A Granja do Ano – 33 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

 

Momento promissor

O cenário é favorável para o mercado do feijão em 2015: este ano os preços são remuneradores em boa parte do Brasil e isso pode levar os produtores a ampliar a área plantada com o grão na próxima safra

Gilson R. da Rosa

A produção nacional de feijãona safra 2014/15,considerando os três ciclos anuais da cultura, deverá ficar em 3,166 milhões de toneladas. O volume, conforme o relatório divulgado em agosto pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), representa queda de 8,3% em relação à temporada 2013/2014. Já a área cultivada poderá chegar a 3,049 milhões de hectares, menor em 9,4% que a safra passada.

O chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Arroz e Feijão, Alcido Elenor Wander, explica que após ter passado por dois períodos consecutivos de preços altos, em 2011/ 12 e 2012/13, o Brasil voltou a ter uma safra maior de feijão em 2013/14, gerando um superávit interno, principalmente para o feijão comercial tipo carioca. “Os preços elevados até 2013 motivaram um aumento da área plantada em 2013/2014, gerando uma oferta expressivamente maior que a demanda”, avalia. Segundo ele, durante todo o segundo semestre de 2014, os preços recebidos pelos produtores no mercado de São Paulo estiveram baixos, próximos do preço mínimo fixado pelo Governo Federal. “Somente no início de 2015 os produtores voltaram a receber preços maiores pelo produto, enquanto os preços de atacado e varejo acompanharam esse mesmo movimento”, compara.

Para o presidente do Instituto Brasileiro do Feijão (Ibrafe) e analista da Correpar Corretora de Mercadorias, Marcelo Lüders, dois fatores fundamentais devem ter maior influência na decisão do produtor para o primeiro ciclo da safra 2015/2016, cujo plantio teve início em agosto. “De um lado, a melhora no preço interno do grão pode estimular o cultivo e trazer uma recuperação de área que, só na temporada 2014/2015, caiu 11,8%, segundo a Conab, e chegou a 1,04 milhão de hectares. Há, portanto, um estímulo para plantar mais com esse cenário”, afirma.

Se tudo correr bem, Lüders estima que o incremento na área plantada com o feijão possa chegar a 10%. “Com a valorização do dólar em 2015, essa expectativa de aumento é mais provável para o ano que vem. A segunda safra que levava o nome de safrinha tem crescido muito no País. Se os investimentos forem feitos de maneira correta e o clima favorecer, esse incremento na produção sem dúvida vai acontecer”, argumenta.

Por outro lado, conforme o especialista, ainda há a incerteza da safra norte-americana de soja, que, dependendo do resultado, pode ser desestimulante para o feijão. “As fortes chuvas ocorridas no meio-oeste dos Estados Unidos atrapalharam o plantio e trouxeram volatilidade ao mercado internacional. Na Bolsa de Chicago, as cotações da soja voltaram a ficar acima de US$ 10 o bushel até o vencimento de novembro. Essa situação pode influenciar, porque se o produtor decidir pela soja, certamente plantará sobre áreas onde semearia feijão”, acrescenta.

Wander observa que a safra 2015/ 16 inicia-se com estoques dentro da normalidade. No entanto, considera que o dólar valorizado poderá motivar muitos produtores a preferirem culturas exportáveis, tais como soja, milho e algodão. “Este fato pode resultar em uma redução de área do feijão, já que grande parte da produção é voltada para o mercado interno. A exceção serão grãos que também têm mercado externo, tais como preto, grãos graúdos e especiais, além dos tipos comerciais do feijão-caupi, como macaçar ou feijão-de-corda”, estima.

Cores e nomes — Alimento básico na dieta do brasileiro, o feijão pode ser encontrado em vários tipos e cores. Na escala dos mais conhecidos está o feijão-preto, plantado em 20% da área dessa cultura. O Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sul e Leste do Paraná, Rio de Janeiro, Sudeste de Minas Gerais e Sul do Espírito Santo são os locais que mais consomem. O carioca é outro grão famoso e aceito em praticamente todo o Brasil. Por isso, 52% da área cultivada é desse grão. O feijão-caupi ou feijão-de-corda é o mais consumido nas Regiões Norte e Nordeste, com 22% da área plantada. Cerca de apenas 6% são cultivados com os feijões de cores variadas.

Dados levantados pelo Ibrafe apontam que, para cada quilo de feijãopreto, o consumidor brasileiro compra três de carioquinha, o que determina a produção. Como essa variedade não é importada e a produção vinha caindo, os preços subiram no campo. “Com isso, os produtores tendem a manter ou ampliar a área do carioca, a não ser que a soja mostre força para continuar roubando área de leguminosa”, pondera Lüders.

Entre os feijões cultivados no Brasil, o carioca representa 52% da área; o preto, 20%; enquanto o caupi (feijãode-corda), popular nas Regiões Norte e Nordeste, representa 22%

Fórum e o problema do carioca — As discussões em torno das perspectivas para a produção, a comercialização e a exportação do grão mobilizaram a atenção da cadeia produtiva durante o Fórum Brasileiro do Feijão 2015, realizado em Foz do Iguaçu/PR, em junho. O evento, promovido pelo Ibrafe reuniu público de aproximadamente 300 profissionais de diferentes regiões do Brasil e de países latino-americanos, entre pesquisadores, produtores, consumidores, fornecedores de grãos, exportadores e importadores, empacotadores e supermercados.

Conforme Lüders, que coordenou o evento, o Fórum também serviu para discutir o “beco sem saída” no qual o feijão-carioca colocou a cadeia produtiva. “Ele só é produzido no Brasil, assim, quando há falta, não há de onde importar e quando há sobras, não tem para quem exportar. Muitas vezes há falta de feijão-carioca no mercado, seja pela ação climática ou até por momentos de desestímulo do produtor com os baixos preços, e não há de onde importar, fazendo, em seguida, explodir o preço do feijão, que nestes momentos passa a levar a má fama de ser o vilão da inflação”, descreve.

O Ibrafe ainda anunciou que deverá lançar em setembro uma ferramenta de acompanhamento em tempo real das cotações do feijão, que estará disponível no site da entidade. “O mercado do feijão carece de uma referência nacional em termos de cotação do produto, que sempre teve como base os valores negociados em São Paulo. Ocorre que cada praça ou região produtora tem uma realidade diferente. Com base nessa ferramenta, o produtor poderá acompanhar, a cada 30 minutos, na tela do computador, como estão os preços em cada praça, onde há feijão para ofertar e qual o volume disponível, enfim, as informações necessárias para fundamentar a tomada de decisões”, adianta.