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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Soja

 

100 milhões

O Brasil poderá produzir em 2015/16 a sua safra recorde de soja, de 100 milhões de toneladas ou chegar muito próximo dessa marca, visto que a área estimada para a temporada será a maior até hoje, de 32,921 milhões de hectares, 3,8% a mais que a safra anterior. A oleaginosa vai avançar sobre novas áreas e terrenos antes ocupados pelo milho. E, apesar de Chicago estar trabalhando com a cotação abaixo dos US$ 10, o câmbio tem colaborado com o produtor brasileiro

Dylan Della Pasqua
dylan@safras.com.br

A soja será a opção dosprodutores brasileiros natemporada 2015/16, repetindo a tendência das últimas temporadas. As projeções apontam para novo recorde de área a ser plantada a partir de setembro. Se tudo acontecer dentro da normalidade, o País poderá produzir a maior safra da história, batendo na barreira das 100 milhões de toneladas. O levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado, divulgado em meados de julho, confirma essa tendência. Os produtores brasileiros de soja deverão cultivar 32,921 milhões de hectares em 2015/16, a maior área da história, crescendo 3,8% sobre o total semeado no ano passado, de 31,728 milhões.

Com um possível aumento de produtividade, de 3.025 quilos para 3.047 quilos por hectare, a produção nacional tem a chance de se aproximar da casa de 100 milhões de toneladas, sendo estimada inicialmente em 99,809 milhões de toneladas, 4,5% superior à obtida em 2014/15, de 95,496 milhões de toneladas. “Devido à melhor remuneração, a soja deverá roubar área do milho na safra de verão. Os produtores de milho deverão aumentar o foco no plantio da safrinha”, aponta o analista de Safras & Mercado, Luiz Fernando Roque. “Algumas áreas de algodão vão migrar para soja também, mas essas são menos relevantes. Isso deve ocorrer, principalmente, na Bahia”, acrescenta.

No Mato Grosso, que deve ter um aumento de área de 5%, o maior ganho de área é resultado da abertura de áreas novas no Leste e no Nordeste do estado, a região do Vale do Araguaia. A soja também deverá ocupar espaço de área de pastagem, principalmente na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), e também no Pará.

Sobre o milho — O aumento da área a ser semeada com soja é reflexo, principalmente, da transferência de área destinada ao milho da safra verão para a oleaginosa, que continua trazendo rentabilidades mais elevadas aos produtores frente às demais culturas. Além disso, a abertura natural de novas áreas e o avanço da soja sobre pastagens completam a tendência de expansão do plantio da oleaginosa par a temporada.

Dentre os principais estados produtores, destaque para a expansão no Leste e Nordeste do Mato Grosso sobre pastagens, sendo essa uma região com bom potencial. No Rio Grande do Sul, é estimada uma transferência de um bom terreno do milho para a soja. Na Bahia, algumas áreas de algodão, além de milho, tendem a ser transferidas para o plantio da oleaginosa.

No Rio Grande do Sul, a área semeada com soja deverá chegar a 5,371 milhões de hectares, avanço de 2,9% sobre os 5,22 milhões semeados na temporada anterior. A produção está estimada em 15,285 milhões de toneladas, com aumento de 0,8% sobre os 15,166 milhões da safra 2014/15. A produtividade média gaúcha deverá ser de 2.860 quilos/ hectare, contra 2.920 kg/ha registrados na temporada anterior. No Paraná, a área com soja deverá ser de 5,361 milhões de hectares, aumento de 2,3% sobre os 5,24 milhões semeados na temporada 2014/15. A produção está estimada em 17,601 milhões de toneladas, avanço de 2,3% sobre as 17,206 milhões da safra anterior. A produtividade média foi estimada em 3.300 kg/ha, a mesma anterior.

No Mato Grosso, maior produtor, a área deverá chegar a 9,232 milhões de hectares, avanço de 4,5% sobre os 8,83 milhões da temporada 2014/ 15. A produção está estimada em 29,118 milhões de toneladas, ganho de 4,5% sobre as 27,851 milhões da safra anterior. A produtividade média deverá repetir os 3.170 kg/ha de 2014/15.

Mercado — O mercado brasileiro de soja vem tendo um 2015 bastante agitado nas diversas praças de negociação. As variações registradas nos contratos futuros negociados em Chicago e, principalmente, no câmbio, impactaram a formação de preços internos. Os produtores brasileiros começaram o ano pouco interessados em negociar grandes volumes de soja devido aos patamares de preços registrados nas primeiras semanas de 2015. O contrato spot em Chicago iniciou o ano cotado a US$ 10,02 por bushel, enquanto o dólar era cotado a R$ 2,69. Tais fatores, aliados a um prêmio de exportação baixo, fizeram a saca de soja iniciar o ano em um patamar entre R$ 66 e R$ 69,50 no mercado interno dos três principais portos (Rio Grande, Paranaguá e Santos).

Conforme os problemas fiscais do País começaram a ficar mais evidentes e as questões externas ganharam força – como a tendência de aumento de juros nos EUA, a crise política Ucrânia-Rússia, a instabilidade na Zona do Euro e as incertezas com relação à economia da China –, a moeda norte-americana começou a ganhar valor frente às demais moedas do mundo, com maior destaque para as de países emergentes. A escalada do dólar frente ao real começa a ser notada em fevereiro. Com ela, os preços internos também começam a se valorizar.

Mesmo que as cotações em Chicago tenham trabalhado em patamares abaixo de US$ 10 por bushel, a forte alta do câmbio teve maior peso sobre a formação de preços do mercado interno, sustentando a elevação das cotações. “Com a valorização da saca, os produtores brasileiros começaram a comprometer uma parcela maior de suas produções potenciais, o que animou o mercado na entrada da safra. No início de fevereiro, final do período pré-colheita, o percentual de comprometimento/venda da safra 2014/15 atingia 32% do total estimado a ser produzido. Ao final de junho, tal percentual chegou à casa de 68%”, indica o analista de Safras.

Devido à melhor remuneração, a soja deverá roubar área do milho na safra de verão, e os produtores de milho deverão aumentar o foco na safrinha do cereal

Apesar de ter havido registro de problemas relacionados ao clima em alguns estados produtores, o Brasil acabou colhendo a maior safra de sua história: atingiu a casa de 95,5 milhões de toneladas. As perdas registradas em estados como Goiás, Minas Gerais e São Paulo acabaram sendo compensadas pelas boas produtividades obtidas no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina, no Paraná, no Mato Grosso do Sul e no Mato Grosso. Notou-se que a valorização da moeda norteamericana foi a grande aliada do produtor brasileiro, condição que deve se manter e até mesmo se intensificar nos próximos meses. Em um cenário de cotações em Chicago pressionadas pela questão fundamental de grande oferta de soja devido à possibilidade de uma nova supersafra dos EUA em 2015, o dólar deve permanecer como fator de sustentação aos preços internos.

Plano Agrícola e a crise econômica — O Plano Agrícola e Pecuário 2015/16 buscou soluções criativas para garantir o crédito ao setor, mas a situação da economia pode prejudicar a disponibilidade dos recursos. “Foi o movimento certo, mas no momento errado”, lamentou o diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Alexandre Figliolino. Segundo ele, levando em consideração a complexa situação macroeconômica, o Governo mostrou criatividade para buscar recursos alternativos, além dos tradicionais, como os depósitos à vista e a poupança verde.

A superprodução brasileira de 100 milhões de toneladas poderá ser atingida a partir do possível aumento de produtividade de 3.025 quilos para 3.047 quilos por hectare

Para o dirigente, a concepção do Plano foi correta, protegendo pequenos e médios produtores e indicando à agricultura empresarial novas alternativas, como os recursos captados através de Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) junto ao mercado. “Mas o momento é complicado, unindo juros altos e forte aversão ao risco”, completa.

Figliolino destaca ainda a volatilidade do câmbio, a queda nos preços das commodities em dólar e os juros elevados. “Todo esse cenário se juntou a uma conjuntura desafiadora. O ano promete ser muito desafiador ao produtor”, alerta. O diretor da Abag lembra ainda que a provável alta nos juros nos Estados Unidos vai trazer ainda mais volatilidade ao câmbio. “A alta do juro, a volatilidade do dólar e um cenário de economia frágil trarão uma instabilidade pouco vista na história do País”.

Porém, se o cenário econômico não é dos melhores, uma das consequências da crise está garantindo a melhora dos preços da soja: o câmbio. O real fraco favorece o mercado exportador e garantiu até o momento a rentabilidade da oleaginosa, ainda que em patamares bem inferiores aos praticados nas últimas temporadas. As incertezas econômicas, como a dificuldade do Governo em cumprir as metas fiscais, e as frequentes derrotas políticas do Governo Dilma acarretaram em um ano de muito nervosismo no mercado financeiro. Os investidores buscam um porto seguro. Essa aparente tranquilidade é buscada através da compra de dólares.

Do início do ano até o começo de agosto, o dólar comercial acumulou valorização de 33%. A moeda americana abriu o ano cotada a R$ 2,662. No fechamento do dia 5 de agosto, o valor do dólar era de R$ 3,539. Esse desempenho segue dando competitividade à soja brasileira e garantindo a firmeza dos preços internos, mesmo com os preços futuros menores e a perspectiva de uma ampla oferta mundial da commodity.

Cenário mundial — O relatório de julho do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) projetou safra mundial em 2015/16 de 318,92 milhões de toneladas. No relatório anterior, o número era de 317,58 milhões. Os estoques finais foram reduzidos de 93,22 milhões de toneladas para 91,8 milhões, abaixo do esperado pelo mercado, de 92,3 milhões. A projeção do Usda aposta em safra americana de 105,73 milhões de toneladas. Para o Brasil, a previsão é de uma produção de 97 milhões de toneladas, enquanto a safra argentina deverá ficar em 57 milhões. A China deverá importar 77,5 milhões de toneladas.

Os produtores brasileiros deverão cultivar 32,921 milhões de hectares de soja em 2015/16, a maior área até hoje, 3,8% a mais que a safra anterior, de 31,728 milhões

Em relação à temporada 2014/15, a safra mundial deverá ficar em 318,6 milhões de toneladas, com estoques de 81,68 milhões. A safra do Brasil está estimada em 94,5 milhões de toneladas e a argentina, em 60 milhões, 500 mil acima da projetada em junho. Os chineses deverão importar 74 milhões de toneladas, contra 73,5 milhões do relatório anterior. A avaliação dos números do Usda confirma que, por mais um ano, o mercado vai trabalhar com uma ampla oferta de soja e com estoques mundiais em recuperação. Até o momento, as indicações são de safras cheias nos principais países produtores. Repetindo o que aconteceu na temporada passada, Estados Unidos, Brasil e Argentina tendem a colher supersafras, sendo que os dois últimos deverão bater recorde.

A perspectiva para os preços só não é pior devido à demanda chinesa, que tende a permanecer firme. Analistas, no entanto, alertam que os chineses estão formando estoques públicos e que ninguém ainda tem a real dimensão do tamanho dessa reserva, o que poderá provocar especulações ao longo do ano. O ritmo das exportações brasileiras segue forte em 2015. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio (MDIC), de janeiro a julho, os embarques de soja em grão somavam 40,7 milhões de toneladas. Em igual período do ano anterior, esse volume era de 37,8 milhões. Em todo o ano passado, as exportações ficaram em 45,7 milhões de toneladas.

O relatório de julho do Usda projetou a safra mundial 2015/16 em 318,92 milhões de toneladas, sendo que a safra americana seria de 105,73 milhões

Oferta e demanda — As exportações da oleaginosa deverão totalizar 52,25 milhões de toneladas na temporada 2015/16, com avanço de 4% sobre 2014/15, com embarques estimados em 50,2 milhões de toneladas. A previsão faz parte do quadro de oferta e demanda brasileiro, divulgado por Safras & Mercado. O esmagamento deverá subir 6%, de 40 milhões para 42,3 milhões de toneladas. A oferta total de soja deverá subir 7% na temporada, para 103,985 milhões de toneladas. A demanda total está projetada por Safras em 97,71 milhões de toneladas, com incremento de 5%. Dessa forma, os estoques finais deverão subir 54%, de 4,076 milhões para 6,275 milhões de toneladas.

Safras trabalha com uma produção de farelo de soja de 32,15 milhões de toneladas, com aumento de 6%. As exportações deverão subir 6%, para 16,1 milhões de toneladas, enquanto o consumo interno está projetado em 16 milhões, elevação também de 6%. Os estoques deverão subir 4%, para 1,431 milhão de toneladas. A produção de óleo de soja deverá passar de 8 milhões para 8,46 milhões de toneladas, e o País deverá exportar 1,45 milhão de toneladas, com alta de 7%. A previsão é de que 2,75 milhões de toneladas sejam disponibilizadas para a fabricação de biodiesel, aumento de 10%. O consumo interno deve crescer 6%, para 7 milhões, contando o uso para o biocombustível. A previsão é de aumento de 2% nos estoques para 462 mil toneladas.