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Café

Preços sustentados

A quebra da safra brasileira em razão do clima levantou as cotações em Nova York. E as consequências desta realidade vão entrar 2015 a dentro

Lessandro Carvalho lessando@safras.com.br

O mês de julho marcou o início da temporada comercial brasileira de café 2014/15, com o mercado chegando a agosto com preços internacionais bem sustentados em função da quebra da safra brasileira de 2014 e com perspectivas de problemas produtivos também para 2015. As cotações subiram bastante em julho, com revisões para baixo nas estimativas da produção brasileira de 2014 e com entidades falando em uma colheita em 2015 possivelmente próxima dos números de 2014.

A falta de chuvas em janeiro e fevereiro no cinturão cafeeiro prejudicou muito a produção em 2014 e vai levar consequências para 2015. E ainda houve chuvas fora de época em julho em áreas do parque produtor, que deveriam ocorrer em setembro, com notícias de que essas precipitações podem ter induzido floradas precoces. Essas floradas não devem vingar e isso tende a resultar em perdas na safra de 2015, já afetada pela estiagem do começo do ano.

O analista de Safras & Mercado, Gil Barabach, destaca que é interessante observar algumas diferenças entre o início da atual temporada e o último ciclo comercial. “Talvez, o ponto mais marcante para quem olha os dois momentos é a diferença de preço”, comenta. Em julho de 2013, o caféarábica duro sul-mineiro com 15% de catação era negociado em torno de R$ 286 a saca de 60 quilos em média, enquanto agora esse mesmo café troca de mãos ao redor de R$ 426. A diferença a favor de 2014 é de 49%, ou de R$ 140. Na Bolsa de Mercadorias de Nova York, o ganho foi ainda mais expressivo, chegando a 58%, com o arábica passando de 123 centavos de dólar por libra-peso em 2013 para 195 no período nesse final de julho.

Barabach comenta que o ambiente de mercado no início da temporada passada era bem “depressivo”. O Brasil vinha de uma safra recorde em 2012/13 (55,80 milhões de sacas), que, associado a um ritmo mais travado das vendas, deixou os armazéns cheios ao final da temporada. E para complicar ainda mais a vida dos produtores, o País colheu na temporada 2013/14 a maior “safra pequena” da sua história, descreve o analista. “Era natural imaginar uma depreciação das cotações. E esse movimento ganhou intensidade no decorrer da temporada, especialmente depois que as floradas de setembro e outubro ampliaram a promessa de uma supersafra em 2014 no Brasil”, observa. Falava-se em mais de 60 milhões de sacas. Em Nova York o arábica chegou muito perto de 100 cents/lb e no físico interno a bebida dura sul-mineira foi negociada abaixo de R$ 250 a saca, lembra o analista.

Entretanto, a estiagem e o forte calor dos primeiros meses do ano frustraram a expectativa de recorde produtivo no Brasil, e o mercado entrou em forte estresse devido ao medo do desabastecimento. A promessa de 60 milhões de sacas virou 48,90 milhões (projeções de Safras). E o café na Bolsa de Nova York, que no final de 2013 ameaçou cair abaixo da linha de 100 cents, disparou para ser negociado acima de 200 cents no pico de mercado. Internamente, o produtor nacional vendeu arábica acima de R$ 500 a saca, recorda o analista. E, no calor do momento, alguns produtores fecharam posição para a safra 2015 a R$ 600. Depois disso, o temor com a falta de produto diminuiu e o mercado corrigiu alguns exageros. Assim, o preço acabou recuando entre abril e julho de 2014. Barabach pontua que a pressão da safra brasileira colhida a partir de abril/maio acentuou o movimento negativo e o café chegou a cair abaixo de 160 cents no terminal nova-iorquino em julho/2014. Acabou reagindo na sequência e passou a ser negociado acima de 180/190 cents/lb. Embora esteja abaixo dos 200 cents de abril/2014, ainda assim fica bem longe dos 100 cents do final de 2013.

Safra 2015 vai virando protagonista -— Segundo Barabach, a quebra da safra brasileira 2014 parece precificada pelo mercado, que aguarda agora fatos novos. E as floradas da safra 2015 no Brasil candidatam-se à principal protogonista do mercado no médio prazo. Talvez por isso as chuvas de julho e o risco de floradas prematuras tenham mexido com o ânimo do mercado. Prova disso é que indicações preliminares de quebra de 10% na safra 2015, divulgadas pelo Conselho Nacional do Café, ajudaram a dar sustentação ao mercado, que rompeu barreiras e avançou além da linha de US$ 2 a libra-peso no começo de julho, reflete o analista. A demanda continua tímida, por conta do verão nos EUA e na Europa, o que levanta dúvidas sobre a consistência do movimento, pondera. O fato é que cada vez mais o mercado se volta para a próxima safra brasileira, com isso ficando ainda mais evidente diante da falta de novidades nas outras origens produtoras, afirma Barabach.

Assim, ao contrário de 2013, a perspectiva para a temporada que se iniciou em julho de 2014 é de preço sustentado. “A quebra na safra brasileira e o déficit produtivo oferecem suporte fundamental às cotações da bebida. Também se espera uma maior sensibilidade do mercado ao ciclo sazonal da oferta, o que abre boas possibilidades a preços melhores na entressafra”, acredita o analista. Porém, o grande determinante da temporada será, novamente, o potencial da próxima safra brasileira. O andamento da safra poderá dar uma nova dimensão ao movimento de alta ou, se as floradas ficarem acima do esperado, suavizar o efeito sazonal prometido para o restante do ciclo comercial. “Nem terminou a colheita da safra atual e tiveram início as especulações em torno da safra nova nacional”, analisa.