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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Frutas

Polpuda confiança

No polo irrigado do Vale do São Francisco a água escassa é um problema extra dos produtores. Mas o setor tem previsão de aumentar a produção e as exportações – sobretudo em valores, em função do câmbio favorável

Thais d’Avila

O clima tornou-se um gargalo amais no segmento defruticultura brasileiro em 2015. A escassez de água no maior polo de fruticultura irrigada do País, o Vale do São Francisco, no Nordeste, é dramática. Os produtores que dependem da Barragem do Sobradinho para irrigar os pomares têm enfrentado dificuldades. Conforme o assessor técnico da Comissão Nacional de Fruticultura da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Eduardo Brandão Costa, o cenário é desolador. “Em meados de agosto, a capacidade do lago estava em 18%”, relatou em julho. “Estimamos que em 60 dias já não seja mais possível puxar água para os perímetros”. Conforme Costa, o problema deve-se ao acúmulo de falta de água nos últimos cinco anos.

A CNA vem buscando providências junto ao Ministério da Integração, mas a liberação emergencial de recursos só acontece quando a falta de água já aconteceu. “É apenas uma questão de tempo. O problema na fruticultura é que a atividade não pode ficar sem água. Não posso dar uma quantidade menor para produzir. Ou eu deixo a planta morrer ou saio da atividade”, lamenta. O Ministério liberou R$ 38 milhões para a aquisição de bombas flutuantes, que permitem puxar a água de outros pontos do lago. O problema é que período do trâmite normal de uma licitação é um tempo que os produtores não têm.

Sobradinho é o terceiro maior reservatório do mundo em espelho d’água e contribui para os grandes números do Vale do São Francisco em fruticultura – R$ 2 bilhões por ano em faturamento. “O Vale gera 240 mil empregos diretos e 960 mil indiretos”, afirma Costa. Com a seca, todos os perímetros irrigados de pequenos e médios produtores serão atingidos. “No limite onde não é irrigado, a imagem é avassaladora, é caatinga”, lamenta.

Dos R$ 2 bilhões faturados no Vale com a produção de frutas, R$ 440 milhões procedem somente da exportação de uvas e mangas. E neste ano a produção de mangas já vem acusando o golpe com a seca. Conforme o presidente do Instituto Brasileiro de Fruticultura (Ibraf), Moacyr Saraiva Fernandes, a fruta que é produzida praticamente em todo o País registrou retração na produção. O recuo, segundo ele, é de 2% a 3% na área de manga.

Outras áreas produtoras de frutas também sofrem com a falta de chuvas, que é esperada na quantidade necessária só para o ano que vem. Ainda no Nordeste, Ceará e Rio Grande do Norte, por exemplo, grandes produtores de melão já vêm reduzindo a área plantada. Só uma grande empresa produtora diminuiu o tamanho disponível para a fruta de 6,5 mil hectares para 5 mil por falta de água. “Esse pessoal busca novas áreas e têm ido buscar na região da Parnaíba, no Piauí, porque lá é possível captar direto do rio”, revela Costa.

Crescimento (pequeno) na produção — Mesmo com os problemas climáticos registrados em algumas importantes regiões produtoras, houve crescimento na produção de frutas. “Somos um País continental. Em uma área tão grande, uns crescem e outros diminuem”, afirma Moacyr Fernandes. “No cômputo geral, a produção superou o patamar de 18 milhões de toneladas em 2014, o que significou um aumento de 2% em relação a 2013”, revela.

Para 2015, a perspectiva é de crescimento ainda, porém, a metade, em torno de 1%, em função do desaquecimento do mercado. “Apesar de serem alimentos de primeira necessidade, as frutas ainda custam relativamente caro para algumas classes. Não temos outra explicação para isso”. O Brasil exportou no ano passado 682 mil toneladas de frutas, retração de 4% em volume. Em valores, a queda foi de 1,15%, para quase US$ 650 milhões. A explicação é que a matriz é composta de frutos de maior valor agregado. O preço das frutas lá fora continua o mesmo.

Câmbio vantajoso — A vantagem do exportador na atualidade é que o dólar está mais valorizado em relação ao real. “O que beneficia os exportadores é que eles vão ganhar mais em reais, mas não vão conseguir vender as frutas por mais dólares”, explica Fernandes. A expectativa é de um crescimento das exportações em 2015 em torno de 5% a 6% no volume e até 8% no valor, em relação ao ano passado. A balança comercial da fruticultura ainda é positiva para o Brasil e as importações devem reduzir um pouco mais por causa da alta do dólar. A fruta mais importada é a pera porque, conforme Fernandes, não tem ainda produção comercial representativa das variedades europeias, as preferidas do brasileiro. “As frutas vêm do Chile, da Argentina, uma parte dos Estados Unidos e um pouco de países europeus, como Itália e França”, conta.

Uma questão que está sendo observada pelas lideranças do setor é que o País exporta praticamente frutas de clima temperado para atender a entressafra nos países produtores. Por isso, um trabalho da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas), entidade criada em 2014, com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil) está buscando a inserção da fruticultura brasileira em outros países, envolvendo também frutas tropicais. “A intenção é aumentar valor e volume de exportação”, diz Eduardo Costa, da CNA.

Foram definidos oito países-alvo, entre eles Estados Unidos, Japão e Emirados Árabes Unidos. O projeto trabalha com dez frutas: manga, mamão, melão, abacate, limão, laranja, uva, banana, açaí e maçã. Costa explica que essas são as prioritárias na promoção, pois são as frutas que dominam as exportações brasileiras. Em outubro, um evento vai reunir compradores e vendedores em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Vamos encontrar 35 grandes empresários, distribuidores de supermercados da região”, comemora o assessor técnico da CNA.

Oportunidade ao segmento orgânico — A produção orgânica vem registrando aumento de interesse por uma camada da população. E algumas culturas têm sido alvo de pesquisas. A Embrapa Mandioca e Fruticultura está desenvolvendo sistemas de produção orgânica de algumas frutas, como abacaxi, maracujá e acerola. Ainda em 2015 deve ser concluído o sistema de produção orgânica do abacaxi. Trata-se de um conjunto de recomendações técnicas que orientam o produtor interessado no cultivo, desde o plantio, seleção de material até a fase de colheita e pós-colheita.

Conforme o chefe-geral da Embrapa Fruticultura, Domingo Haroldo Reinhardt, hoje não existe nenhum sistema de produção orgânica de abacaxi no País e a intenção é trabalhar na genética das plantas, para garantir resistência a doenças, especialmente à fusariose. Além disso, a unidade está trabalhando com produtos naturais para o tratamento de pragas e doenças. “Trabalhamos com bacilos, testando os comerciais e validando para as culturas e o controle de certas pragas. E sempre a busca por outras alternativas como extratos naturais de plantas e resíduos agrícolas para ver se têm eficiência necessária no manejo da cultura”, revela.

Outra pesquisa que está sendo desenvolvida pelos pesquisadores da Embrapa é o ultra-adensamento de citros. A prática consiste em aumentar em até cinco vezes a densidade de plantas, com portaenxertos que reduzem o porte e aumentam o teor de açúcares da fruta. “Hoje, em vez de falar de produção por hectare, fala-se em produção por metro cúbico, por volume da copa”, explica Heinhardt. Segundo ele, a prática aumenta a competição entre plantas e contribui para diminuir o porte, facilitando a colheita e todo o manejo do pomar. “A tendência é, nesses novos pomares, com maior adensamento, desenvolver a colheita mecanizada. Já há empresas desenvolvendo novas máquinas”, conta. O normal em um pomar de citros é 400 plantas por hectare e já existem iniciativas com mais de 1,6 mil pés por hectare.