida. O ano foi de recuperação de margens também para a indústria de laticínios, que conseguiu repassar as altas dos preços da matéria-prima. O leite longa vida atingiu os maiores valores historicamente. No atacado, o preço médio chegou a R$ 2,51 por litro em setembro. Veja a figura 3. A demanda firme na ponta final da cadeia deu sustentação ao mercado.

EXPECTATIVAS PARA 2014

Os custos foram menores em 2013, em especial com a alimentação

O ano de 2013 foi positivo para a pecuária leiteira brasileira. Foi um ano de recuperação das margens tanto ao produtor como para as indústrias de laticínios. O que se observou, porém, foi que os investimentos por parte do produtor ficaram restritos basicamente à alimentação, considerando o cenário de preços mais baixos para o milho, principalmente. O objetivo foi aproveitar o período de preços em alta do leite, aumentando o faturamento com uma produção maior.

O pecuarista optou por colocar a casa em ordem em 2013, depois de um ano difícil para a pecuária leiteira como foi 2012. A expectativa é de que os investimentos com retorno em médio e longo prazos, por exemplo, em genética, equipamentos, entre outros, fiquem para 2014, caso o cenário seja positivo para atividade.

Do lado da demanda o quadro é favorável. O consumo de leite vem crescendo a uma taxa de 4% a 4,5% ao ano, ou seja, acima do que vem crescendo a produção interna (3% a 3,5% ao ano). O aumento da renda 13da população e a maior variedades de produtos lácteos são fatores que colaboram para o incremento na demanda por lácteos no país.

Entretanto, é preciso considerar que a produção de leite deverá ser maior em 2014, diante dos investimos e expectativa de clima favorável. Isto poderá significar um quadro de menor concorrência pela captação da matéria-prima, caso a demanda não se sustente.

*Rafael de Lima Filho é zootecnista da Scot Consultoria