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Aftosa

Desafios e REMINISCÊNCIAS

Sebastião Costa Guedes*

Desafios - Os recentes focos de aftosa em San Pedro, Paraguai, rapidamente contidos segundo informações das autoridades daquele país, deixam, entretanto, uma pergunta que precisa ser respondida: qual a origem do vírus ou de onde ele surgiu?

A realidade que muitos leigos e amadores ignoram é que o vírus não cai de paraquedas em um foco.

Esta averiguação, com a necessária transparência entre os países do continente e participando também o órgão continental específico – o PANAFTOSA –, é essencial para que haja a eliminação de recidivas cíclicas e permita ao programa hemisférico - PHEFA - acabar com a presença clínica da aftosa na América do Sul.

Conforme amplamente discutido, a provável origem do vírus seria a região do Chaco, que abrange territórios na Argentina, Bolívia e no Paraguai. Nesta região, um programa oficial de vacinação assistida durante 4 a 5 anos eliminaria totalmente a doença e asseguraria o sucesso do programa na região do cone sul.

Este desafio deveria ser o principal objetivo dos setores oficiais e privados da Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Brasil, principalmente na reunião extraordinária da COSALFA, realizada em 29 e 30 de novembro no Rio de Janeiro .

Outra concentração de esforços possibilitaria limpar os territórios do Equador e Venezuela, tarefa que poderia ser concomitante com a operação no Chaco, permitindo, assim, que a América do Sul seja o próximo continente totalmente livre da aftosa.

Para maior tranquilidade futura, os países da região deveriam em efetiva união apresentar à OIE e posteriormente à OMC a proposta para igualar para fins de certificação e comércio internacional os status de livre de aftosa com ou sem vacinação.

Reminiscências

A recente prevalência da aftosa em alguns países tem demonstrado interlocutores com parcos conhecimentos sobre esta virose milenar. O resumo abaixo pretende ilustrar a evolução desta doença.

Aftosa era citada como doença há mais de 2.000 anos. Foi Girolamo Fracastoro, monge, médico e matemático nascido em Verona, Itália, que a descreveu pela primeira vez em 1546 em sua obra “De Contagione et Contagiosis Morbis”. Fracastoro, professor na Universidade de Pádua, foi o médico do papa Paulo III no famoso Concílio de Trento.

Em 1898 o alemão Löffler atribuiu a vírus a causa desta doença.

A vacina foi um desenvolvimento pioneiro de Otto Waldmann na ilha de Riems, na Alemanha, em 1938. Depois, em 1947, Frenkel aperfeiçoou o sistema de produção usando epitélios linguais. A seguir vieram as vacinas produzidas com a inoculação em coelhos neonatos e finalmente, após a década de 60, no século passado, chegaram as desenvolvidas em culturas de tecidos, tecnologia ainda hoje em uso.

As primeiras vacinas no Brasil, segundo Ubiratan Mendes Serrão e José Freire de Farias, foram feitas no Instituto de Biologia Animal , no Rio de Janeiro. Tal vacina era retirada de caldeirões em conchas e transferidas para recipientes de vidro ou metal que os criadores levavam. Isto ocorreu no início dos anos cinquenta, no século anterior.

O Centro Pan-americano de Febre Aftosa (PANAFTOSA), criado por Getúlio Vargas em 1951, em convênio com a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), foi núcleo irradiador de tecnologia e difusor de conhecimentos epidemiológicos sobre a aftosa no país e no continente sul-americano. A vacina oleosa foi desenvolvida no PANAFTOSA. A evolução de controle para erradicação foi dinamizada a partir do final da década de 1970, com o maior envolvimento do setor privado e dos criadores em geral. Hoje, estamos próximos de ter todo o país totalmente livre da doença com ou sem vacinação.

Foi um trabalho árduo, principalmente no período de 1960 a 1980, quando o hábito de prosseguir imitando os costumeiros tratamentos dos pais e avós predominava.

Níveis de mortalidade por aftosa chegavam, em alguns casos, a atingir 25% dos animais, agravados pela impossibilidade de locomover e de ingerir alimentos.

Esse tradicionalismo na abordagem da aftosa ainda persistia em larga escala há 40 anos. A grande maioria não vacinava seus animais e é preciso dizer que as vacinas de então também deixavam a desejar, não só pela tecnologia, mas pela necessidade de aplicações trimestrais, pela distribuição precária, por falhas na cadeia do frio mas também pelo nível de infecção existente em determinadas regiões naquela época. Criadores às vezes compravam a vacina e não a aplicavam! Relutavam em vacinar e usavam a ineficiente panaceia de espremer limão, misturar cinzas e óleo queimado no sal comum,tratamento considerado de primeira classe. Melhor do que isso era pincelar querosene na nuca dos animais.

*Médico-veterinário, diretor de
sanidade animal do Conselho Nacional da
Pecuária de Corte (CNPC) e membro do
Grupo Interamericano para a Erradicação
da Febre Aftosa (GIEFA)