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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Feijão

Danosa superoferta

Após dois anos consecutivos de preços altos, o Brasil volta a ter uma grande safra de feijão em 2013/14, o que deve gerar excesso de produto no mercado interno

Gilson R. da Rosa

A produção nacional de feijão em 2013/14, somadas as três safras, deverá alcançar 3,53 milhões de toneladas, volume 25,8% maior que o registrado no período anterior (2,81 milhões de toneladas). Os números fazem parte do 10º levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgados em julho. A área plantada cresceu 8,2% e está projetada em 3,33 milhões de hectares. A produtividade média também registrou incremento (16,2%), com 1.061 quilos por hectare.

De acordo com a Conab, a primeira safra, já colhida, está projetada em 1,27 milhão de toneladas, representando um acréscimo de 32,1% ante 2012/13 (964,6 mil toneladas). A segunda deverá alcançar 1,34 milhão de toneladas, aumento de 21,1% (1,11 milhão de toneladas). No Paraná, principal produtor da segunda safra, a estimativa é de que sejam colhidas 416,4 mil toneladas, superando em 18% a colheita anterior no mesmo período (352,8 mil toneladas). A terceira, projetada em 916,2 mil toneladas, deverá ser 24,6% maior que as 735,3 mil toneladas da safra anterior.

O pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão Alcido Wander explica que, após ter passado por dois períodos consecutivos de preços altos, o Brasil Sebastião José de Araújo/Embrapa Arroz e Feijão volta, em 2013/2014, a ter uma grande safra de feijão, o que pode gerar uma superoferta interna, principalmente para o feijão tipo comercial carioca. “Os preços elevados até 2013 motivaram um aumento da área plantada nesta safra, gerando uma oferta expressivamente maior que a demanda. O resultado foi o estoque de passagem relativamente alto e a consequente queda do preço do produto para níveis inferiores ao preço mínimo estabelecido pelo Ministério da Agricultura, que é de R$ 95 para a saca de 60 quilos”, avalia.

Wander observa que os ganhos na cadeia do feijão no mercado paulista estão sendo muito desiguais. 2014/2015 53 “Enquanto os produtores e as redes varejistas estão tendo uma boa margem de comercialização, as indústrias operam com margens muito pequenas e até negativas”, diz. Ele informa que, nos últimos 12 meses (julho/2013 a junho/2014), a margem de comercialização média dos produtores tem sido de 45,11% (53,25% no ano anterior); dos cerealistas, -6,40% (0,91% no ano anterior); e das redes de varejo, 61,29% (45,84% no ano anterior).

Por outro lado, o pesquisador reconhece que o varejo, cada vez mais concentrado, está fazendo uso de seu poder de mercado, ampliando sua margem de comercialização, que era de 45,84% no período de julho de 2012 a junho de 2013, e passou a ser de 61,29% no período de julho de 2013 a junho de 2014. “É interessante observar que o preço do feijão tipo comercial preto não teve a mesma queda. Isso se deve ao fato que houve uma relativa queda na produção desse tipo comercial de feijão”, compara.

Para o analista da Correpar, Marcelo Lüders, no entanto, o volume da produção, pode ser menor que o estimado pela Conab. “Fazendo um cálculo muito otimista, acredito que chegaremos a 3,1 milhões de toneladas. Com as chuvas no Paraná em abril e maio e as noites frias do final de julho no Centro-Oeste, jamais teremos uma produtividade recorde. Além disso, sabe-se que tem ocorrido um aumento da área de feijões-caupis, cuja produtividade é menor, e esse levantamento não é feito pela Conab”, pondera.

O argumento de Lüders também está embasado no fato de o Brasil ainda ser importador líquido do que houver de feijão-preto disponível na Argentina, Bolívia e China. “Isso explica, por exemplo, porque o feijãopreto não tem problema de preço para o produtor. Já o feijão-caupi está com preço médio maior do que o ano passado. Somente o carioca comercial permanece abaixo e com oferta abundante”, analisa.

Conforme o analista, é preciso fazer uma distinção em relação às margens obtidas por produtores, redes varejistas e indústria. “Em anos de boas margens, certamente é um pequeno grupo de produtores que consegue colher com rentabilidade e os custos dificilmente são aqueles das planilhas do Governo. Novas pragas, como a mosca-branca e a helicoverpa, têm exigido um número de aplicações nunca imaginado em uma cultura de ciclo curto como a do feijão”, afirma Lüders.

O grande ganhador, segundo ele, tem sido o supermercado. “O poder econômico desses grandes grupos permite que em alguns momentos tenham margens de 200%. Quando os preços estão em alta, repassam imediatamente a correção para o consumidor. Quando estão baixos, a redução do preço nas gôndolas ocorre de maneira muito vagarosa”, pontua. Já em relação à indústria, observa que a margem do empacotador está diretamente ligada ao reconhecimento da marca pelo consumidor. “Quem buscou esse diferencial, e são poucas empresas, deverá ter margens positivas. Já o restante está desaparecendo. A concentração do varejo também implica em uma concentração dos empacotadores”, considera.

Situação de desestímulo — A próxima safra de feijão, na análise de Wander, irá depender fortemente das expectativas dos produtores em relação aos preços do milho e da soja. “Os preços mais baixos, especialmente para o feijão de tipo comercial carioca, geram uma situação de desestímulo aos produtores, que podem reduzir a área de plantio. Se isso se concretizar, poderemos voltar a ter preços maiores em 2014/2015”, considera.

O analista Lüders explica que se os preços do milho e da soja estiverem favoráveis entre os meses de agosto e outubro de 2015, período em que a primeira safra de feijão será plantada, essas duas culturas certamente serão privilegiadas em termos de área, sobrando menos espaço para o feijão. Ele acredita que para 2014/15 o feijãocarioca, que atende 75% do consumo no País, deverá ter um comportamento diferente. “Muitas vezes, após um ano de preços baixos temos um período de preços altos. Isto pode acontecer no próximo ano. Com os preços da soja um pouco mais atraentes em agosto e setembro, podemos ter mais um fator desestimulante na área de feijões tanto do carioca quanto do feijão-preto, na Região Sul”, prevê.

De acordo com o analista da Safras & Mercado Jonathan Pinheiro, a área plantada com feijão na primeira safra poderá recuar 13,7% em 2014/ 15, ocupando 1,006 milhão de hectares. Com isso, a produção deverá cair 20,5%, totalizando 1,013 milhão de toneladas. “A projeção de queda é reflexo, em grande parte, do cenário do mercado atual, que não apresenta muitas expectativas de mudança, motivando os produtores a apostar em outras culturas”, avalia Pinheiro. A Conab anunciou em julho que pretende desembolsar R$ 100 milhões neste ano para garantir os estoques em uma posição confortável. Os recursos serão usados em operações de Aquisição do Governo Federal (AGF), especialmente para compra de feijãocarioca, cujo preço tem sido o mais prejudicado pelo aumento de produção. A Conab já obteve R$ 20 milhões do Tesouro Nacional para entrar no mercado comprando feijão, mas até o início de agosto, os produtores ainda não haviam recebido este benefício.