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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Boi Gordo

Portos movimentados

O crescimento dos embarques de carne bovina no primeiro semestre de 2014 deixou o mercado interno bem ajustado, o que refletiu no aumento das cotações do boi gordo. Tendência no segundo semestre é de arroba acima de R$ 120, segundo Safras & Mercado

Carine Bidone Lopes carine@safras.com.br

O destaque no boi no primeiro semestre foi o grande volume de exportação de carne. O bom desempenho já foi destaque em 2013 e segue como destaque em 2014. A franca expansão dos embarques faz com que o mercado interno se depare com um nível de oferta bem ajustado, o que certamente favorece a alta dos preços da carne, e ajuda a entender o aumento da curva de preços. As exportações estão em ritmo acelerado e prometendo um bom segundo semestre. A receita Seagro-TO 2014/2015 55 líquida das exportações no primeiro semestre foi de US$ 3,2 bilhões, superior a todo 2013, de US$ 2,8 bilhões. Com altas no boi nos Estados Unidos, sem oferta no Uruguai e na Argentina, além de Austrália sem novidades, o foco continua sendo Brasil e Índia. Por esse quadro, deve-se ainda manter um segundo semestre de bom fluxo para o mercado internacional e equilibrando a disponibilidade interna com esse maior fluxo de vendas. Não se nota, no momento, uma variável negativa para a exportação e alguma desvalorização cambial pode agregar margens e competitividade aos exportadores.

O comportamento do mercado de boi no primeiro semestre pode ser dividido em dois momentos distintos. O primeiro trimestre foi marcado pela restrição de oferta de boi gordo de pastagem. O setor experimentou forte alta dos preços em todas as regiões, alcançando ponto de máxima histórica para a arroba do boi gordo nas principais regiões produtoras. O que se nota nos dados de abates ainda preliminares do primeiro semestre de 2014 é de que o volume do período é praticamente igual ao registrado em 2013. Então, as motivações para os preços têm outros fundamentos que não a baixa oferta. A alta do bezerro, a condição de clima no semestre, a demanda interna, as exportações e as expectativas com a Copa do Mundo podem ter associado aos preços do boi gordo ingredientes bem mais importantes no período.

Os dados preliminares do primeiro semestre de 2014 apontam um abate de bovinos 2,3% abaixo do primeiro semestre de 2013. Esse dado ainda se mostra negativo pelo fato de que junho ainda dispõe de agregação de abates regionais não contemplados na estatística. Esses dados deveriam ser fechados em meados de agosto. Mesmo com os números preliminares, o que se nota é que o volume de abates em 2014 não é expressivamente baixo a ponto de gerar uma alta representativa como a registrada em 2013. Definitivamente, os motivos da alta não estão na oferta. A condição climática do primeiro semestre foi um dos indicadores que afetaram esta oferta sazonalmente. A seca no Sudeste e parte do Centro-Oeste no período e o excesso de chuvas no Centro- Norte do País causaram irregularidades no perfil da comercialização do boi gordo.

Houve menor oferta do Norte, por exemplo, e uma maior pressão de compra nas regiões mais próximas de São Paulo. Essa conjunção pode ter causado a impressão da falta de oferta, porém, no conjunto dos abates, esse quadro não existiu. Os preços do bezerro e boi magro não estão acompanhando a volatilidade dos preços do boi gordo, mantendo-se firmes, com oferta escassa e dificultando a reposição. O bezerro segue com patamares recordes mesmo com a acomodação dos preços do boi gordo. Então, não foi o boi gordo que puxou os preços do bezerro. Realmente há uma procura forte e uma oferta ajustada no bezerro. Como se tem apontado, a velocidade dos nascimentos não tem sido proporcional à velocidade dos abates e da necessidade de reposição. Isso manterá o preço do bezerro em patamares altos enquanto esta curva de nascimentos não melhorar.

Oferta maior de confinados -— A situação assumiu uma conotação diferente a partir da segunda quinzena de maio, quando começou a aumentar a oferta de confinados no mercado interno. Isso levou o setor à situação que se verifica neste momento, com bom nível de oferta e com consequente queda dos preços. Conforme informações de Safras & Mercado, os abates de bovinos recuaram 14,3% em junho de 2014 em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram abatidas 2,701 milhões de cabeças contra 3,151 milhões. E de janeiro a junho, os abates de bovinos recuaram 2,3%, de 19,336 milhões de cabeças de 2013 para 18,883 milhões de cabeças.

Os principais problemas enfrentados pelo mercado nesse período foi o preço do gado de reposição muito acentuado. Isso provocou algumas dificuldades para os ciclos de confinamento e de semiconfinamento, que se depararam com preços acima da normalidade. Esse é o principal suporte aos preços para o segundo semestre, o que leva a crer na arroba acima de R$ 120 no interior paulista. A notícia de que frigoríficos irão entrar em férias coletivas no Mato Grosso do Sul está distante de se tornar uma realidade. A não ser pequenas plantas que não dispõem de contratos a termo, o restante dos frigoríficos está bem posicionado em escalas e com margens em relação ao atacado. Naturalmente, os abates voltaram a crescer com a chegada dos confinamentos e mais oferta no atacado começa a surgir. O foco era em agosto o Dia dos Pais; período sazonal que concentra uma maior demanda.

Os dados preliminares do primeiro semestre de 2014 apontam um abate de bovinos 2,3% abaixo do primeiro semestre de 2013

Os frigoríficos, de uma maneira geral, não encontram dificuldades para compor suas escalas de abate, posicionadas em média entre quatro e cinco dias úteis. Ao menos, no curto prazo, não há sinais que apontem para reação. A queda dos preços de balcão ocorre de maneira generalizada, ilustrando o bom nível de oferta em toda a Região Centro- Oeste. No Estado de São Paulo a arroba do boi gordo foi cotada a R$ 119, livre à vista, em Presidente Prudente. Enquanto isso, em Santa Fé, a indicação recuou para R$ 118/ 119, livre à vista.

As exportações de carne bovina permanecem em bom nível, oferecendo importante suporte aos preços no atacado. Apesar do período de intensa queda, os preços permanecem acima dos praticados em 2013. Essa situação é um desdobramento do excelente resultado das exportações. Corte traseiro permaneceu cotado a R$ 9/quilo. Enquanto que o corte dianteiro segue cotado a R$ 6. Já a ponta de agulha foi precificada a R$ 6. As vendas cresceram 11,8% no semestre em relação ao mesmo período de 2013. Atingiram 1,07 milhão de toneladas com uma receita de US$ 3,2 bilhões. Este é o melhor primeiro semestre desde 2008.

Limitações de volume de vendas nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai e na Austrália garantiram ao Brasil a absorção de parcela da demanda mundial no setor. Apenas a presença continuada da carne de baixa qualidade da Índia em alguns mercados do Oriente Médio e África limita o crescimento das vendas brasileiras no ano. Esta é uma recuperação de exportações de carne bovina que se iniciou em meados de 2012 e agora vai procurando se aproximar nos volumes recordes de 2007. A demanda interna em recuperação e sustentada no primeiro semestre equilibrou a oferta disponível em relação à exportação.

A expectativa era que o bom nível de oferta também fosse observado ao longo de agosto. Além de uma boa proporção de contratos a termo. Ou seja, há pouco espaço para reação no curto prazo. Mesmo com a queda dos preços de balcão, os frigoríficos conseguem compor suas escalas. Portanto, não encontram resistência por parte dos pecuaristas, apesar das quedas sequenciais.

Segundo o analista de Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias, no segundo semestre de 2014, os preços devem permanecer acima de R$ 120/arroba. Em um primeiro momento, os preços devem se estabilizar entre agosto e setembro. Durante o último trimestre, deve ser observada alta das cotações, considerando o maior consumo que envolve o período em questão. Entretanto, Iglesias alerta que não se deve esperar grandes alterações no perfil da demanda interna no segundo semestre de 2014. Portanto, as alterações devem surgir pelo lado da oferta, ou seja, perfil do confinamento e entrada da safra 2015. A demanda mundial também deverá manter a linha de sustentação já que os demais concorrentes não estão com volumes elevados disponíveis para reduzir as vendas brasileiras.

Durante o último trimestre do ano deverá ser registrada alta das cotações, considerando o maior consumo que envolve o período de final de ano

A questão agora é sazonalidade, câmbio e oferta interna disponível. Acredita-se que o segundo semestre indica a manutenção das vendas mensais entre 180 mil/200 mil toneladas/mês, o que possibilitaria fechar o ano com recomposição dos embarques ao nível de 2008. Conforme Iglesias, para o início de 2015, devem ser observadas algumas mudanças de perfil. “O comportamento dos preços tende a ser um pouco diferenciado, não tão agressivo como o verificado em 2014. Isso considerando que a safra de boi gordo tende a transcorrer dentro da normalidade”.