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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Milho

Menos produção, mais perspectivas

Os custos do milho aumentaram, mas o câmbio e as estimativas otimistas para as exportações e os aumentos em Chicago proporcionam um horizonte promissor para quem planta o cereal. A safra mundial deverá cair de 1,001 bilhão de toneladas em 2014/15 para 987,11 milhões em 2015/16. Acrescenta-se que o milho vai perder 10% da área na primeira safra em 2015/16, boa parte para a soja

Carine Bidone Lopes carine@safras.com.br

O mercado brasileiro de milhoteve um primeiro semestrede 2015 especulativo, interna e externamente. Ademais, houve ótimas oportunidades de os produtores negociarem muito bem a safra de verão e também a safrinha de forma antecipada. No período, o setor apresentou muitas variáveis que influenciaram os preços no período, como as seguintes:

  • A seca no Sudeste em janeiro e fevereiro;

  • A forte desvalorização do real no início do ano;

  • A dúvida sobre o plantio da safrinha;

  • A tendência de uma safra norte-americana menor;

  • A safra de verão pequena e com perdas no Brasil.

Os preços subiram de forma geral no mercado brasileiro. Na Região Sul, níveis de R$ 27/28 a saca no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e R$ 25/26 no Paraná. No Sul do Mato Grosso do Sul, R$ 21/22 para o milho disponível. No Sudeste, níveis de R$ 25 no interior paulista e R$ 23 no Triângulo Mineiro. No Centro-Oeste, patamares de R$ 20/22 em Goiás e R$ 15 a 18,50 no Mato Grosso. Esses preços também são resultado de uma combinação de Chicago acima dos US$ 4/bushel, do câmbio a R$ 3,20 e dos níveis de portos entre R$ 30/33 nos últimos dias. Em decorrência de tais fatores, os preços estiveram firmes em boa parte do semestre. Somente perderam força a partir do momento em que a safrinha 2015 começou a apontar para novos números recordes.

A safrinha com recorde de 55,7 milhões de toneladas e o câmbio mais acomodado ajudaram a pressionar o mercado no final do semestre. Faltaram ingredientes fundamentais para manter os preços firmes ao final desse período. Os preços estiveram basicamente concentrados na volatilidade do câmbio e na Bolsa de Chicago, com reflexos de preços no porto, que balizaram o resto das praças. Ainda no primeiro semestre de 2015, a oferta e a demanda estiveram dentro da normalidade e como o previsto, sem grandes fatos novos. O único ponto de destaque foi a seca que afetou o Sudeste e cortou um pouco mais o tamanho da safra de verão do Centro-Sul.

Temporada 2015/16 — A tendência de mercado para o próximo semestre é para um estoque de passagem de mais de 10 milhões de toneladas e exportações de 26 milhões de toneladas, em 2015. A elevação dos custos de produção deste ano está sendo compensada pelas altas na Bolsa de Chicago e pelo câmbio. Se o câmbio acabar forçando uma exportação maior, haverá a chance de um estoque menor para 2016. O perfil externo oferece janelas importantes para as vendas. Isso ocorre em função dos preços internacionais, da demanda europeia já absorvendo lotes do Brasil para a safrinha 2016 e do risco criado sobre a safra norte-americana e europeia neste momento. A expansão do risco leva muitos importadores a anteciparem as compras futuras e encontram as ofertas disponíveis no Brasil.

Esse fluxo de embarques brasileiro já está consumado para agosto e setembro, cada qual com projeção de embarques de 3 milhões de toneladas. Esse ponto é importante devido à nova retração de área plantada em 10% no verão 2015/16 e deverá manter a oferta do primeiro semestre do próximo ano ajustada à demanda. Há chances, portanto, de que os preços voltem a subir a partir do final de 2015, dependendo do tamanho da exportação neste segundo semestre. Segundo o analista de Safras & Mercado Paulo Molinari, deverá ser um segundo semestre ainda sem grandes movimentos de alta para o mercado internacional, a não ser que haja novas surpresas em relação à safra nos Estados Unidos.

Um destaque pode ser dado ao quadro da Europa. O bloco está produzindo 10 milhões de toneladas a menos de milho em relação ao ano passado e projeta uma importação de 14 milhões de toneladas, quase o dobro da safra passada.

Naturalmente, ainda há questões climáticas no bloco, com poucas chuvas na França e na Espanha e atenções à Ucrânia.

A tendência de mercado para o segundo semestre de 2015 no Brasil é para um estoque de passagem de mais de 10 milhões de toneladas e exportações de 26 milhões de toneladas

Por outro lado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) elevou em 17 milhões de toneladas o estoque mundial de trigo, e isso pode neutralizar movimentos mais agressivos de alta no milho no ambiente mundial. Houve correções no quadro chinês também com elevação da projeção da produção, para 229 milhões de toneladas e corte de consumo. Essa situação eleva os estoques para 91,9 milhões de toneladas e ainda não se encontra a justificativa para grandes importações de sorgo e DDG por parte daquele país. É possível que o governo chinês inicie vendas mais agressivas de estoques de milho para inibir as importações de produtos alternativos.

Produção mundial menor — O relatório de julho de oferta e demanda do Usda apontou uma redução na estimativa de produção da safra 2015/16 mundial. A produção global deverá atingir 987,11 milhões de toneladas, contra as 989,3 milhões de toneladas estimadas em junho. Os estoques de passagem devem ficar em 189,95 milhões de toneladas, bem abaixo das 195,19 milhões previstas no mês anterior. Os estoques finais ficaram bem abaixo da expectativa do mercado, que trabalhava com um volume de 192,6 milhões de toneladas.

A safra americana 2015/16 está estimada em 343,68 milhões de toneladas, ante as 346,22 milhões indicadas no mês passado. A estimativa de safra brasileira foi elevada de 75 milhões para 77 milhões de toneladas. A safra da África do Sul foi estimada em 13,5 milhões de toneladas, sem alterações. A China deverá produzir 229 milhões de toneladas, 1 milhão a mais em relação ao estimado em junho. A Ucrânia teve sua projeção de safra mantida em 26 milhões de toneladas. A safra da Argentina também não sofreu alterações, mantida em 25 milhões de toneladas.

Para a temporada 2014/15, o Usda estimou a produção global em 1,001 bilhão de toneladas, acima das 999,45 milhões de toneladas previstas no mês anterior. Os estoques finais de passagem foram projetados em 193,95 milhões de toneladas, ante as 197,01 milhões de toneladas previstas no outro mês e abaixo das 195,3 milhões de toneladas previstas pelo mercado.

A safra americana 2014/15 está estimada em 361,09 milhões de toneladas, a mesma indicada em maio. A estimativa de safra brasileira foi elevada de 81 milhões de toneladas para 82 milhões de toneladas. A China deverá produzir 215,67 milhões de toneladas, mesmo volume indicado no mês passado. A Ucrânia teve sua projeção de safra mantida em 28,45 milhões de toneladas. A safra da Argentina foi mantida em 25 milhões de toneladas.

Para a temporada 2014/15, o Usda estimou a produção global em 1,001 bilhão de toneladas, sendo 361,09 milhões nos Estados Unidos, e os estoques de passagem em 193,95 milhões

No quadro internacional das commodities agrícolas continua não sendo um ano tranquilo. Apesar dos estoques mundiais confortáveis, o mercado procura incertezas para criar volatilidade, de acordo com o analista Molinari. E tem sido assim ao longo do ano. O sinal claro desses movimentos fica evidente na comparação dos efeitos sobre os preços em determinadas situações climáticas.

Em janeiro, em meio à seca e às temperaturas altíssimas, os preços da soja na Bolsa de Chicago cederam mais de US$ 1/bushel, ou seja, o risco de perdas da safra brasileira foi precificado com baixas. Em junho, o excesso de chuvas na safra norteamericana foi precificado com uma alta de US$ 1,50/bushel. Os dois maiores exportadores de soja com efeitos diferentes sobre a formação dos preços no mercado internacional.

O mesmo vai ocorrendo com o milho e o trigo. O mercado parece desconsiderar o quadro mundial, a grande exportação brasileira, a boa safra argentina como pontos relevantes. Ou, até mesmo, o bom estoque norte-americano com uma safra que não deverá ser plena. Naturalmente, o momento do mercado de clima traz esse tipo de chance de avaliação e gera fortes volatilidades, as quais também vêm a favor dos produtores no sentido de travar negócios, absorvendo as oportunidades geradas pelos movimentos especulativos. Há uma questão envolvendo o clima na China, em particular no Nordeste do país, a qual afeta as lavouras de milho e soja, em especial na Mongólia. Como as previsões para a safra chinesa são bastante elevadas e os estoques muito altos, alguma perda de safra influenciará pouco na composição mundial de preços e oferta e demanda.

Safra verão menor — A área plantada com milho na safra de verão 2015/16 do Brasil deverá cair 9,7%, ocupando 4,095 milhões de hectares. No ano anterior, o plantio totalizou 4,536 milhões de hectares, conforme o levantamento de intenção de plantio divulgado por Safras & Mercado de julho. Com a expectativa de um aumento de 5.395 quilos para 5.828 quilos por hectare na produtividade, a produção da primeira safra do cereal poderá atingir 23,864 milhões de toneladas. No ano passado, ficou em 24,47 milhões de toneladas.

“Com os preços mais atraentes da soja, com relação de troca 3 por 1, os produtores deverão reduzir o plantio do milho e optar pela oleaginosa”, aponta Molinari, acrescentando que os altos custos do fertilizante nitrogenado também devem provocar o corte. A alta nos preços dos fertilizantes em quase 50% leva o produtor a plantar a lavoura que remunera nos negócios futuros, o custo de produção de forma mais adequada e que exerce o menor desembolso de plantio. Nesse caso, a soja também tem elevação de custos, mas abaixo do milho e com liquidez presente para os negócios futuros a preços acima dos custos de produção.

Segundo Molinari, a soja apresenta melhor liquidez para travamento de preços na safra nova. “A tendência é de aumento na área de soja no verão. Os produtores de milho deverão compensar essa queda, incrementando o plantio da safrinha, no inverno”, avalia. Inicialmente, Safras indica um aumento de 7,8% na área a ser plantada com a safrinha em 2015/ 16, ocupando 10,161 milhões de hectares. A produção da segunda safra poderá chegar a 59,647 milhões de toneladas, contra 55,717 milhões projetados para 2014/15.

O volume de negócios que já vai ocorrendo em estados como Goiás e Mato Grosso para 2016 na safrinha começa a dar sustentação a essa tendência de área a ser plantada. A elevação da área de soja no verão leva também para a expansão na safrinha 2016. A nova safrinha apresentou preços entre R$ 34 e R$ 34,70 para agosto a novembro do próximo ano no porto. O câmbio vai ajudando também nas fixações por parte dos produtores para a próxima safrinha, e Mato Grosso e Goiás seguem negociando volumes. Há uma atenção a ser considerada para as áreas do Nordeste, principalmente, já que com os preços da soja há possibilidade de cortes de área plantada no milho no próximo ano. A área total com o milho deverá totalizar 15,836 milhões de hectares, com aumento de 1,7%. A produção poderá atingir 89,2 milhões de toneladas, contra 85,568 milhões do ano anterior.

Preços firmes — Os preços, no primeiro semestre de 2016 deverão ter perfil de maior firmeza, e na dependência da safrinha no Brasil e da safra dos Estados Unidos para definir os níveis do segundo semestre. Entretanto, o câmbio e o caos econômico brasileiro seguirão pesando, conforme o analista de Safras & Mercado. Caso a taxa de câmbio siga se desvalorizando, há chances ainda de que a safrinha 2016 seja ainda mais incentivada pela relação de preços com a exportação.

Porém, haverá pouca influência sobre a safra de verão no que diz respeito ao plantio. Alguns produtores de algumas regiões apontaram a Safras & Mercado que não pretendem plantar milho no verão. De forma direta, essa ausência de plantio de milho no verão leva a mais plantio de soja. Os custos de produção serão mais altos no próximo ciclo devido à desvalorização do real. A recessão afetará a demanda interna geral inclusive para alimentos. Então, o agronegócio precisará se concentrar muito no ambiente da exportação como forma de conquistar resultados no ano e evitar o acúmulo de estoques.