Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

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Mercado de Corte

 

O boi gordo em 2012

Baixa demanda, chuvas adversas e aumento dos custos de produção fizeram mercado patinar

A nalisando de forma geral, o mercado brasileiro de carne bovina em 2012 passou por fases inconstantes de altos e baixos, além de várias especulações de como se manteria diante de fatores como a irregularidade das chuvas na maioria das regiões, o aumento das exportações de carne bovina in natura e de bovinos em pé, a elevação no preço de insumos a partir do segundo semestre de 2012, a baixa demanda por carne e a competição com as outras fontes de proteína que, devido a algumas crises sofridas, tiveram preços reduzidos. Além destes, um fato importante foi o grande número de abate de fêmeas registrado durante todo o primeiro semestre do ano, acontecimento atípico frente às tendências costumeiras do ciclo pecuário, quando se espera que o abate de matrizes diminua após abril/maio, época em que ocorre o descarte final das fêmeas improdutivas na estação de monta. Em 2012, o reflexo de uma retenção de matrizes ocorrida no passado fez com que esta tendência não fosse cumprida e, com as chuvas ainda caindo em diversas regiões em épocas em que estas já não eram esperadas, o pecuarista pôde optar por manter animais em terminação no pasto, em busca de melhores valores nas negociações, acabando, assim, por enviar fêmeas para o abate e o preenchimento das escalas da indústria frigorífica. Este movimento acabou por aumentar a oferta de animais até meados de agosto, o que pressionou o mercado e derrubou os preços da @, que só se recuperaram nos últimos meses. Ainda assim, após tanta pressão, embora tenha se recuperado, o preço médio pago pela @ em todo o País encontra-se aquém do esperado pelas previsões realizadas no início do ano.

Mesmo diante de toda essa especulação sofrida no decorrer do ano com relação aos preços e ao mercado futuro, o Brasil passou por alguns importantes momentos também ligados ao setor internacional, como, por exemplo, a transmissão, em janeiro, da responsabilidade pela fiscalização sanitária dos estabelecimentos aptos a exportar carne bovina para a União Europeia, da European Comission para o Mapa. A chamada lista Traces se refere à relação de fazendas com autorização para exportar o produto diretamente ao consumidor, como, por exemplo, açougues. Até o ano passado, este relatório era emitido pelo Ministério, mas passava, ainda, por aprovação dos órgãos de sanidade europeus. Agora, com esta mudança, além do aumento de confiança do bloco na fiscalização brasileira, o processo de certificação de fazendas tornou-se, inclusive, mais rápido. Em contrapartida à atitude europeia, o Brasil propôs a unificação dos bancos de dados de Sistema de Informações Gerenciais do Serviço de Inspeção Federal (SIGSIF), Serviço de Rastreabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos (Sisbov) e Guia de Trânsito Animal (GTA) Eletrônica, sob a denominação de Plataforma de Gestão Agropecuária (PGA). O Paraná foi o estado pioneiro na informatização da GTA, utilizada desde maio de 2003. Desde então, o Brasil criou, por meio da Instrução Normativa 17, um critério de fornecimento de animais para a União Europeia (UE), nos casos de venda direta ao consumidor. A lista atual de fazendas aptas para exportar carne bovina in natura para a União Europeia (Traces), divulgada em 14 de novembro pelo Mapa, conta com 1.846 propriedades, 71 a menos do que no mês anterior. Estas propriedades estão divididas, por estado, da seguinte maneira: 11 no ES, 448 em GO, 368 em MG, 246 no MS, 436 no MT, 31 no PR, 172 no RS e 134 em SP.

Se analisarmos o ano de 2012, até o dia 23 de novembro, o valor médio da arroba desde janeiro se manteve em US$ 60,00, em todos os países normalmente avaliados nesta coluna – Brasil, Argentina, Austrália e Estados Unidos. Para o período atual, de 24/10 a 23/11 (21 dias úteis), o valor da arroba no mundo, comparado ao período anterior, teve queda na Argentina, aumento nos Estados Unidos e se manteve constante no Brasil e na Austrália, ficando com as respectivas médias

para o período: US$ 57,78, US$ 74,12, US$ 48,62 e US$ 47,16. Destes, com relação ao ano de 2011, Brasil e Austrália sofreram redução nas médias, sendo a redução do primeiro bastante significativa (aproximadamente US$ 10,00/@). A Argentina e os Estados Unidos, apesar de enfrentarem crises no setor, obtiveram médias muito semelhantes ou superiores às de 2011, como pode ser observado nas tabelas do boi gordo no mundo.

Ainda com relação ao mercado externo, apesar do otimismo trazido pela confiança adquirida pelas autoridades brasileiras em relação à sanidade frente aos europeus e ao mundo, do outro lado está a Rússia e seus embargos às carnes suína e bovina do país, que completam, ao final de 2012, um ano e meio. Mesmo após a realização de visitas em plantas frigoríficas brasileiras nos estados que tiveram produtos embargados e em outros estados, o Serviço Veterinário russo (Rosselkhoznadzor) ainda não definiu a questão e, embora já tenha enviado ao Ministério relatório sobre estas visitas, o embargo continua aguardando solução provável para 2013. Apesar disso, a mudança do status do país na OIE (sigla em inglês para Organização Mundial de Saúde Animal) para Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) - conhecida vulgarmente como “doença da vaca louca” - de risco controlado para insignificante, também trouxe mais segurança e credibilidade para a carne brasileira e, junto a isso, a abertura de novos mercados, como os de Indonésia, Malásia e Japão, cujas negociações para exportação de carnes bovina, suína e de aves avançaram ao longo deste ano.

De acordo com dados da Secex, o volume de carne bovina in natura embarcado em outubro (100,6 mil t) foi o maior desde julho/2010, ultrapassando em 36% o total de junho/12, um dos menores montantes exportados em 2012 até o momento. Este número é 4,06% maior que o de outubro de 2011 (96.679 mil toneladas). (Dados SECEX – Secretaria do Comércio Exterior do MDIC.) A evolução das exportações brasileiras de carne bovina pode ser observada no comparativo abaixo.

O abate de bovinos no Brasil no mês de novembro (até o dia 23) totalizou 715.886 cabeças, sendo, até o momento, os estados com maior número de abates, Mato Grosso (com 235.167 cabeças), Rondônia (com 136.860 cabeças) e São Paulo (com 97.213 cabeças). O restante (246.646 cabeças) está distribuído entre os demais estados (lembrando que até o fechamento desta edição os dados são parciais). Até o momento, o número de cabeças abatidas corresponde a 36,36% do montante abatido em outubro, que foi de 1.968.816 cabeças. De janeiro até o último dia avaliado em novembro foram abatidas 19.998.283 cabeças, valor este 0,8% maior que o do mesmo período de 2011 (Fonte: MAPA). É importante ressaltar que no ano de 2012 estes dados ainda podem aumentar até o fechamento do mês de novembro e que para 2011 foi considerado o valor do mês de novembro inteiro. Isto nos mostra que, do ano anterior para o atual, podem ser obtidos índices de abate consideravelmente maiores até o fechamento definitivo dos 12 meses considerados. Além disso, com a proximidade das festividades de fim de ano, a tendência é de mercado aquecido para os próximos períodos.

No decorrer de 2012, o valor pago pela arroba do boi gordo em novembro foi, até o momento, o mais alto observado em comparação aos meses anteriores, para todas as praças analisadas. No estado de São Paulo, houve um aumento de 1% quando comparamos o valor médio pago pela arroba em janeiro (R$ 97,53) e o valor médio pago em novembro, de R$ 98,50 (considerando o período até 23/11/2012). Embora não muito representativo, quando observamos o valor médio pago em todas as unidades federativas, notamos um aumento semelhante ao longo do período de janeiro a novembro de 2012. Este aumento característico a partir do terceiro trimestre do ano se deve, principalmente, à redução da oferta de animais terminados ocorrida entre o primeiro e o segundo semestre. Entre os fatores causadores desta redução de oferta podemos citar, como exemplos, a oferta exagerada observada no primeiro semestre, a estiagem sofrida em algumas regiões e a irregularidade das chuvas que alterou relativamente o ciclo pecuário em 2012, além do insucesso da primeira fase do confinamento, que desmotivou alguns produtores a investirem na segunda, diminuindo também a quantidade prevista de animais oriundos deste sistema nesta época do ano.

No período atual analisado (de 24 de outubro a 23 de novembro), como pode ser observado no gráfico da evolução do preço da arroba do boi gordo, houve um aumento no valor pago aos pecuaristas para todos os estados considerados, sendo que o maior aumento observado aconteceu no estado de Goiás. Os demais estados acompanharam esta elevação, sendo que na grande maioria foi observado um pico de preço e, no fechamento do período, uma ligeira queda.

Esta queda observada, provavelmente, deve-se aos feriados ocorridos no período, o que normalmente causa redução de negócios no mercado pecuário. Mas, os preços do boi gordo seguiram firmes. No decorrer de novembro, o Indicador do boi gordo ESALQ/BM&FBovespa acumulou alta de 0,97% e, na última quarta-feira do período analisado (21/11), fechou em R$ 97,27. Como o volume de animais prontos para abate ofertado à indústria não é expressivo porque grande parte ainda é de confinamento e, desses, muitos animais já estão comprometidos em negócios antecipados, as dificuldades dos frigoríficos para preenchimento das escalas aumentam. Completando o cenário, isto ocorre num período em que o consumo doméstico tende a se elevar, devido às festas natalinas e ao recebimento de 13º salário, e que a exportação se mostra crescente.

O deságio médio pago aos pecuaristas nas negociações à vista no período foi de 2,14%, valor 5,84% maior que o observado no período anterior (24/09 a 23/10), que foi de 2,02%.

Nas análises desta coluna no decorrer de 2012, de janeiro a novembro (considerando até o dia 23), a média do deságio no país foi de 2,12%, sendo que o único estado que apresentou média sempre superior à nacional foi o Rio Grande do Sul. Nos demais, o deságio sofreu inversão de posição em alguns períodos, estando ora acima da média nacional, ora abaixo dela. Comparando-se janeiro de 2012 a novembro de 2012, houve uma elevação média geral de 2,40% no valor médio do deságio, que em janeiro era de 2,09% e em novembro chegou a 2,14%. Esta mudança ilustra com clareza o comportamento do mercado, comprovando que as apostas feitas no início do ano, sobre um melhor preço pago pela @ do boi gordo, foram bem sucedidas, apesar de não terem atingido os patamares esperados por alguns.

No período atual, o valor médio da relação de troca entre desmama e boi gordo foi de 2,38, o que equivale a uma elevação de 0,85% em relação ao período anterior, que fechou este índice em 2,36; esta alteração não representa mudança muito significativa entre os dois períodos, indicando que a demanda por animais de reposição da categoria desmama ainda não está tão representativa.

Em estados como São Paulo e Paraná, o preço médio por cabeça nesta categoria (oito meses de idade) fechou, respectivamente, em R$ 684,29 e R$ 714,29. De modo geral, Minas Gerais e Rio Grande do Sul apresentaram quadros de relação de troca superiores aos demais estados. Estes valores estão, respectivamente, 8,82% e 12,18% acima da média nacional. O pior cenário de relação de troca para a categoria desmama/boi gordo ficou com o estado do Mato Grosso, que obteve um índice de 2,24 (5,9% abaixo da média nacional).

A relação de troca entre boi magro e boi gordo apresentou, no período atual, o valor médio nacional de 1,37. Este valor foi 2,24% acima do observado no período anterior, que foi de 1,34. Goiás, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul apresentaram índices acima desta média; São Paulo e Minas Gerais apresentaram índices semelhantes à média e, nos demais estados considerados (Mato Grosso e Paraná) os índices permaneceram abaixo do nacional, o que quer dizer que, na maioria dos estados brasileiros analisados, podese adquirir até 1,37 bois magros com a venda de um boi gordo.

Natalia Laperuta e Andrea Brasil
Boviplan Consultoria