Uma edição que vale por 12. A publicação destaca análises anuais dos principais setores da pecuária brasileira.

Informação com credibilidade há 17 anos!

Do Pasto ao Prato

Hamburguer Angus no McDonalds:

PROVEI E APROVEI !

Em meados de novembro, o McDonalds lançou um novo produto, um hamburguer premium com carne Angus. Desde que soube da novidade, fiquei na expectativa para prová-lo. Precisamente no dia 16 de novembro estava em São Paulo/SP, para uma série de reuniões com clientes do Beef- Point e aproveitei para experimentar a novidade.

Sou grande entusiasta da pecuária de corte brasileira. Também sou grande aficionado por uma boa carne e acredito muito no poder de mudança de um bom marketing. Acredito firmemente que o sucesso futuro da pecuária passa pela qualidade e diferenciação. Sou entusiasta das marcas de carne e estudo muito sobre marketing de carne. Acredito que muito em breve vamos viver grandes mudanças na pecuária de corte e o marketing vai fazer parte dessas mudanças, de forma muito positiva.

Por todos esses motivos, eu fico muito animado quando vejo boas novidades sendo lançadas. É difícil colocar de pé um projeto desses. É uma decisão que envolve riscos e que precisa de uma série de pessoas envolvidas, em diferentes empresas e entidades. Imagine que foi preciso envolver McDonalds, Associação Brasileira de Angus, frigorífico e produtores para viabilizar a iniciativa, que, mesmo sendo piloto, já está em cerca de 300 lojas da rede. Quanto mais gente, cada um com sua agenda e seus interesses, mais difícil para rodar um projeto, mesmo que seja uma excelente ideia. Parabéns aos envolvidos!

Algumas pessoas mais próximas podem me perguntar: mas por que tanta animação se sua origem é no Nelore? Sim, é verdade. Minha família cria Nelore há quase 100 anos e tenho muito orgulho disso. Mas eu procuro ver as coisas de uma forma mais ampla. O projeto Angus no McDonalds é promissor para todos na pecuária, pelas mudanças, inspiração e até estímulo para concorrência. Pelos mais diversos motivos, as pessoas, empresas e entidades vão ficar com mais vontade, pressa e coragem para agir. E isso é muito bom. Temos muitas oportunidades pela frente, mas que precisam ser trabalhadas.

A carne bovina vai ser vendida cada vez mais como um produto premium, como algo especial. A briga do preço baixo já perdemos há tempos para o frango, e daqui em diante ainda teremos peixe a baixo preço. E a diferença de preço entre a carne bovina e outras proteínas animais deve aumentar. Produzir bezerro, boi e carne é caro, difícil e demorado. A forma de ganhar essa concorrência é pelo sabor, pela qualidade, pela experiência de consumo. E nisso a carne bovina ganha de longe e pode continuar a ganhar com mais folga, se trabalhar com afinco esse lado. Brinco que teremos mais demanda por uma picanha boa e cara do que por uma ruim e barata.

E o produto, é bom? Sim, o hamburger Angus é muito bom. Eu gostei muito, e olha que já comi quatro sanduíches, em três ocasiões diferentes. Na primeira vez, pedi as duas opções, pois queria conhecer o produto. Até brinquei com a atendente: “estou aqui a trabalho”. O sanduíche é bem grande e a carne muito suculenta. O preço também é premium. É o lanche mais caro da loja, R$14-15 só o sanduíche, ou R$ 21 com batata e bebida. Não sei bem o que eles fizeram, mas na mesma semana comi um hamburguer numa rede de restaurantes famosa de São Paulo, que custou R$ 29 só o sanduíche e achei o do McDonalds melhor. Há alguns anos, eu provei um sanduíche Angus num McDonalds nos EUA e não gostei tanto.

Interessante é que nas lojas, há um grande destaque para esse lançamento, com nome e logo Angus em todos os materiais. Uma quantidade muito grande de pessoas vai ver, provar e associar o nome Angus com algo premium e especial. Um grande ganho de imagem para todos os envolvidos com o Angus.

Meu desejo é que esse projeto seja um sucesso; que o McDonalds venda muitos lanches premium com a marca Angus; que isso seja muito bom para a imagem da associação de Angus e também que dê retorno financeiro para frigoríficos e produtores envolvidos, além do McDonalds.

Desejo, espero e incentivo que essa ideia, esse projeto, seja um estímulo a mais para outros grupos, outras associações, e que outras marcas de carne façam coisas diferentes para promover a carne especial no Brasil. Por exemplo, a carne Nelore Natural poderia fazer um programa especial com a rede Spoleto, a carne orgânica do Pantanal poderia servir os pratos da rede Wraps, que também tem uma proposta de alimentação saudável e sustentável. A carne Hereford poderia fazer um festival que divulgasse todos os restaurantes que servem sua carne.

Enfim, há muito que pode ser feito. O que precisamos é de uma reflexão e de ideias diferentes, de inovação, para acelerar e aumentar as vendas de carnes especiais, produtos diferenciados. Não vai ser fazendo o mesmo que teremos resultados diferentes.

Eu acredito, baseado em tudo que observo acontecer aqui no Brasil e também ao analisar o que já vem acontecendo no exterior nos últimos anos, que há grande potencial (ainda pouco explorado) para carnes especiais e marcas de carne bovina aqui no Brasil. A economia e a demanda crescem e o consumidor espera e deseja provar coisas novas e melhores.

Por outro lado, há muita gente que pensa ser impossível ou inviável lançar marcas de carne no Brasil ou ter carnes especiais com sucesso por aqui. Para esses é excelente que existam cada mais projetos pontuais que apostam e enfrentam dificuldades inicias, e que sejam a prova viva de que é possível. Há um ditado que diz que é preciso ver para crer. E esses casos, como a carne Angus no McDonalds, são o exemplo visível de que é possível fazer.

Também aproveito para lembrar uma frase do famoso Peter Drucker: “Sempre que você ver um negócio de sucesso, lembre-se que um dia alguém tomou uma decisão corajosa”. Depois que vemos algo dar certo, parece até óbvio e nos esquecemos de como era a realidade antes de começar, quantas dificuldades tiveram de vencer. Como diz um ditado sertanejo: “depois da onça morta, todo cachorro é valente”.

Nosso trabalho aqui no BeefPoint e na Revista AG é justamente esse: mostrar o que há de melhor na pecuária de corte brasileira, para que mais gente aprenda, acredite e se inspire em também fazer melhor. Com isso, a pecuária cresce, melhora e avança. Vamos cada vez mais celebrar, divulgar e promover o que há de melhor na pecuária de corte brasileira.

E você, o que acha dessa iniciativa da associação de criadores de Angus em lançar um lanche premium no McDonalds? O que outras entidades e empresas poderiam fazer?

Miguel da Rocha Cavalcanti é engenheiro-agrônomo e
coordenador do BeefPoint, site especializado na cadeia
produtiva da carne bovina (www.beefpoint.com.br)