Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Caprinovinocultura

 

O desafio de aproximar
PRODUÇÃO e CONSUMO

A caprinovinocultura tem o crescimento amparado pela ampliação da demanda, mas ainda precisa superar desafios para deslanchar

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

A produção não existirá se não houver disposição por parte dos consumidores. E o contrário também é verdade. Se a produção não for sustentada com qualidade, o consumo sucumbirá. A teoria vale para diferentes e variados segmentos e, aqui, se aplica especificamente à criação de ovinos e caprinos, segmento que vem experimentando um crescimento importante nos últimos anos.

O setor tem encontrado oportunidades de desenvolvimento que podem ser aproveitadas em todos os estágios da cadeia produtiva, destaca o pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos Juan Diego Ferelli de Souza. “O mercado consumidor continua em expansão, e as oportunidades de negócio para aqueles interessados em oferecer produtos de qualidade são muitas. No entanto, o desafio a ser enfrentado por estes empreendedores passa pela gestão eficiente da cadeia de suprimentos, de modo que se consiga garantir o abastecimento de matérias-primas, sejam animais de qualidade para abate, seja o leite caprino, para garantir a oferta com regularidade e qualidade ao consumidor final”, analisa.

Muitos desafios estão no caminho para um incremento sólido da produção e uma oferta constante ao mercado. As necessidades têm início na cadeia de insumos, que precisa de novos produtos que contemplem áreas como nutrição, sanidade, conservação de solo e produção de forragem. “Tanto o setor privado quanto as organizações públicas de pesquisa têm desenvolvido projetos com o intuito de suprir essas carências, de modo que novas tecnologias vêm surgindo”, salienta Souza.

No âmbito da produção, uma das prioridades deve ser a adoção de tecnologias mais eficientes e que envolvem diferentes etapas da criação, como práticas de manejo e de controle sanitário, e a escrituração zootécnica. “Neste estágio da cadeia os avanços são mais visíveis em locais onde a produção de ovinos e de caprinos é tratada como um negócio, onde se busca a geração de renda e o lucro. Existem iniciativas deste tipo em diversos estados, desde os mais tradicionais, como os nordestinos e sulistas, quanto aqueles em que a produção começa a despontar, como o Centro-Oeste e o Sudeste”, menciona Souza.

Uma produção mais organizada também passa pela qualificação de produtores rurais e técnicos, defende o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), Paulo Schwab. Na opinião dele, é preciso fortalecer o trabalho da extensão rural no país para que a atividade apresente resultados cada vez mais rentáveis. “O conhecimento e a capacitação são essenciais para melhorar nossos índices e, consequentemente, ampliar o rebanho”, conclui o dirigente.

Na etapa que envolve o abate, o processamento e a distribuição dos produtos o grande entrave é a informalidade. A estimativa da Arco é que em torno de 90% da carne ovina ofertada no Brasil tenha origem informal.

Para o pesquisador Juan de Souza, da Embrapa, a questão é ampla e engloba a quantidade e a qualidade das leis que regulamentam o setor, a fiscalização para o cumprimento dessas leis, os custos e incentivos dos agentes produtivos para o cumprimento da legislação e o nível de exigência do mercado consumidor. “A Embrapa está conduzindo um estudo que tem como objetivo identificar quais são os fatores determinantes da informalidade neste setor e quais são as alternativas para superar esta barreira ao desenvolvimento da atividade”, relata o especialista.

INCREMENTO NO CAMPO

Em 2010, o Brasil ocupou a 17ª posição entre os plantéis ovinos do mundo, com aproximadamente 17,3 milhões de cabeças, o que representou 1,61% do rebanho mundial. “O crescimento é pouco acelerado, porém constante, desde o ano de 2002. Enquanto o rebanho mundial cresceu apenas 1,04% entre os anos 2004 e 2010, o rebanho brasileiro cresceu 15,43% no período, passando de 15 milhões para cerca de 17,3 milhões de animais”, observa Souza, citando números do IBGE. Já o efetivo de caprinos é calculado em 9,38 milhões de cabeças, sendo que o Nordeste abriga o maior rebanho, com 8,53 milhões de animais.

Pesquisador Juan de Souza, da Embrapa: trabalho começa na cadeia de insumos

Acelerar o processo de incremento desses números é essencial para suprir uma demanda em crescimento, frisa o presidente da Arco. Ele sustenta essa necessidade com os índices de consumo da carne ovina. “Hoje, a estimativa é que o consumo brasileiro seja de apenas 400 gramas por pessoa ao ano. Se o volume chegasse a 2,5 quilos, teríamos que ter um rebanho de cerca de 50 milhões de cabeças”, completa Schwab. Além disso, diz o dirigente, há várias unidades industriais voltadas ao abate de ovinos operando com capacidade ociosa no país.

Para o presidente da Arco, é fundamental que os governos direcionem esforços para projetos específicos voltados à atividade, que é geradora de renda, pode ser rentável em pequenas áreas e apresenta um retorno bastante rápido para os produtores.

Ele cita como exemplo o Programa Mais Ovinos no Campo, que foi implantado em 2011 pela Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul. Com a oferta de linhas de crédito com taxas de juros mais acessíveis, a iniciativa ajuda criadores na aquisição de matrizes e reprodutores e na retenção de fêmeas no campo.

Região Nordeste concentra os maiores rebanhos de ovinos e caprinos do país

As organizações de apoio ao setor, apesar de todo seu esforço, ainda carecem de integração em suas atividades, avalia o pesquisador Juan de Souza, da Embrapa. “Não há uma agenda comum voltada para o desenvolvimento da atividade e a consequência disto é a baixa eficiência no apoio aos produtores rurais”, aponta.

O especialista lembra que a caprinovinocultura brasileira é caracterizada por contrastes organizacionais significativos entre as regiões produtoras. O Nordeste concentra o maior rebanho ovino do país, reunindo 56,7% dos animais. Esse efetivo, no entanto, está distribuído entre muitos estados, o que caracteriza a fragmentação da atividade produtiva. “Esta fragmentação gera dificuldades para organização do setor e articulação deficiente entre os agentes da cadeia. Existem alguns polos produtivos espalhados pela região e que acabam por reunir a produção dos municípios vizinhos. Nestes locais encontram-se feiras onde são comercializados os animais e que consistem na principal fonte de abastecimento dos abatedores formais e informais. Além da produção significativa, a região também concentra um importante e tradicional mercado consumidor de carne ovina, fato que constitui oportunidades para empreendimentos de agregação de valor ao produto regional”, argumenta Souza.

Paulo Schwab, presidente da Arco: crescimento também passa pela qualificação

Apesar de o Nordeste somar o maior número de animais, o Rio Grande do Sul é o estado que abriga o maior rebanho nacional, com 3,9 milhões de cabeças. Outros estados vêm apresentando crescimento nos seus efetivos, como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. “Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste, o crescimento dos plantéis está diretamente ligado à instalação de indústrias de abate e processamento de ovinos”, assinala o pesquisador.

CORDEIRO EM ALTA

O interesse por parte dos consumidores, que buscam especialmente a carne de cordeiro, tem provocado um aumento no número de empreendimentos dedicados à oferta do alimento. O movimento mais significativo fica por conta de grandes centros urbanos, como São Paulo.

Comercializados em supermercados, butiques de carnes e restaurantes, os cortes de cordeiro encontram um público fiel entre a alta gastronomia e, aos poucos, conquistam mais popularidade entre outros nichos de consumidores.

O diretor geral da Savana Alimentos, Robson Leite, acredita que o Brasil tem um grande potencial para a atividade, mas ressalva que há um caminho longo a ser percorrido, principalmente devido a questões culturais que ainda inibem o consumo em comparação com a procura existente por outras carnes. “O grande destaque do consumo fica por conta da demanda vista no varejo. “Existe um movimento de migração do público dos restaurantes para os supermercados. A população gostou do cordeiro e vem adotando os cortes em seus cardápios domésticos, por motivos de segurança, preços ou variedade”, constata o empresário.

A demanda crescente naturalmente provocou alta nos preços. Há três anos, por exemplo, os produtores gaúchos recebiam em torno de R$ 2,50 pelo quilo vivo do cordeiro. A partir de 2010, no entanto, os valores passaram a subir e se mantiveram sempre acima dos R$ 4. “Há relatos de compradores dispostos a pagar até R$ 6 pelo quilo vivo no Rio Grande do Sul”, conta o presidente da Arco, Paulo Schwab.

O mercado do estado de São Paulo também acompanha esse incremento na remuneração. Em outubro, por exemplo, os preços do quilo vivo variavam entre R$ 4,51 e R$ 6, segundo o Indicador de Preço do Cordeiro Paulista, levantamento realizado pela Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo (FZEA/USP).