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Açúcar e Etanol

 

Safra alcooleira

O consumo de etanol hidratado aumentou 38% no primeiro semestre de 2015 devido à retomada da Cide, que aumentou o preço da gasolina. A cotação do etanol por vezes é 15% superior à do açúcar ao usineiro. A produção de açúcar na safra 2015/16 teve queda de 17%. A colheita de cana no Centro-Sul deverá aumentar 5% nesta safra

Fábio Rübenich - fabio@safras.com.br

Após um ano marcado por estiagem e preferência pelo etanol em 2014, o cenário é parecido agora em 2015 no setor sucroenergético. A seca saiu de cena, mas permanece a tendência de os usineiros direcionarem mais cana para a produção do biocombustível, deixando o açúcar um pouco de lado. Até o final da primeira quinzena de julho, haviam sido colhidas e moídas pelas unidades produtoras do Centro- Sul 230 milhões de toneladas de cana, referentes à safra 2015/16. Nada menos que 60% desse montante foi Case utilizado para a produção de etanol, principalmente hidratado, o utilizado diretamente nos veículos como combustível. No mesmo período da safra anterior, a porção destinada à produção do biocombustível fora de pouco mais de 56%, segundo dados da União da Indústria da Cana-de- Açúcar (Unica).

Chama a atenção o fato de que, com a safra no auge produtivo, há crescimento de volume apenas de etanol hidratado, que somava até então 6,6 bilhões de litros, 12% a mais que a produção parcial da temporada passada. A produção de açúcar tem queda acentuada, na casa de 17%, totalizando 10,7 milhões de toneladas, assim como do etanol anidro, que é misturado à gasolina atualmente em uma proporção de 27%, que diminuiu mais de 20%.

O consumo de etanol hidratado está muito aquecido no mercado brasileiro após algumas medidas de estímulo do Governo Federal, que retomou a partir de fevereiro a cobrança da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) sobre a gasolina (na ordem de R$ 0,22 por litro), tornando, na bomba, o biocombustível mais vantajoso que a gasolina em diversos estados. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), as vendas de etanol no Brasil cresceram 38% no primeiro semestre, para 8,4 bilhões de litros. Já as vendas de gasolina, depois de anos de crescimento acelerado, apresentaram queda de 5% até junho.

Segundo o analista de Safras & Mercado Maurício Muruci, o etanol tem trazido mais divisas aos usineiros na comparação com o açúcar desde o início do ano. Em fevereiro, ainda na entressafra da cana, o biocombustível chegou a ter um preço médio 11% maior que o do açúcar na média do mês. “Há dias em que o etanol chega a ter um preço quase 15% maior do que o do açúcar”, diz Muruci. Ele projeta que a safra 2015/16 continuará mais “alcooleira” até seu final, em dezembro, quando a proporção de cana destinada ao etanol deverá estar em cerca de 56% a 57%, apenas um pouco abaixo dos atuais 60%.

Projeção da Safras & Mercado indica que as usinas de açúcar e etanol do Centro-Sul devem colher e moer 595 milhões de toneladas de cana em 2015/16. Se confirmado, o volume representará uma elevação de 4% em relação às 572 milhões de toneladas colhidas em 2014/15. Segundo Muruci, a renovação de canaviais nos últimos três anos foi “relativamente forte”, apesar da crise pela qual passa o setor. “A renovação dos canaviais é um método de redução de custos. Preços baixos representam um estímulo para a renovação. Um canavial novo produz até o dobro do que um de cinco ou seis anos de idade”, explica.

Cotações despencam — Pressionado por anos consecutivos de superávits de oferta, as cotações internacionais do açúcar registram queda acentuada em 2015. Na Bolsa de Nova York, os contratos com entrega em outubro do açúcar bruto caíram de 15,67 centavos de dólar por libra-peso em 31 de dezembro de 2014 para 11,24 centavos em 27 de julho, uma queda acumulada de 28,2%. O nível atual dos preços do açúcar é o mais baixo desde janeiro de 2009.

Os preços caíram de um pico de 36,08 centavos de dólar por libra-peso, em fevereiro de 2011, para uma mínima de seis anos e meio, de 11,10 centavos de dólar por libra-peso, em junho de 2014. Segundo estimativas da Safras & Mercado, a atual safra internacional de açúcar, 2014/15 (outubro-setembro), tem excedente de oferta na ordem de 1,8 milhão de toneladas. “Por si só, esse superávit é fator de baixa para o mercado, ao contrário da temporada 2015/16, que deverá ser a primeira com déficit após cinco anos”, diz Muruci.

A Organização Internacional do Açúcar (OIA) aponta que esse déficit será de 2,3 milhões de toneladas, enquanto que, para 2017, a demanda poderá superar a oferta em mais de 6 milhões de toneladas. “Com isso, os preços internacionais deverão ter alguma recuperação nos próximos meses, com Nova York fechando o ano talvez na casa dos 13 centavos. Já para 2016, a média de preço deve ser de 14 centavos”, projeta Muruci. No entanto, em evento recente realizado em Londres, o diretor-executivo da OIA, Jose Orive, em entrevista à agência Reuters, disse que os estoques altos irão “domar os preços do açúcar apesar das expectativas de que o aumento no consumo aumentará o déficit global após anos de excedentes. Apesar de nossa previsão de déficit, haverá pouco reflexo nos preços, dada a acumulação dos estoques”.

Apesar da crise do setor, a renovação de canaviais nos últimos três anos foi bastante intensa, o que resulta em aumento de produtividade e produção

Para Maurício Muruci, a valorização do dólar frente a outras divisas, principalmente ao real, tende a aumentar a disponibilidade de açúcar no mercado internacional, originando um vetor de pressão negativa sobre as cotações futuras do açúcar branco, em Londres, e sobre o açúcar bruto, em Nova York. “Isso deve impedir que Nova York volte a alcançar a faixa de 15 centavos de dólar por libra-peso, pelo menos no curto prazo”, coloca.

Muruci salienta que projeções oficiais do Banco Central apontam que o dólar deve fechar o ano valendo R$ 3,30 nas casas de câmbio. “Mas a tendência de alta nos juros nos Estados Unidos pode fazer a divisa alcançar a faixa de R$ 3,50”, assinala. Com uma moeda local enfraquecida, os exportadores de commodities ficam mais estimulados a colocarem seus produtos à venda no mercado externo, já que a moeda utilizada na transação é o dólar.

Equilíbrio entre oferta e demanda — A produção mundial de açúcar em 2015/16 deverá totalizar 173,405 milhões de toneladas, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda). Na temporada 2013/14, a produção ficou em 174,308 milhões de toneladas. Conforme o Usda, o consumo total de açúcar deverá atingir 173,413 milhões de toneladas em 2015/ 16, contra as 170,68 milhões de toneladas estimadas para 2014/15.

Segundo o Usda, o consumo previsto para 2015/16 é recorde, enquanto que a produção deve cair pelo terceiro ano consecutivo. A queda de um ano para outro está projetada em cerca de 900 mil toneladas, por conta de reduções na União Europeia, Índia e Ucrânia, que absorverão aumentos na Tailândia, no Paquistão, no Brasil e na Rússia. Com a demanda crescente, as importações mundiais devem aumentar 3% em 2015/16, enquanto que os estoques devem cair 3,8 milhões de toneladas, para 40,5 milhões de toneladas. Haverá, então, segundo o Usda, um equilíbrio entre oferta e demanda de açúcar na temporada 2015/16, após alguns anos consecutivos de superávit.

O etanol tem trazido mais divisas aos usineiros na comparação com o açúcar desde o início do ano, e hoje 60% da cana é transformada no combustível

Para o Brasil, o Usda estima a produção de 2015/16 em 36 milhões de toneladas, contra 35,85 milhões de toneladas em 2014/15. Esse modesto aumento na produção é explicado por um maior volume de cana estar sendo direcionado para o etanol, diante do crescimento da lucratividade do biocombustível. As exportações devem cair pelo terceiro ano consecutivo, atingindo 24,4 milhões de toneladas. Um incremento na demanda deve levar o mercado internacional de açúcar a ter déficit de oferta na ordem de 1,7 milhão de toneladas em 2015/16, apesar de um recorde de produção estabelecido na temporada anterior, de acordo com a trading britânica Czarnikow. A produção global de açúcar em 2015/16 deve atingir 186 milhões de toneladas, a segunda maior da história.

A produção de açúcar de cana deve atingir globalmente um recorde de 149,7 milhões de toneladas. Já a produção de açúcar de beterraba deve diminuir para 36,3 milhões de toneladas devido a uma redução no cultivo na União Europeia, apesar de um quase recorde de 39,2 milhões de toneladas registrado em 2014/15. Já o consumo mundial de açúcar, segundo a Czarnikow, deve crescer 2,2% em 2015, e mais 2% em 2016, ultrapassando o crescimento da população. Contudo, amplos estoques significam que o impacto do déficit nos preços pode ser adiado.