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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Laranja

 

Doce é o mercado externo

Pela primeira vez em cinco anos, o consumo mundial de suco de laranja deverá superar a produção. Os americanos têm produzido menos e o momento favorece as exportações brasileiras e garante um cenário mais positivo

Gilson R. da Rosa

O mercado de suco de laranjapassa por um momentocomplexo em todo o mundo. A queda de consumo nos Estados Unidos e na União Europeia, que ao longo da última década já chega a 15%, segundo dados levantados pela Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBr), tem implicações diretas para indústrias e produtores brasileiros. A razão é simples: o Lau Polinésio/CitrusBR Brasil responde por cerca de 60% da produção mundial de fruta e aproximadamente 81% do comércio global da commodity.

Ainda assim, o consumo mundial de suco de laranja voltou a superar a produção em 2015, o que não ocorria há cinco anos. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) estima que o consumo na atual temporada deverá ser de 1,78 milhão de toneladas, ante a produção de 1,73 milhão. O Usda atribui essa menor oferta a fatores climáticos e à forte incidência de doenças, como o greening, que reduziram a produção na Flórida – um dos principais estados americanos produtores da fruta. Com isso, a produção mundial de laranjas caiu para 48,4 milhões de toneladas, volume 7% inferior ao da safra anterior.

Apesar do cenário pessimista, a redução da oferta americana contribui para melhorar as exportações brasileiras do produto. “Os americanos têm importado mais suco do Brasil”, explica o diretor-executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto. “No ano-safra que se encerrou em junho passado, os embarques para os EUA aumentaram 14%, subindo de 213.294 toneladas para 243.734 toneladas. Infelizmente, temos vivido dos problemas da Flórida”, argumenta o dirigente. Essa tendência, na visão do executivo, deve se manter em 2015. “O Brasil segue na liderança das exportações, que já somam 444 mil toneladas até maio, 18% mais do que igual período de 2014. Os embarques para a União Europeia subiram 22%. Já os destinados aos Estados Unidos aumentaram 59%”, informa.

A produção brasileira de laranja para a safra 2015/16 está estimada em 278,993 milhões de caixas (de 40,8 quilos), conforme levantamento do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), divulgado em maio. O número corresponde ao volume produzido no parque citrícola de São Paulo, Triângulo Mineiro e Sudoeste de Minas Gerais, região que conta com 481 municípios e é a maior produtora mundial da cultura. De acordo com o Fundecitrus, há 197,860 milhões de árvores de laranja no parque citrícola, das quais 88% estão em produção. A área total de citros é de 492.544 hectares, dos quais 443.598 hectares (90,07%) são de laranja. Os dados foram apurados na Pesquisa de Estimativa de Safra a partir de imagens de satélite e apurações in loco nos pomares.

Tomando como base os dados levantados pelo Fundecitrus, a CitrusBR estima que cerca de 30 milhões de caixas devem ser absorvidas pelo mercado interno de fruta in natura, resultando em um saldo final de 248,9 milhões de caixas para a produção de suco. Com isso, a indústria brasileira deve colocar 935 mil toneladas de produto no mercado, 23% menos do que na safra anterior, segundo estimativa do Usda.

Em meio a esta conjuntura, o citricultor independente vem perdendo espaço no mercado da laranja. “A política de concentração praticada pela indústria, que dá prioridade ao processamento da fruta produzida em seus próprios pomares, está fazendo com que os produtores reduzam a área plantada ou abandonem a atividade. Nos últimos 15 anos, os produtores independentes já perderam 350 mil hectares”, lamenta o presidente da Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus), Flávio Viegas.

Tensão sem fim — Como em anos anteriores, o setor segue pautado pela tensão entre citricultores e a indústria produtora de suco, mesmo após a criação do Consecitrus, órgão paritário para a discussão dos principais temas da cadeia citrícola. Os preços pagos ao produtor, conforme Viegas, também seguem pouco animadores. “A caixa de 40,8 quilos segue sendo comercializada na média R$ 10, quando o custo de produção estimado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é de R$ 13”, afirma.

O único consenso entre indústria e produtores independentes são as implicações decorrentes da queda no consumo de suco de laranja nos principais mercados mundiais para ambos os segmentos. O dirigente Ibiapaba Netto observa que o mercado recuou 15,2% entre 2004 e 2014 e é o menor nível observado no período. “Dez anos atrás, o mundo consumiu 2,4 milhões toneladas de suco concentrado, enquanto em 2014 o número caiu para 2 milhões. Essa diferença representa 370 mil toneladas do produto ou 92,5 milhões de caixas que deixaram de ser consumidas na forma de suco apenas em 2014”, enumera.

Ele explica que, no total acumulado, levando em consideração o consumo do ano de 2004 como referência, o mundo deixou de consumir 1,8 milhão de toneladas ou 450 milhões de caixas de laranja. “O número corresponde à totalidade da safra corrente, estimada em 279 milhões de caixas mais 60%, ou seja, o mundo deixou de consumir nesse período mais de uma safra e meia”, calcula Ibiapaba Netto.

Para o executivo, essa é razão pela qual os estoques de suco de laranja se acumularam por mais de três anos e apenas agora começam a ceder. “No início de julho, os estoques finais eram de 329,7 mil toneladas, nível que consideramos bem próximo do equilíbrio técnico. Por outro lado, toda vez que o consumo diminui nos principais mercados, sobra produto aqui no Brasil. A questão, portanto, é como estimular as vendas nos mercados externo e interno?”, indaga.

Aumentar o consumo por aqui — Conforme, Netto, o setor já estuda duas saídas para o problema. “A primeira é um vigoroso projeto de marketing em parceria com a Associação Europeia de Sucos de Frutas (AIJN, sigla em francês) para impulsionar as vendas no mercado externo. Como o projeto depende da aderência das empresas que compram o suco brasileiro, ainda não há prazo para sua execução”, descreve.

O segundo e mais viável, na análise do dirigente, é a desoneração no preço final do suco de laranja, isentando o varejo de recolhimento de PIS/Cofins e ICMS. Com o preço correto na prateleira, a CitrusBR estima uma demanda adicional de cerca de 50 milhões de caixas por ano apenas para atender o Brasil. “O consumo interno de suco não decola porque não tem um preço atraente para o consumidor. Com custo de produção próximo de R$ 2,60 por litro na indústria, chega à gôndola do supermercado a R$ 8,40, depois de incluídas margens da cadeia e impostos. Com a isenção, o preço cairia para R$ 5,35”. aponta.

E Netto reconhece que, na situação atual da economia brasileira, é complicado falar em desoneração por causa do ajuste fiscal, mas garante que a ideia pode dar certo. “Temos conversado com o Governo e acreditamos que no momento adequado poderemos conseguir esse benefício que ajudará tanto a indústria quanto o citricultor”, assegura.