A Granja do Ano – 33 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Hortaliças

Inovar ou desistir

O segmento de hortaliças é sensível a oscilações causadas por circunstâncias como o clima. Por isso, é importante a profissionalização do agricultor, o uso do cultivo protegido ou a formação de cooperativa

Thais D’Avila

As hortaliças estão entre os produtos mais sensíveis do agronegócio. Qualquer variação climática, por exemplo, mexe drasticamente com a renda do produtor e com a aquisição do consumidor, por causa da oscilação de preços. O grande número de produtores que atuam em pequenas áreas dificulta a organização e o ganho de escala. Por isso, quem tem uma estrutura maior já começa a investir pesado em cultivo protegido. O presidente do Instituto Brasileiro de Hortaliças (Ibrahort), Carlos Schmidt, dá o exemplo de um produtor de São Paulo que, em 2010, não tinha nada de cultivo protegido. “Atualmente, dos 150 hectares, o produtor está com 70 hectares, ou 700 mil metros quadrados de área coberta”, conta. Isso, conforme Schmidt, ocorreu porque “a transição de 2013 para 2014 teve muitos problemas climáticos. Foi completamente adversa. Tivemos falta de água, excesso de calor... foi um ano atípico. Os produtores rurais de hortaliças estão tendo que se adaptar a uma realidade completamente nova”.

Mas nem tão nova. O número de uma pesquisa realizada pela Associação dos Produtores e Distribuidores de Horti-Fruti do Produtores e Distribuidores de Horti-Fruti do Estado de São Paulo (Aphortesp) é citada pelo dirigente como um indicador de avanço no setor. Segundo ele, na mesma área cultivada em 2004, os produtores paulistas colheram, em 2011, 67% a mais de produtos. Conforme o dirigente, os produtores brasileiros mais tecnificados vão buscar tecnologia fora do País. Como um grupo de 30 pequenos produtores que irá visitar a Espanha, Itália e Alemanha para ver em feiras e visitas em propriedades quais são as possibilidades de melhorar a produção e aumentar a produtividade.

A Embrapa Hortaliças também está atuando no sentido de estimular o cultivo protegido. O chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Hortaliças, Warley Nascimento, afirma que na China existem 5 milhões de hectares que utilizam essa técnica. No Brasil, são de 20 mil a 30 mil. “É muito pouco! E a gente precisa melhorar a eficiência, pois temos novas pragas, mudanças climáticas e granizo, e o cultivo protegido minimiza estes danos”, argumenta. Conforme Nascimento, a Embrapa está trabalhando na avaliação de materiais mais adaptáveis ao cultivo protegido. “Estamos com várias pesquisas visando ao melhoramento genético para as condições tropicais”.

Estratégias para cinco anos -— O setor de hortaliças no Brasil começa a buscar uma agenda estratégica para alavancar a produção e o consumo. Uma pesquisa pretende traçar o perfil da atividade e dos produtores e um rumo para o setor nos próximos cinco anos. Uma pesquisa-piloto, realizada pelo Sebrae em São Paulo, em 2013, vai servir de base para o trabalho nacional, que está em fase de captação de recursos. Conforme o Ibrahort, a pesquisa deve custar aproximadamente R$ 1 milhão.

O trabalho realizado em São Paulo apontou que 88% dos produtores possuem cadastro no CNPJ Rural e que dois terços dos entrevistados são donos da terra em que produzem. Um dado preocupante apontado na pesquisa foi que dois em cada dez entrevistados afirmam pretender encerrar a atividade quando questionados sobre quem cuidará dos negócios no futuro. Os consultores do Sebrae avaliaram que o problema estaria relacionado à sucessão.

A ideia, apresentada na reunião da Câmara Setorial de Hortaliças, é formatar um Plano de Ação Estratégico, liderado pelo Ibrahort. O plano começaria com a pesquisa e passaria por campanhas de incentivo ao consumo e capacitação de produtores. A baixa capacitação foi outro dado levantado pelo projetopiloto realizado em São Paulo. Quase 90% dos envolvidos na atividade nunca ou raramente realizam desenvolvimento da mão de obra.

Uma pesquisa pretende traçar o perfil da atividade e dos produtores, bem como um rumo para o setor nos próximos cinco anos

Um oásis no Cerrado —- Enquanto a produção com padrão e escala é um desafio para os produtores de hortaliças, por causa do grande número de pequenas propriedades, uma cooperativa vem fazendo história no Distrito Federal. Os 250 associados da Cooperativa Agrícola da Região de Planaltina (Cootaquara) produzem 40 culturas diferentes em mais de 4 mil hectares de cultivo. Em 30 hectares já estão produzindo em estufas. Conforme o engenheiro agrônomo Paulo Ricardo da Silva Borges, da Emater/DF, 99% dos produtores utilizam a fertirrigação.

Organizados e com oferta de produtos a granel e embalados, os produtores são fornecedores de grandes redes como Walmart, Pão de Açúcar e Carrefour. O preço, como em relação aos produtores independentes, é o mercado que dita, diz Borges. Mas a diferença com a Cootaquara é que, como possuem contratos, a oscilação – tão rápida para os consumidores – demora mais para chegar ao produtor. Conforme Borges, em 2013, por exemplo, “enquanto a média do preço do tomate ficou entre R$ 18 e R$ 20 (caixa de 20 quilos), na cooperativa fechou a R$ 35.

A Cootaquara foi criada em 2001 para permitir a contratação de trabalhadores. “Foi deles que partiu a necessidade. Eles plantavam, colhiam e ficavam esperando os compradores para negociar e tinham até que carregar o caminhão. A cooperativa foi criada para que eles passassem mais tempo na propriedade produzindo”, explica Borges. Para Warley Nascimento, da Embrapa Hortaliças, a Cootaquara está fazendo história. “É uma das poucas cooperativas que funciona para hortaliças. Já estão exportando para outros Estados com uma qualidade excelente. Têm servido de exemplo, nacional e internacionalmente”, descreve. Nascimento destaca que a iniciativa permite o planejamento de compra de insumos, de vendas de hortaliças e de escalonamento de plantio.