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Uva/Vinho

 

A vez do suco

No primeiro semestre, houve aumento das vendas de suco de uva em 25%, o resultado é atribuído à divulgação dos benefícios do produto à saúde. Já as vendas de vinho estacionaram

Luís Henrique Vieira

Dados revelados pelo InstitutoBrasileiro do Vinho (Ibravin),principal entidade representativa do setor vitivinícola, mostraram um crescimento expressivo das vendas de suco de uva no primeiro semestre de 2015 em comparação ao igual período do ano passado. A subida foi de 39,6 I b r a v i n milhões de litros no primeiro semestre para 49,4 milhões de litros – um salto de 24,8%. Para o gerente de promoção do Ibravin, Diego Bertolini, e outros especialistas no setor, o resultado reflete a divulgação dos benefícios do suco de uva à saúde em programas de televisão com, audiência expressiva, além de promoções em revistas, jornais e até novelas.

“Essas reportagens destacaram o poder de emagrecimento do suco de uva e tiveram um papel muito importante nas vendas. É o nosso produto, que tem maior potencial porque tem público muito maior. Se vende de aposentados a crianças. Representa cerca de 80% nas vendas em supermercado”, ressalta Bertolini. No caso dos vinhos, as vendas no período apresentaram um crescimento tímido, de 0,37%, para 99,9 milhões de litros, dos quais 9,1 milhões de litros foram em vinhos finos (ou viníferas) e 90,7 milhões de litros de vinhos de mesa (ou suaves, tradicionalmente vendidos em garrafão).

De acordo com o Bertolini, a venda de vinhos finos é bastante sazonal. Costumeiramente com as temperaturas mais frias, o consumo aumenta nas regiões que ficam ao Sul de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Outro grande empecilho apontado pela indústria para um maior incremento de vendas de vinhos é o custo de produção, o “Custo Brasil”, que torna difícil a concorrência com produtos da Argentina e do Chile. Entre os gastos mais onerosos estão a carga tributária, a logística, a energia elétrica e os insumos. “Em uma grande cidade como Porto Alegre, bons vinhos importados estão vendidos a R$ 8. Para nós, é praticamente impossível vender por esse preço com lucro. Algumas vinícolas já estão importando garrafas do Chile. Outras também importam as rolhas”, descreve.

Apesar de um aumento significativo das exportações no ano passado em função da visibilidade do Brasil na Copa do Mundo, os números não se repetiram neste ano, também por conta da falta de competitividade. As vendas externas nos primeiros seis meses de 2015 caíram 63,43%. No início de 2014, houve um incremento de 375,3%. “Para os Estados Unidos, apenas enviamos nossos melhores vinhos, mas o preço chega a US$ 8, enquanto que vinhos sul-africanos e australianos da mesma qualidade chegam a US$ 4. O grosso do nosso mercado realmente é o consumo doméstico, mas no ano que vem há as Olimpíadas e as exportações devem voltar a crescer”, prevê o gerente de promoção do Ibravin.

Uma queixa antiga das cooperativas de produtores da Serra Gaúcha é o número de agricultores que possui excesso de produção e depois não encontra compradores para as uvas

O pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, José Fernando da Silva Protas, responsável pelo Programa de Modernização da Vitivinicultura (Modervitis) – criado pelo Governo Federal em 2010 –, argumenta que há tendência de aumento da demanda e da produção de sucos de uva, espumantes e vinhos de mesa. Segundo Protas, estão sendo implementadas importantes mudanças na cadeia da vitivinicultura que já estão fazendo com que o produtor e as vinícolas aumentem o valor agregado sobre os produtos.

“Mais de 60% dos vinhos de mesa produzidos no Rio Grande do Sul eram vendidos a granel e engarrafados muito longe de onde a uva era plantada, nos estados onde havia o consumo final. Era uma commodity. Agora é um percentual muito menor do que isso”, afirma.

O pesquisador ainda revela que o Modervitis vem focando no aumento no grau de açúcar dos vinhos de mesa. Atualmente, é de cerca de 13 graus. A meta do programa é que se chegue a 17 graus de concentração em um período de sete a dez anos. “Queremos aumentar a qualidade e engarrafar tudo aqui no Rio Grande do Sul.

Isso vai trazer competitividade qualitativa”, analisa Protas. A empresa que deve prestar assistência técnica para produtores como parte do programa já foi selecionada no Paraná e em Santa Catarina, mas houve atraso no Rio Grande do Sul, onde envolve 800 famílias. Segundo Protas, esse processo deve ser finalizado ainda neste ano.

O Modervitis ainda deve esclarecer as mudanças que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve fazer com as linhas de crédito. A linha PSI encontra-se em reestruturação e a principal linha deve ser o Pronaf, revela o pesquisador da Embrapa. Uma queixa antiga das cooperativas de produtores da Serra Gaúcha é o número de agricultores que possui excesso de produção e depois não encontra compradores para as uvas.

Protas argumenta que trabalha para uma relação contratual antecipada entre agricultores e vinícolas. “Já foram criados os termos contratuais entre Ibravin e outros sindicatos. Vamos auxiliar para que o produtor plante a variedade de uva certa e receba toda a orientação com relação à localização geográfica dele. Com a sazonalidade, é tudo concentrado em um período e tem produtor que fica três dias com o caminhão carregado parado. Temos de estender a colheita,” reconhece Protas, propondo maior programação no transporte das uvas.