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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Tabaco

Tem que diminuir

A própria associação dos fumicultores sugere que a área de tabaco precisa encolher para que eles garantam a lucratividade. Muitas famílias estão abandonando o cultivo e outras, diversificando a propriedade

Thais d’Avila

Produtores de tabaco do Suldo Brasil projetam um lucrode 8% na recente safra na variedade Virgínia. O percentual é quase um terço do obtido na safra 2012/13, que foi de 22%. No ciclo passado, 2013/14, os produtores tiveram lucratividade de 17%. A informação é da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), que vem alertando os produtores sobre os riscos de manter a área em tempos de Afubra queda na demanda e nos valores de mercado.

Enquanto lamentam a queda na lucratividade, lideranças do setor do tabaco do Brasil torcem pela redução de outro número: o de área plantada. A expectativa é de que os fumicultores sigam a recomendação das entidades e reduzam a produção. A área plantada já diminuiu em relação à safra anterior: de 323,7 mil para 308,2 mil hectares. A produção de 2015 está sendo projetada em 700 mil toneladas, contra 735 mil toneladas de 2014. E agora, para manter a lucratividade, é preciso plantar ainda menos. “O que nós pregamos não é a saída do produtor da atividade. O que queremos é a redução de área” afirma o presidente da Afubra, Benício Werner. Segundo ele, o ideal seria diminuir a média de 30 mil para 25 mil pés por propriedade.

Werner acredita que o produtor que não segue a orientação não está fazendo as contas certas, porque olha apenas o resultado financeiro, de caixa, em vez de observar o resultado econômico. Conforme o dirigente, dentro do custo de produção, a mão de obra representa 53%. E na planilha de custos entram outros itens como a lenha para a secagem do tabaco, a depreciação, a manutenção de estufas e paiois. “Como ele não desembolsa para isso, se ele olhar o resultado de caixa, não se preocupa tanto. Para ele, interessa o dinheiro na mão”, entende.

O número de propriedades no Brasil que produzem tabaco vem diminuindo: em 2013/14, eram 182,9 mil famílias e, nesta safra, o número caiu para 174,2 mil

O presidente da Afubra se preocupa com o futuro. “Nós não podemos deixar cair a lucratividade muito mais do que está. Senão ele vai trabalhar só com caixa e não com o lado econômico da propriedade. Ele terá dificuldade de gerir e administrar a propriedade como um todo e até de garantir o bem-estar da família.”

O número de propriedades envolvidas na atividade também vem despencando nos últimos anos. Em 2013/14 eram 182,9 mil famílias e nesta safra o número caiu para 174,2 mil em todo o Brasil. A queda foi praticamente toda contabilizada na Região Sul, que concentra grande parte da produção de tabaco para a indústria, onde o percentual de queda ficou em 5,3%, com mais de 8,7 mil famílias deixando a atividade. Isso, conforme o dirigente, tem a ver com as políticas de diversificação, que vêm mostrando outras possibilidades ao produtor rural. Mas não é só isso. “Em parte, são produtores que estão indo para outras culturas. E, em parte, é em virtude do próprio mercado que está reduzindo a demanda”, descreve.

Abandono e diversificação — A Afubra e outras sete entidades do Sul estão recomendando a redução de área, mas, em vez disso, muitas famílias têm saído da atividade. “A definição é do próprio produtor. Se nós tivermos uma redução, nós certamente teremos uma adequação melhor entre oferta e demanda,” conclui Werner.

Entre as famílias que estão há mais tempo no processo de diversificação, a maioria busca investimentos em agroindústrias – grande parte por causa dos programas de incentivo. “Nós temos um número bastante grande de famílias que têm apostado no beneficiamento. Da produção de leite, fazem queijo e outros subprodutos; da uva, o suco e por aí vai”, descreve. Conforme ele, as agroindústrias demandam mais tempo das pessoas, que não conseguem atender as duas atividades. “Para quem opta pela viticultura, a colheita da uva em algumas regiões ocorre na mesma época do fumo, por exemplo”.

Perda de espaço para os africanos — Se a produção de tabaco e o número de famílias envolvidas no processo despencaram, não foi diferente com as exportações. O fechamento de 2014 totalizou US$ 2,5 bilhões, uma queda de 24% em comparação a 2013. Conforme o Sindicato Interestadual das Indústrias de Tabaco (Sinditabaco), nos anos anteriores as vendas externas não baixavam de US$ 3 bilhões. Conforme o presidente da entidade, Iro Schünke, entre os fatos que contribuíram para essa queda está a demanda menor dos clientes pelo tabaco brasileiro, em grande parte por causa da concorrência dos países africanos. “Nossos concorrentes como Zimbábue, Moçambique, Tanzânia e Malawi tem uma vantagem competitiva em relação ao Brasil, que é o custo menor, principalmente em função da mão de obra, que é bem mais barata na África”, afirma.

Além disso, o maior produtor mundial, que é a China, estava com estoques remanescentes de centenas de toneladas. Isso, conforme Schünke, “afetou a procura de tabaco brasileiro e de outros países e fez com que as indústrias daqui ficassem com um estoque maior do que em anos normais”. O dirigente também aponta uma pequena redução de consumo de cigarro no mundo, em torno de 3% em 2013 e um pouco menos em 2014.

Para este ano, a perspectiva em termos de exportação é de aumento de 10% no volume exportado. “Serão mais toneladas do que no ano passado, mas em dólares a pesquisa que realizamos apontou uma estabilidade. A expectativa é de se exportar, em dólares, valor semelhante ao de 2014”, afirma Schünke. Esse resultado tem a ver com uma queda no preço do quilo do tabaco exportado, verificado até junho. “Para a frente pode ir variando de acordo com os próximos embarques. O forte da exportação acontece de junho a outubro”, explica.

O dano do contrabando — O consumo de cigarros ilegais no Brasil é um dos maiores problemas enfrentados pelo setor. Uma a cada três unidades consumidas no País é contrabandeada. O presidente do Sinditabaco entende que cada vez que os governos elevam a carga tributária sobre o cigarro, mais produto ilegal é consumido. As perdas são milionárias. Conforme dados do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, só no setor de cigarros, o Brasil deixa de arrecadar R$ 4,5 bilhões por ano. A perda de postos de trabalho chega a 35 mil no setor. Outro problema provocado por essa prática criminosa é o consumo de produtos sem controle sanitário. A análise de marcas contrabandeadas demonstrou a grande concentração de agentes contaminantes, como ácaros e fungos, além de metais pesados.