Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Confinamento

 

Articulador da Cadeia da Carne

Um novo papel para o confinador

Francisco Villa*

Na retrospectiva dos últimos cinco anos, observamos dois fatos interessantes. Primeiro, o número dos animais confinados parece ter encontrado um patamar que oscila em torno de 4 milhões de cabeças. No entanto, continua impressionante a forte divergência entre as principais fontes de estatísticas sobre essa matéria. Isto se torna tanto mais crítico quando lembramos que a manutenção das margens do confinamento depende do rigor de planejamento dessa atividade que, por sua vez, depende de dados confiáveis.

Nessa linha, temos um segundo fator que dificulta uma organização mais profissional do negócio. Cronicamente, as estimativas do volume de cabeças a confinar no início do ano têm sido bem mais otimistas do que o número de animais terminados no final de cada safra. Isto significa que o quadro de referência para o planejamento da compra de animais e insumos é nebuloso e o improviso sobrepõe-se ao programado a partir do início da estação de seca. Além de ser difícil prever o futuro, continua a existir uma falta de estatísticas confiáveis sobre os fatores que influenciam a tomada de decisões do confinador.

Como podemos melhorar a qualidade do instrumentário gerencial para preparar o próximo salto qualitativo da terminação de bovinos no cocho?

Seguem algumas reflexões estratégicas, bem como a proposta de um arranjo funcional que melhor servirá a todas as partes envolvidas, desde a cria e os insumos até a indústria e a distribuição da carne.

DINÂMICA DA ESTRUTURA

O perfil e o resultado do confinamento dependem de quem o faz. Uma recente consulta de formadores de opinião permite as seguintes conclusões: devem existir aproximadamente 2.000 confinamentos com capacidade de terminar entre 4 e 5 milhões de animais/ano; 50% dos bois confinados encontram-se em 10% dos estabelecimentos.

A pesquisa da ASSOCON (2012) revela que cerca de 500 confinadores com capacidade estática de 1-500 animais detêm apenas 3% da quantidade do gado do total de 900 entrevistados, que reúnem 2,7 milhões de cabeças. Se juntarmos o próximo grupo de 109 confinamentos com capacidade de 501- 1.000 animais, atingimos um pouco mais de 10% do universo dos 877 confinamentos. Ou seja, cerca de 2/3 das unidades representam 1/10 da capacidade instalada dos pesquisados. O total dos entrevistados representa cerca de 90% da capacidade estática brasileira.

A análise dos Top-50 do BeefPoint confirma esse panorama. Os 50 líderes abateram aproximadamente metade de todos os animais confinados em 2011. Desse grupo, os 10 maiores forneceram 35% do volume dos 50 maiores, ou seja, 15% do total de animais abatidos no Brasil. Naturalmente, sabemos que todos esses cálculos são precários, pois não temos estatísticas precisas. Entretanto, fica evidente o nível de concentração do setor.

Para melhor compreender as tendências, o panorama do confinamento pode ser dividido em cinco grupos com características próprias:

Confinamento estratégico em fazendas - Representa a grande maioria do universo (90%), com perfis de qualidade e profundidade bastante diversos. A distinção entre suplementação a pasto, semiconfinamento e confinamento é fluída. No entanto, parece provável que o confinamento em propriedades tenda a crescer acima da média, atingindo uma proporção de 2/3 sobre o volume anual de animais terminados no cocho ao longo dos próximos anos.

Os confinamentos dos frigoríficos possuem a dupla função de ordenar o fornecimento de matéria-prima (escala) e de terminar os animais com peso e acabamento adequado. Enquanto o volume do confinamento do Grupo JBS em 2010 constou com 168.772 cabeças, a previsão da empresa para 2012 aumentou para 230.000. Outros números disponíveis são para Marfrig (120.000) e Minerva (80.000). Podemos assim deduzir que esse pequeno grupo ocupe um potencial de 10% sobre o volume total de todos os animais terminados em 2012.

Também temos o Boitel, um prestador de serviço para invernistas. Esse modelo deve crescer menos nos próximos anos devido à maior exposição aos principais riscos da atividade.

Outro ator importante são as indústrias de transformação com resíduos, que podem ser convertidos em alimentação bovina. Mesmo possuindo um potencial interessante no perfil de custos (alimentação, logística, instalações), ainda não se nota um movimento substancial nesse segmento.

Parece que a nova estrela do setor será o agricultor, que descobriu a terminação do boi como ferramenta interessante para complementar seu negócio, ao usar melhor a terra e amortizar seus pesados investimentos em estruturas e maquinário. Naturalmente, o pecuarista também pode ampliar sua atividade e integrar lavoura ou silvicultura à produção bovina. Temos aqui um vasto potencial de parcerias com benefício mútuo.

O CENÁRIO

Apesar de todos os cinco grupos acima trabalharem com confinamento, o modelo de negócio de cada segmento é bastante diferente. Desde estrutura de custos, competências tecnológicas e habilidades gerenciais, os grupos concorrem com vantagens e desafios distintos. Comuns a todos são as tendências macro e os riscos da atividade.

OS DESAFIOS

Conforme o modelo de confinamento, varia a exposição ao conjunto de riscos que afetam a atividade. Em princípio, precisamos contar com as seguintes incertezas:

Independentemente dos esforços parciais através de pesquisas de intenção (BeefPoint Top 50, ASSOCON levantamento 2012, IMEA monitoramento MT, etc.), a falta de transparência do setor e a ausência de articulação estratégica entre suas empresas aumentam a vulnerabilidade da atividade com previsões desencontradas e retificadas a cada mês. O fato de que apenas metade dos grandes confinadores usa instrumentos de blindagem de risco revela que o setor está exposto a riscos exógenos que não estão cobertos pelas margens entre 2% e 4% observadas ao longo dos últimos anos. Essa performance econômicofinanceira é confirmada pela rentabilidade dos feed lots americanos e australianos.

A combinação de falta de planejamento adequado e o cenário de riscos sistêmicos parece ser o principal motivo pelo qual o confinamento não cresceu tanto como era esperado e como estaria justificado pela necessidade do mercado. Em face desse panorama, coloca-se a questão: como o setor pode acelerar seu ritmo de crescimento e promover o salto quantitativo, qualitativo e de rentabilidade que merece?

UMA NOVA DIMENSÃO

O confinamento representa a interface entre o fornecedor de bois magros, a indústria de insumos e o frigorífico. A dependência das forças do mercado é enorme, motivo pelo qual profissionalismo e uma inteligente gestão de risco são os pré-requisitos para ter sucesso. Essa forte inserção em três universos distintos do sistema de produção da carne garante ao confinador visão e conhecimentos que os outros segmentos não possuem.

O mercado exige cada vez mais características físicas e virtuais sofisticadas do produto. Marca, sanidade, eficiência da cadeia de suprimentos, conveniência e preço são os sinais que orientarão o novo relacionamento da cadeia com o consumidor. Estamos perante uma revolução na organização do processo.

Tradicionalmente tem sido o pecuarista quem define qual raça e tipo de animal que ele quer criar e engordar, qual o sistema e o processo que quer usar e quando e em que estado ele vende produto para o frigorífico. Essa situação levou à confusão de animais no curral dos frigoríficos, que todos conhecemos muito bem e que impede um processo industrial ordenado e eficiente. Todavia, tudo isso está mudando. Não será mais o produtor quem decide o que e como fazer. Será o consumidor, que, através do seu porta-voz, o comprador do supermercado, comunica ao frigorífico o que, em que formato, em que data e por qual preço pretende comprar carne. Essa quebra de paradigma da produção bovina está provocando a chamada “inversão da lógica” da cadeia produtiva da carne (gráfico).

E quem será o interlocutor mais apropriado para articular esse novo paradigma com os diversos atores do setor? Alguém que tenha maior qualificação, isenção e interesse econômico na modernização da engrenagem de produção, insumos e industrialização da carne. Precisará também entender as três facetas, animal, alimento e processo industrial, para promover a chamada inversão lógica da cadeia da carne. Ninguém melhor do que o confinador.

O fluxo do comando que passa do consumidor, via distribuidores (varejo, meat service, exportação), aos frigoríficos e, de lá, é transmitido para os centros tecnológicos nas centrais de inseminação e na sofisticada indústria de insumos, de onde, através dos seus técnicos, essas mensagens e conhecimentos são difundidos entre as fazendas abertas para profissionalizar seus sistemas produtivos. Do outro lado, o confinamento exerce uma pressão de demanda por animais mais padronizados, que permitem ao frigorífico confeccionar produtos que condizem com os sinais recebidos do consumidor. Trata-se de um circuito fechado, no qual o confinamento assume a função de corrente de transmissão da modernidade do setor da carne.

Atualmente, o confinamento representa em torno de 6% do abate anual. Juntamente com o semiconfinamento e soluções dinâmicas de suplementação a pasto, parece ser possível atingir um volume entre 15% e 20% dos animais abatidos que correspondem aos critérios de qualidade, sanidade e confiabilidade demandados pelo mercado. Com essa proporção, o Brasil continua longe do percentual de animais confinados no volume de abate observado nos EUA (tabela). Porém, é importante lembrar que as vocações, culturas empresariais e condições climáticas são bem diferentes entre os dois países.

Fica assim patente que existe um caminho interessante para trilhar nos próximos anos. Um grupo de produtores dinâmicos e diferenciados perceberão os desafios e as oportunidades e se juntarão ao novo modelo mais sincronizado de produzir carne bovina. Os outros, menos profissionalizados, continuarão a abastecer os segmentos de mercado menos exigentes e com preços inferiores.

*Villa é consultor internacional e economista da Sociedade Rural Brasileira – prismapec@gmail.com