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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Algodão

Nas mãos da China

O país asiático detém mais da metade dos estoques mundiais de algodão, circunstância que, somada à alta produção mundial e ao aumento do consumo de fios sintéticos, deixa o mercado pouco animado e levará a área brasileira a encolher em 2014/15

Rodrigo Ramos rodrigo@safras.com.br

O primeiro semestre de 2014 começou com movimentações positivas nos preços do algodão no âmbito nacional. “Sazonalmente, já era um momento de alta nas cotações, que juntou com a incerteza em relação à nova safra, que estava apenas em especulação quanto ao volume a ser plantado”, explica o analista de Safras & Mercado Rodrigo Neves. Com os Estados fechando os números de área plantada e gerando uma boa estimativa de safra por vir, os preços começaram a cair gradativamente, devido ao bom volume de estoque das indústrias nacionais e também à redução drástica no volume de consumo chinês.

A China era, até então, o terceiro maior destino do algodão em pluma produzido no Brasil, absorvendo 18% das exportações brasileiras. Mas esse cenário mudou com as políticas governamentais em que seus vastos estoques seriam utilizados. “A China tem estocado, de acordo com as estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), cerca de 80% do consumo anual de fibra”, lembra o analista.

Em fevereiro, os preços da pluma chegaram ao patamar de R$ 2,29 por libra-peso, consequência de pouca oferta disponível, demanda aquecida, preços internacionais em alta e, principalmente, pelo dólar apreciado frente o real – o que deu suporte para que os cotonicultores canalizassem o produto para exportação. “Assim, obtendo uma margem de lucro boa sem precisar ceder muito nos preços do mercado nacional”, pondera. “Este cenário manteve-se sem grandes mudanças até o final de março”, acrescenta. Conforme o preço da pluma CIF São Paulo apresentado no relatório semanal de Safras & Mercado, em abril, foi observado que o comportamento deu-se de uma forma diferente. “Neste período, em 2013, a movimentação das cotações era ascendente, diferente do que pudemos observar em março do corrente ano”, explica. Isto se justificou devido à retração das aquisições da indústria têxtil brasileira. “Com a redução do consumo da ponta da cadeia, houve uma contenção do volume de operações”, destaca.

Pluma pressionada - — O preço da pluma vem sendo cada vez mais pressionado, não só no mercado doméstico brasileiro, mas também no mundo inteiro. “No mês de junho, podemos observar uma queda de mais de 20 centavos de dólar por libra-peso no preço do contrato spot de fibra de algodão negociado na Ice Futures, nomeado como Spot Ice em verde no gráfico de preços da pluma”, comenta Neves. Já no mercado físico brasileiro, as quedas foram mais gradativas, com uma leve alta momentânea no final de maio. A tendência durante todo o primeiro semestre de 2014 apontou para um preço brasileiro bastante competitivo em relação ao mercado internacional. Isto refletiu bastante na balança comercial da pluma, em que as exportações tiveram bons números apesar da redução de participação da China no mercado. “Em julho, com o mercado absorvendo os bons números da safra norte-americana, as cotações na Ice Futures sofreram grande quedas, trazendo a paridade de importação para perto do preço de Rondonópolis/MT utilizado na análise”, finaliza.

Safra mundial - — O Comitê Internacional do Algodão (Icac) projeta que a produção mundial da fibra totalizará 25,37 milhões toneladas na temporada 2014/2015, ante 25,81 milhões na safra 2013/ 14, conforme a estimativa de julho divulgada pela entidade. Em junho, eram esperadas 25,16 milhões. O consumo mundial de algodão deve totalizar 24,14 milhões de toneladas na safra 2014/2015. Para 2013/ 2014, são esperados 23,35 milhões. As exportações para 2014/2015 foram projetadas em 8,15 milhões de toneladas, ante 8,77 milhões da temporada 2013/2014. Já os estoques finais para 2014/2015 foram previstos em 21,43 milhões de toneladas; na temporada 2013/ 14, o número foi de 20,20 milhões.

O Icac também divulgou a sua projeção de julho para a média do Índice A do Cotton Outlook na temporada 2013/2014. Conforme o Icac, a média do índice deve ficar em 0,91 centavos de dólar por librapeso, ante 88 centavos em 2012/ 2013. Na temporada 2011/12, a média ficou em 100 centavos de dólar por libra-peso. E para 2014/ 15, são projetados 87 centavos. Em junho, o índice também havia sido projetado em 0,91 centavos de dólar por libra-peso para 2013/14. Para o Usda, a produção global de algodão em 2014/15 totalizará 116,42 milhões de fardos, segundo relatório de oferta e demanda de julho. Em junho, eram esperados 115,92 milhões.

As exportações mundiais de algodão foram estimadas em 35,58 milhões de fardos para 2014/15, ante 35,56 milhões no ano anterior. A estimativa para o consumo mundial é de 111,34 milhões de fardos, ante 112,29 milhões de fardos indicados na safra anterior. Os estoques finais foram projetados em 105,68 milhões de fardos, ante 102,71 milhões de fardos projetados no relatório passado. A expectativa é que a China colha 29,5 milhões de fardos na temporada 2014/15, mesmo patamar do ano anterior. A produção do Paquistão para 2014/15 foi mantida em 9,5 milhões de fardos. O Brasil tem safra estimada em 8 milhões de fardos, ante 8,3 milhões no período anterior. A produção indiana deve chegar a 28 milhões de fardos, ante 28,5 milhões no ano anterior.

Já os norte-americanos, conforme o Usda, deverão colher 16,5 milhões de fardos, ante 15 milhões no relatório passado. O banco Morgan Sanley, porém, projeta 17,2 milhões de fardos, reflexo do clima úmido no outono naquele país. A produtividade foi prevista pelo banco em 830 libras por acre, 1/3 superior à safra 2013/ 14 e 4,2% superior à estimativa para 2014/15.

Mercado - — Mais da metade dos estoques mundiais concentrados em um único país, produção com taxas de crescimento acima do consumo e aumento exponencial do mercado de fibras sintéticas são fatores que vêm trazendo grandes preocupações para o cotonicultor. O Brasil exportou 467 mil toneladas de pluma de agosto/2013 a junho/2014 e faturou US$ 900 milhões, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A variação e as projeções futuras das cotações têm se tornado o objeto principal de estudo tanto de analistas, que fomentam o desenvolvimento desse setor, quanto de especuladores em busca de lucros em mercados voláteis. Assim, é comum que a divulgação de boletins conjunturais sobre a cadeia produtiva afete os preços nas mais diversas bolsas que negociam títulos que precificam a pluma.

O Usda vem trazendo contínuas projeções com crescimento nos números de produção, estabilidade nos números de consumo mundial e crescimento nos estoques, fatores que vêm puxando o mercado internacional para baixo. “Consequentemente, gera queda do consumo devido à esperança de que o preço esteja menor ainda no próximo mês, assim fazendo com que as indústrias não mantenham grandes estoques e façam apenas compras visando à demanda imediata”, explica Rodrigo Neves. “Além disso, o poder de manipulação das cotações, exercido pela China, detentora de grande parcela do estoque mundial de algodão, reforça os impactos”, lembra o analista. Os dados do Icac apontam que o nível dos estoques representam o equivalente a 57,6% do estoque mundial, assim gerando uma forte correlação do comportamento da China em relação ao seu consumo (e uso do estoque) para com as flutuações dos preços da pluma.

Com o crescimento de consumo chinês de pluma, houve um grande avanço de área de produção da commodity no Brasil, visto que o principal destino do produto brasileiro é a China. Esse aumento de produção fez com que houvesse crescimento do mercado consumidor asiático da pluma brasileira, tendo entre os principais destinos – após a China – a Indonésia e Coreia do Sul. Na Europa, o maior comprador é a Turquia.

O Comitê Internacional do Algodão (Icac) projeta que a produção mundial da fibra totalizará 25,37 milhões de toneladas na temporada 2014/ 2015, ante 25,81 milhões na safra 2013/14

Pouca esperança em 2014/15 - — As expectativas do cotonicultor brasileiro para com a situação do algodão em longo prazo não têm apresentado muitos pontos positivos. A baixa demanda da indústria somada ao vasto decréscimo nos contratos de pluma da Ice Futures gerou uma queda mais acentuada do que o previsto nos preços brasileiros em busca da competitividade. O aumento de estoques brasileiros deve ser uma consequência direta desse mercado em queda, fazendo com que os produtores busquem comercializar em um momento mais interessante financeiramente.

Os níveis de exportação, que já estavam abaixo dos anos anteriores devido à ausência da China, apresentaram mais um viés negativo com a concorrência de preços norte-americanos. “Analisando os dados da balança comercial da pluma de algodão, podemos observar que, nos últimos 12 meses, Indonésia e Coreia do Sul apresentam volumes de compras 28,6% e 8,9%, respectivamente, acima do importado pela China”, destaca o analista de Safras & Mercado. “Isto tem sido visto pelo mercado com olhos pessimistas, mas podemos notar um crescimento significativo das economias asiáticas, que têm estado cada vez mais presentes no mercado global com variações predominantemente positivas na commodity em questão”, pondera.

Com o crescimento de consumo chinês da pluma, houve um grande avanço de área de produção no Brasil, visto que o principal destino do produto brasileiro é a China

A tendência é que haja uma correção negativa na área brasileira a ser plantada em 2014/ 15, devido à desaceleração da economia brasileira como um todo, que gera acomodação da indústria têxtil brasileira, a qual representa mais da metade do consumo de pluma de produção doméstica. “Somado a isto, devemos levar em conta os vastos estoques chineses, que geraram a menor presença deste país no mercado”, frisa. Levantamento de intenção de plantio de Safras & Mercado, divulgado em julho, indica que a área plantada deverá ficar em 1,109 milhão de hectares, com queda de 4,3% sobre a temporada anterior, quando o plantio ocupou 1,158 milhão de hectares. Se for confirmado o aumento de 4,3% na produtividade, a produção brasileira deverá permanecer praticamente inalterada, em torno de 1,7 milhão de toneladas.